10 de Janeiro de 2012

Secreto Brilho

"Espero que as tangerinas brilhem antes de sangrarem os
últimos dias tatuados pelas rosas e crianças fulgurem
suspensas no ar nocturno das casas abandonadas"

 Cidália Fachada



10 de Dezembro de 2011

Meu amor, amor meu, por fim renunciar à escrita com brevíssimas palavras





Aguardando que me perguntasses novamente como é adormecer nos meus braços, que me ciciasses ao ouvido que não há outro lugar onde preferisses estar. E eu, mesmo habitando os interstícios da luz, poder dizer-te apenas uma vez mais: "E a ti amei-te pela única razão certa que afinal também é a verdade redentora que procura o belo." Poder dizer-te uma vez mais que, para lá da definitiva derrota, sou o homem mais feliz do mundo sempre que evoco o azul-mais-que-azul. Mesmo sem direito ao pauzinho de canela  haveria sempre o cesto de piquenique na bagageira do carro aguardando por ti.



10 de Agosto de 2011

Acorda. Dirige o teu olhar para o nascente. Um pouco mais à direita talvez. Orionte, o caçador, está a nascer. Há uma alba que se avizinha - todos os meus sentidos se despertam para esta. Parece que o cri-cri dos grilos se intensifica à medida que os meus olhos não se cansam de olhar para o céu. Ao longe o ruído tímido da cidade. Por vezes um carro a passar sem contudo interromper a detonação calma que me aperta. O som do comboio trazido pela brisa que me despenteia o cabelo. Uma sensação de espanto pelo firmamento há muito arredado de mim. Acorda. Partilho contigo esta beleza. Entreabro a boca de espanto e timidez pelo universo. Por tudo quanto existe. Por tudo quanto me une a ti, mesmo sem o saberes. Um meteoro dardeja o céu. É o tempo das perseides. Como me podia ter esquecido delas? Há tanto tempo que sinto que não observo o céu contigo. Acorda e lê Celan:

"Leg ihm dies Wort auf die Lider:
vielleicht
tritt in sein Aug, das noch blau ist,
eine zweite, fremdere Bläue,
und jener, der du zu ihm sagte,
 träumt mit ihm: Wir."

["Depõe-lhe esta palavra sobre as pálpebras:
talvez
surja nos seus olhos, ainda azuis,
um outro, mais estranho, tom de azul,
e aquele que o tratava por tu
sonhe com ele: Nós."]

Acorda que te beijo as pálpebras, Azul.

9 de Junho de 2011

(ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)



Quando terminei de escrever fui assaltado por uma espécie de melancolia. Como se quisesse permanecer para sempre naquele texto, como se aquele homem de cabelos grisalhos pudesse ser eu e a mulher de tez sempre tisnada pelo Sol de vestidos rodopiantes e joelhos esfolados a lembrarem-me as crateras da Lua (e eu sei lá porquê, porque és o meu deus animista das coisas) fosses tu, a única interpretação do mundo, entre tantas possíveis: tu eras o colapso da minha função de onda, tenho este desvario em afirmá-lo, embora não o possas compreender. Como se me agradasse perder-me no meio das entrelinhas de palavras minuciosamente buriladas. Não queria ter de dar um ponto final à história, despedir-me para sempre do sábio e diletante gato que só gostava de Wittgenstein ou do cão que se chamava Óscar e que percebia muito pouco de Filosofia. Queria que aquelas palavras continuassem a habitar a superfície da minha pele como microorganismos simbióticos. Desejava que os ditirambos do Prof. Ricci se alvoraçassem um pouco mais na ponta dos meus dedos ou que o plano principal da obra tivesse sido um pouco mais esparso, mais milimétrico, mais arrumado, mais caligráfico, como que se animado pelo punho de um Walser em Waldau, como se a minha escrita fosse reduzida apenas a este pulsar descompassado do coração, registado numa escala quase imperceptível

         (ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)

Refiro-me, está claro, ao livro que escribulei (não, não percas o teu tempo a procurar essa palavrinha no dicionário, acabei de a resgatar da tessitura do céu ou do saibro da terra – tanto faz) e, embora a forma como me tenha livrado daquelas folhas como alguém se livra da culpa tenha sido tão operática quanto burlesca (canso-me de repetir a mim mesmo, num afã de apaziguamento, que Wagner no Caramulo pode não ser a mesma coisa que em Bayreuth, mas que por lá talvez habitem moiras encantadas que se enterneçam com as minhas palavras), a verdade é que de alguma forma sentia que as personagens que habitavam o meu livro não poderiam nunca ter termo distinto daquele. Diz-me, o que escreveria eu como dedicatória, sabendo que nunca o lerias: “À JXXXX SXXXXXXX”, “Ao azul mais que azul”, “À JXXXX de Sintra” (este aqui glosando um equívoco à Vila-Matas que dedica sempre as suas obras à sua mulher, Paula de Parma), “À minha geometria combinatória dos dias”, “Para a JXXXX, a mulher mais bonita do mundo”, “Para o sinal marca de estrela”, “Ao Azul Neblina”?

Há um mês atrás estava sentado numa das ghâts de Varanasi, observando o rápido declinar do Sol no céu e esse espalhamento da luz que teima em reflectir-se no rio, arvorando em todo um cambiante de matizes. Há miúdos a jogar cricket mesmo ao pé das ghâts onde ocorrem as cremações. Há um salmodiar confuso numa daquelas cerimónias. Um corpo arde e outro ainda. Fumo um cigarro, quase alheio ao tropel quotidiano da cidade. Uma poluição imensa, imensa (os níveis de poluição biológico passaram todos os limites legais e estão a queimar grandes quantidades de lixo orgânico na orla da cidade): o ar na minha garganta adensa-se da poeira que inalo e sei que nas minhas narinas há uma competição entre o fumo do cigarro e as dos cadáveres humanos colocados a arder nas piras crematórias. Os cães refastelam-se ao sol. Dizem que por vezes comem os restos dos cadáveres cuja combustão não foi bem realizada, mas tal nunca observei, talvez tenha apenas vislumbrado parte de corpos a boiar na água infecta. Por vezes vejo algum bovídeo a deambular por ali, indiferente a isto tudo. Indiferente, como eu. Indiferente aos rituais em que as pessoas rapam o cabelo e às imensas solicitações que sofro. A cidade de Shiva não é o sítio mais bonito no mundo, mesmo com um livro do Tagore a forrar o meu bolso. Mas não me sinto chocado com nada disto. Aprendi a aceitar Varanasi, como aceito a tua ausência: sem a compreender, mas sempre presente em mim. E assim celebro a beleza que esta cidade encerra, apesar desta constante encenação e farsa em relação à morte (como deves saber, Gandhi foi muito crítico em relação a este folclore hindi de Varanasi). Alheio-me a isto tudo e observo as abluções das pessoas no Ganges. Não me atrevo a chegar lá perto porque é um dos rios mais poluídos do mundo mas, de alguma forma, invejo aquelas crianças que se banham e se riem de uma forma tão despreocupada como eu quando conduzo e deixo que o vento amacie o meu cabelo. A felicidade também é isto: estar num sítio improvável do mundo e, embora não estejas ali comigo, és tu quem habitas o meu coração e que me faz estremecer. Naquela ghât em Varanasi não há peregrinos, não há cremações, não há a confusão de pessoas ou de mundos em ebulição. Há apenas um sobressalto no meu coração, algo de muito terno e um fragor que surge em qualquer sítio do mundo sempre que te invoco. A felicidade também é ir a Jantar Mantar (o observatório de Jai Singh) e recordar-me das palavras do Cortázar quando escreveu aquele punhado de folhas e, sob aquele sol abrasador do meio-dia solar, sem protector solar ou chapéu (tinha-o perdido naquela alegre confusão de Varanasi após uma diatribe com um condutor de riquexó), ciciar a um monólito que te amo.

De acordo com a minha crença numa versão local do Livre Arbítrio e na minha costumeira refutação na sua versão global (assim como quem preferisse a Geometria à Topologia, sorrio – é que não deixa de ser uma sublime ironia), quando regressei do subcontinente determinei que era altura de devolver o resto das palavras que te escrevi: é um conjunto de poemas e algumas mensagens de amor que te fui escrevendo nos últimos anos, sempre que terminava uma caixa de cigarrilhas ou de charutos. São 248 poemas no seu total. Há também um conjunto de cadernos com escritos e cartas nuns caderninhos pretos. Escrevi-as para ti. Ou por ti.

Não sei como terminar esta mensagem – não deixo de ser desusadamente palavroso, e agora desabituado a escrever há muito... Assim, deixo-te as palavras inicias de “La prosa del observatório”, do Cortázar. Quisera eu também ter escrito algo assim para ti. Por ti.


“Esa hora que puede llegar alguna vez fuera de toda hora, agujero en la red del tiempo, esa manera de estar entre, no por encima o detrás sino entre, esa hora orificio a la que se accede al socaire de las otras horas, de la incontable vida con sus horas de frente y de lado, su tiempo para cada cosa, sus cosas en el preciso tiempo, estar en una pieza de hotel o de un andén, estar mirando una vitrina, un perro, acaso teniéndote en los brazos, amor de siesta o duermevela, entreviendo en esa mancha clara la puerta que se abre a la terraza, en una ráfaga verde la blusa que te quitaste para darme la leve sal que tiembla en tus senos, y sin aviso, sin innecesarias advertencias de pasaje, en un café del barrio latino o en la última secuencia de una película de Pabst, un arrimo a lo que ya no se ordena como dios manda, acceso entre dos ocupaciones instaladas en el nicho de sus horas, en la colmena día, así o de otra manera (en la ducha, en plena calle, en una sonata, en un telegrama) tocar con algo que no se apoya en los sentidos esa brecha en la sucesión, y tan así, tan resbalando, las anguilas, por ejemplo, la región de los sargazos, las anguilas y también las máquinas de mármol, la noche de Jai Singh bebiendo un flujo de estrellas, los observatorios bajo la luna de Jaipur y de Delhi, la negra cinta de las migraciones, las anguilas en plena calle o en la platea de un teatro, dándose para el que las sigue desde las máquinas de mármol, ese que ya no mira el reloj en la noche de París; tan simplemente anillo de Moebius y de anguila y de máquinas de mármol, esto que fluye ya en una palabra desatinada, desarrimada, que busca por sí misma, que también se pone en marcha desde sargazos de tiempo y semánticas aleatorias, la migración de un verbo: discurso, decurso, las anguilas atlánticas y las palabras anguilas, los relámpagos de mármol de las máquinas de Jai Singh, el que mira los astros y las anguilas, el anillo de Moebius circulando en sí mismo, en el océano, en Jaipur, cumpliéndose otra vez sin otras veces, siendo como lo es el mármol, como lo es la anguila: comprenderás que nada de eso puede decirse desde aceras o sillas o tablados de la ciudad; comprenderás que sólo así, cediéndose anguila o mármol, dejándose anillo, entonces ya no se está entre los sargazos, ..hay decurso, eso pasa: intentarlo, como ellas en la noche atlántica, como el que busca las mensuras estelares, no para saber, no para nada; algo como un golpe de ala, un descorrerse, un quejido de amor y entonces ya, entonces tal vez, entonces por eso sí.
Desde luego inevitable metáfora, anguila o estrella, desde luego perchas de la imagen, desde luego ficción, ergo tranquilidad en bibliotecas y butacas; como quieras, no hay otra manera aquí de ser un sultán de Jaipur, un banco de anguilas, un hombre que levanta la cara hacia lo abierto en la noche pelirroja.”


[continua amanhã, distribuindo os caderninhos de molesquina e os poemas aos leitores interessados] 

Há uma casa em Orchha (ओरछा) com o teu nome




7 de Junho de 2011

Gosto quase tanto do Solti como gosto de difeomorfismos



[Se eu fosse uma linha recta nunca mais poderia sonhar com cáusticas]

30 de Maio de 2011

Quando foi a última vez que foste a pessoa mais feliz do mundo?


Varanasi: abluções matinais no Ganges enquanto passeava de barco para assistir às cremações na Manikarnika Ghat.

6 de Abril de 2011

Uma (certa) ideia da Índia

Recordo-me de ter usado na minha tese de Licenciatura a citação que mais abaixo se apresenta. É justo confessar que, de alguma forma, a minha vida esteve sempre irremediavelmente ligada a determinada obras e esta pequena peça de literatura - apropriada para almas insones e viajantes improváveis -, não é excepção. O autor apresenta no seu livro a hipótese de que alguém talvez possa um dia reproduzir a sua viagem por uma Índia de gares, hospitais, quartos de hotel num ambiente que a minha memória faz aludir como soturno. 

Alexandre: A Índia como uma sala de espera ou uma ante-câmara para uma outra vida. 

A verdade é que não releio este livro há uma boa década e não posso negar a verdadeira possibilidade de surpresa que possa aflorir aos meus olhos quando reencontrar na lisura das suas linhas uma Índia um pouco mais solar que a desta viagem de Mumbai a Goa. Reduzir um livro a uma viagem não é o meu intento; há algo delicadamente missionário nesta demanda por Xavier, como quem decerto procura uma (certa) ideia de redenção. 

‘Estendi-me no fundo do barco e pus-me a olhar para o céu. A noite estava verdadeiramente magnífica. Segui as constelações e pensei nas estrelas e no tempo em que as estudava e nas tardes passadas no planetário. De repente lembrei-me delas como as tinha aprendido, segundo a classificação da intensidade luminosa: Sírio, Canopo, Centauro, Vega, Capela, Artur, Oríon… E depois pensei nas estrelas variáveis e na voz de uma pessoa querida. E depois nas estrelas extintas, cuja luz ainda continua a chegar até nós, e nas estrelas de neutrões, na fase final da evolução, e no débil raio que emitem. Disse em voz baixa: pulsar. E quase como se tivesse sido acordada pelo meu sussurro, como se tivesse accionado um gravador, chegou até mim a voz nasal e fleumática do professor Stini que dizia: quando a massa de uma estrela agonizante é superior ao dobro da massa solar, já não existe estado da matéria capaz de deter a concentração, e esta procede até ao infinito; já não sai mais nenhuma radiação dessa estrela, que se transforma assim num buraco negro.’


“Nocturno Indiano”, Antonio Tabucchi

 A continuar em Uma (certa) ideia da Índia

15 de Outubro de 2010

Falar-lhe da sua ausência

Ou dizer-lhe como gosto que sejas a minha madrugada, o meu alvor, o meu ante-meridiano, a minha tarde espessa de calor, o meu crepúsculo ácido com um copo entre os dentes, a noite funda com o teu sexo na minha boca.

12 de Julho de 2010

Somos todos uns crédulos II

Somos todos uns crédulos I

Se isto...

Se isto fosse um blogue pedante e sério como um livro do Lobo Antunes que vai à guerra apenas para beber Martinis, escreveria assim:

"Hoje acordei como que acossado por imagens do gás de Rubídio num condensado de Bose-Einstein e a sonhar com pipas de carvalho com vintage Porto apenas para justificar as diferenças entre os cinco (número em discussão) estados da matéria e com dois livros do Cormac McCarthy (agora que já não é moda) comprados num impulso a lembrar as primícias da adolescência.

Em suma: não sei o que dizer destes novos cânones literários de tantos ignotos. O meu reino por uma cópia dos Principia Mathematica.

Post sriptum: E para o estado da matéria mais abundante no universo, que exemplo ilustrativo escolhi eu? O fogo de Santo Elmo, claro está.

1 de Junho de 2010

Sentes?

Já um dia disseste "fui a pessoa mais feliz do mundo"?

...

Di-lo.

Agora.


A Hipótese do Contínuo. Também em BD...



Hoje a minha atenção dedicou-se de forma íntegra a uma oferta que me chegou pelo correio. Trata-se do livro "Logicomix, an Epic Search for Truth", cujos autores são Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, e do qual, aliás, já tive oportunidade de reproduzir descaradamente umas quantas vinhetas. Por coincidência, chegou-me à caixa de correio electrónico uma sinopse daquele livro de capas azuis onde se reúne um conjunto de ensaios na área da Lógica dedicados a Gödel. E acabo mesmo agora de descobrir que  hoje irá decorrer um evento em Lisboa (clicar no cartaz para ampliá-lo) ao qual gostaria de ter estado presente, não me encontrasse tão distante. Por vezes, a pandilha de Whitehead, Russell e Gödel provoca-me saudades, arrisco.


Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões...





[Imagens de "Logicomix, an Epic Search for Truth", brilhante livro de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou]

Se eu tivesse um blogue respeitável...


... intitularia esta publicação da seguinte forma: "Hoje acordei assim, como que Wittgenstein a bradar contra a existência de uma realidade matemática independente e a agitar um atiçador de  forma particularmente iracunda".



Como o meu blog é tudo menos respeitável (e até tem o desplante de optar pela grafia internacional, menos domesticada) intitularia assim: "Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões, percorreu a minha pele plasmando-se em simétricos exercícios de incisão". 


Ainda a propósito de Gödel



[Com o risco assumido de que apenas uma pequena fracção  dos leitores o compreenda;

como de habitual desviado daqui]


Já sei o que pretendo para o meu aniversário...



(... e, já agora,  um chapéu novo porque o outro ateimou em rodopiar em graves voltejos enquanto o avistava pelo retrovisor afastando-se. Um chapéu à Gödel, não à Hilbert, bem entendido...)


26 de Maio de 2010

VII Encontro Internacional de Poetas

Mais informações aqui.


Respondo que Wagner nunca me incomoda III


[Uma nota do Biafra perdida por entre "Gente de Dublin" do Joyce; tenho por aí a versão original em inglês ("Dubliners") mas, tal como o "Opus Pistorum" do Henry Miller, não há forma de o reencontrar]

Respondo que Wagner nunca me incomoda II


[Este resgatei-o de um contentor para reciclagem; não é o meu livro favorito de Cálculo Tensorial, mas já privei de alguns bons momentos na sua companhia]

25 de Maio de 2010

Respondo que Wagner nunca me incomoda I

Após alguns dias absorto por uma nova demonstração de fecunda beleza  (em bom rigor: uma velha demonstração que se me assemelha a algo de muito arejado e moderno) que me deixou notavelmente bem disposto e de uma pequena brincadeira com os quaterniões, esses Irmãos Metralha da Matemática, vislumbro um regresso à realidade e à árdua tarefa de trasladar os meus livros na demanda de uma nova ordenação, mais justa e salutarmente mais emotiva. É neste processo combinatório, muitas vezes pouco científico, que acabo por desviar a atenção do propósito inicial e passo a folhear a maior parte dos livros à procura de marginalia, pequenos papéis e notículas escondidas ou de uma passagem quase esquecida no nemoroso da minha memória. Releio uma página aqui e ali, dou uma sacudidela valente a um ou outro exemplar com a esperança incontida que dele brote um papelinho qualquer e quase que não presto atenção à vontade indómita dos meus dedos em percorrer longitudinalmente as lombadas, como os seus nodos tinham por hábito fazê-lo ao longo da tua espinha. Longitudinal e transversalmente, quero eu dizer. Alguns livros despertam-me o desejo de os tactear mais demoradamente. Outros convidam-me a que os cheire. A outros ainda emociona-me o amarelecimento das suas páginas; constato que envelheceram bem e permito que um breve sorriso aflore aos meus lábios.

Esqueço-me do mundo lá fora, aborrecido, grisalho. Comezinho, como costumavas dizer. Esqueço-me de todas as solicitações recebidas nos últimos dias e da correspondência atafulhada para dentro das entranhas luciferinas de uma gaveta. Por ora deixo que a luz filtrada pelas nuvens e pela vidraça me lisonjeie o rosto e sento-me no chão, ao lado de uma pilha de livros em vias de desmoronar e causar uma perturbação geofísica que faria corar de vergonha a causada por aquele vulcão islandês de nome gutural de que é moda actualmente falar.

(procuro no recôncavo interior dos livros um jardim vicejante de palavras rútilas)

De repente dou-me conta que durante este ano apenas li um punhado de livros dignos de registo. E é justamente sobre isto que pretendo falar. Daqui a umas horas.

16 de Maio de 2010

"Parabéns, laser!" ou "Nem a Pussy Galore te safa desta"



Cinquenta anos a inspirar a perfídia e maus filmes de ficção-científica.


[Imagem: fotograma de Goldfinger (1964) com a equação geral do ganho para a amplificação óptica]