Secreto Brilho
últimos dias tatuados pelas rosas e crianças fulgurem
suspensas no ar nocturno das casas abandonadas"
Cidália Fachada
A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros? Curtíssimas histórias brumosas e de uma duplicidade assumida de um aprendiz de Šahrzād dos tempos modernos que nunca quis entender o que era a astúcia cavilosa dos dias.
Ou dizer-lhe como gosto que sejas a minha madrugada, o meu alvor, o meu ante-meridiano, a minha tarde espessa de calor, o meu crepúsculo ácido com um copo entre os dentes, a noite funda com o teu sexo na minha boca.
Palavras-chave: SMS
Se isto fosse um blogue pedante e sério como um livro do Lobo Antunes que vai à guerra apenas para beber Martinis, escreveria assim:
"Hoje acordei como que acossado por imagens do gás de Rubídio num condensado de Bose-Einstein e a sonhar com pipas de carvalho com vintage Porto apenas para justificar as diferenças entre os cinco (número em discussão) estados da matéria e com dois livros do Cormac McCarthy (agora que já não é moda) comprados num impulso a lembrar as primícias da adolescência.
Em suma: não sei o que dizer destes novos cânones literários de tantos ignotos. O meu reino por uma cópia dos Principia Mathematica.
Post sriptum: E para o estado da matéria mais abundante no universo, que exemplo ilustrativo escolhi eu? O fogo de Santo Elmo, claro está.

Hoje a minha atenção dedicou-se de forma íntegra a uma oferta que me chegou pelo correio. Trata-se do livro "Logicomix, an Epic Search for Truth", cujos autores são Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, e do qual, aliás, já tive oportunidade de reproduzir descaradamente umas quantas vinhetas. Por coincidência, chegou-me à caixa de correio electrónico uma sinopse daquele livro de capas azuis onde se reúne um conjunto de ensaios na área da Lógica dedicados a Gödel. E acabo mesmo agora de descobrir que hoje irá decorrer um evento em Lisboa (clicar no cartaz para ampliá-lo) ao qual gostaria de ter estado presente, não me encontrasse tão distante. Por vezes, a pandilha de Whitehead, Russell e Gödel provoca-me saudades, arrisco.


[Imagens de "Logicomix, an Epic Search for Truth", brilhante livro de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou]
... intitularia esta publicação da seguinte forma: "Hoje acordei assim, como que Wittgenstein a bradar contra a existência de uma realidade matemática independente e a agitar um atiçador de forma particularmente iracunda".

Como o meu blog é tudo menos respeitável (e até tem o desplante de optar pela grafia internacional, menos domesticada) intitularia assim: "Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões, percorreu a minha pele plasmando-se em simétricos exercícios de incisão".

[Com o risco assumido de que apenas uma pequena fracção dos leitores o compreenda;
como de habitual desviado daqui]

(... e, já agora, um chapéu novo porque o outro ateimou em rodopiar em graves voltejos enquanto o avistava pelo retrovisor afastando-se. Um chapéu à Gödel, não à Hilbert, bem entendido...)

Palavras-chave: Azul, Matemática, Serendipidade
Após alguns dias absorto por uma nova demonstração de fecunda beleza (em bom rigor: uma velha demonstração que se me assemelha a algo de muito arejado e moderno) que me deixou notavelmente bem disposto e de uma pequena brincadeira com os quaterniões, esses Irmãos Metralha da Matemática, vislumbro um regresso à realidade e à árdua tarefa de trasladar os meus livros na demanda de uma nova ordenação, mais justa e salutarmente mais emotiva. É neste processo combinatório, muitas vezes pouco científico, que acabo por desviar a atenção do propósito inicial e passo a folhear a maior parte dos livros à procura de marginalia, pequenos papéis e notículas escondidas ou de uma passagem quase esquecida no nemoroso da minha memória. Releio uma página aqui e ali, dou uma sacudidela valente a um ou outro exemplar com a esperança incontida que dele brote um papelinho qualquer e quase que não presto atenção à vontade indómita dos meus dedos em percorrer longitudinalmente as lombadas, como os seus nodos tinham por hábito fazê-lo ao longo da tua espinha. Longitudinal e transversalmente, quero eu dizer. Alguns livros despertam-me o desejo de os tactear mais demoradamente. Outros convidam-me a que os cheire. A outros ainda emociona-me o amarelecimento das suas páginas; constato que envelheceram bem e permito que um breve sorriso aflore aos meus lábios.
Esqueço-me do mundo lá fora, aborrecido, grisalho. Comezinho, como costumavas dizer. Esqueço-me de todas as solicitações recebidas nos últimos dias e da correspondência atafulhada para dentro das entranhas luciferinas de uma gaveta. Por ora deixo que a luz filtrada pelas nuvens e pela vidraça me lisonjeie o rosto e sento-me no chão, ao lado de uma pilha de livros em vias de desmoronar e causar uma perturbação geofísica que faria corar de vergonha a causada por aquele vulcão islandês de nome gutural de que é moda actualmente falar.
(procuro no recôncavo interior dos livros um jardim vicejante de palavras rútilas)
De repente dou-me conta que durante este ano apenas li um punhado de livros dignos de registo. E é justamente sobre isto que pretendo falar. Daqui a umas horas.

Cinquenta anos a inspirar a perfídia e maus filmes de ficção-científica.
[Imagem: fotograma de Goldfinger (1964) com a equação geral do ganho para a amplificação óptica]
Palavras-chave: Física Pop
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