21 de setembro de 2015

É tempo de narcisos



"in time of daffodils(who know
the goal of living is to grow)
forgetting why,remember how

in time of lilacs who proclaim
the aim of waking is to dream,
remember so(forgetting seem)

in time of roses(who amaze
our now and here with paradise)
forgetting if,remember yes

in time of all sweet things beyond
whatever mind may comprehend,
remember seek(forgetting find)

and in a mystery to be
(when time from time shall set us free)
forgetting me,remember me"

e. e. cummings

29 de julho de 2015

Regressar a Ítaca como no poema de Kavafis.


24 de março de 2015

10 de março de 2015

26 de novembro de 2014

Beglückt darf nun dich, o Heimat, ich schaeun II


Escrever e rescrever. Reescrever. Sentar-me à mesa do café, demorar os olhos pela mesa onde os objectos se arrumam na singularidade. Ensaiar uma frase e outra a seguir. Muitas vezes sem a convicção devida. Treinar as polpas dos dedos para se soltarem. Sem sucesso imediato. Ouvir música. Música que encante, que me faça dançar ou, pelo menos, que embale o recesso do mundo. Escutar o rumor do mundo. Inventar um ou outro personagem que não me é disjunto: este fuma cachimbo, o outro é tímido e circunspecto, a rapariga tem os meus olhos castanhos. /podeumaraparigaterosmeusolhoscastanhos?/ Escrever até não restarem quaisquer dúvidas sobre o equilíbrio instável da frase. Uma frase quer-se em desalinho. Como eu quis as mulheres.

Violonkonzert do Alban Berg? Inspirar-me-á? A mim, de fracos recursos em análise musical? O que me pode inspirar? Uma musa? A promessa da minha língua a suster o bramido no corpo de uma mulher? Ou a flânerie pelos passeios de Coimbra, animado por uma presença feérica de um qualquer prelúdio de Wagner? Se fosses real, dir-te-ia para vires comigo, andando aos soluços, como quem dança mas anda, atentando à abertura do Tannhäuser. Ser-se excessivo. Escrever para conter o excesso, lutar – repito-me inúmeras vezes – contra a fealdade do mundo. Confundir a despolarização ventricular com a auricular e sentir um sobressalto no coração. Dizem que apenas uma infecção miocárdica pode partir o coração, mas eu tenho uma caixa de cigarrilhas no lugar deste, segundo a Rita que até escreve destas coisas de forma mais exemplar e lúcida que eu. A minha caixa de coração ou de cigarrilhas é de latão e não é imune às balas nem aos bocejos nem às palavras convulsionadas. Amolga-se facilmente, é quebradiça, machuca-se com embaraço e nem sequer tem a forma de um cardióide. Não gostaria de ter um coração de chumbo, como os restantes. O chumbo envenena-nos e enlouquecemos de uma loucura que não é a minha, um pouco menos convencional, um pouco mais aligeirada e benévola. Nas palavras do Bukowski, “a impossibilidade de se ser humano” com esta caixa de cigarrilhas deformada no lugar de um coração plúmbeo. Um dia, esta caixa irá liquefazer-se, como todos os metais se liquefazem a uma certa temperatura e pressão, e o que farei? O que farei quando uma estrela anã crescer no meu peito?

(exercício de comoção enquanto escrevo estas linhas: saltitar da Abertura para o Coro dos Peregrinos e ouvir esta última repetidamente até um ponto final irromper no ecrã)

(exercício de carnalidade: olhar demoradamente para uma mulher no café até esta ruborescer, ficar perplexa ou abotoar mais um botão da sua camisa com receio da exposição, explorando a ideia do pudor)

(exercício de memória: recordar-me de como os olhos do meu pai se marulhavam de emoção incontida quando assistia a algo lamechas na televisão, ao mesmo tempo que tentava disfarçar porque na ideia do meu pai só é assim que chora um homem defronte de quem ama)

Se agora te acercasses de mim, dir-te-ia que me mingua sempre algo quando escrevo. Há um estilo que não é um estilo – é antes esta maneira de me enredar em todos os poros do fibrado do universo.


Ponto final.

21 de novembro de 2014

"Ist die Trägheit eines Körpers von seinem Energieinhalt abhängig?"

20 de novembro de 2014

Bem-vindos, Xi_b'- e Xi_b*-.

7 de novembro de 2014

À magnífica luz das tardes frias e pachorrentas de Outono há esta imagem que me persegue: os teus cabelos de um dourado cuja arte sempre me foi escassa para o definir, sustidos por um gorro de lã branco. Nunca revelei que gostaria de te ter oferecido essa mínima peça de indumentária, de um branco alvo de um branco sujo de qualquer cor que no meu parco vocabulário se assemelhasse a branco, a condizer com os teus caracóis e levar-te a passear pela cidade numa flânerie assumida, apenas dedos enleados em dedos e palmas a roçar palmas. Muitos sorrisos nos nossos lábios, também. Lábios a mordiscar lábios. Boca a mordiscar distraidamente castanhas assadas. Dedos a enfarruscarem-se nas folhas de jornal (ao que parece agora os canudinhos já não são em papel de jornal ou de lista telefónica, estas que minguam a cada ano que passa ameaçando sumir-se) para depois tactear o teu rosto e sujá-lo ao de leve. Beijar-te-ia de seguida, puxando o gorro um pouco para baixo e rir-nos-íamos de tanto quotidiano, tanto lirismo simples e piroso. Pés a sentir o restolhar das folhas secas das caducifólias, claro – mais uma imagem recorrente e de uma banalidade que não me irei cansar nunca. Outono é o prazer tímido de te ter ao meu lado, sem queixumes, resmoneios ou palavras amargas e de desdém para com a fealdade do mundo. Pelo menos em pensamento. Outono é a estação para te pensar assim.

Volvidos tantos anos não irias acreditar que, por mais de uma vez, parei numa loja de roupa a deleitar-me com as possibilidades dos gorros que achava que te iriam assentar bem nessa cabeça adorável que encima um corpo não menos adorável de tanta perfeição imperfeita. Mais do que te despir, despertaste em mim o desejo de vestir as mulheres (para as despir logo de seguida – o desejo impõe certas simetrias que devem ser quebradas tout de suit) e, num certo sentido, estiveste comigo em tantos quartos, observando-me enquanto vestia todas aquelas mulheres com quem me envolvi não apenas para suprir a tua ausência mas porque contigo era apenas um homem de uma mulher e sem ti (e sem ti S., sem ti J., sem ti A. e sem ti V.) sou um homem de muitas mulheres, uma relação multivalorada ou, na brevidade da língua inglesa: one-to-many. One too many, Alexandre. Estavas ali comigo enquanto as vestia dos pés à cabeça para as despir novamente – não com ciúmes ou repulsa mas com curiosidade –, sopesando as suas mamas nas palmas das minhas mãos, as mãos que vão escorregando com vagar madraço pelas ancas e detendo-se na barriga quando um arrepio frio lhes percorre o corpo, avançando pelas cuequinhas furiosamente arrancadas à sua pele, os dedos procurando os humores que se desenham entre as suas coxas; e, quando os levava à minha boca, não eram apenas elas que os meus sentidos sorviam – era também a memória do teu sexo redolente entreabrindo-se aos meus dedos, o teu corpo arquejando quando te penetrava sem delongas, o teu cheiro na almofada, o sangue a latir-me aos ouvidos quando as minhas mãos empurravam-te contra o meu corpo e te fodia desalmadamente.

Uma e outra noite regressaria a ti, como quem regressa a um livro que se relê na ânsia de se encontrar novos sentidos. E, apesar de tanta troca de palavras espúrias servida apenas para honrar a 2ª lei da Termodinâmica, a tua imagem de cabelos em duradoura rebeldia e a maneira como arredondavas os teus dedos pela minha orelhinha decretando-a como perfeita ficou para sempre na minha memória.


(um dia de júbilo em que entro no elevador à porta da tua casa e sou o homem mais feliz do mundo; na semana seguinte aguardar-me-ias vestida com a minha camisola interior que deixei esquecida no teu quarto de paredes alvas, esse quarto com um cheiro inconfundível a velas; é assim que te guardo: sexo ferino e ternura deslumbrante)



31 de outubro de 2014

27 de outubro de 2014

Disclaimer

Gostaria de lhe dizer a viva voz que há uma profunda ternura quando a evoco. Mas devolver-me sempre que sou apenas palavras é tentar aniquilar-me a voz. E a escrita é uma expressão da minha voz, a minha identidade. O património emocional é meu e, se por uma ou outra razão decido escrever sobre este - mesmo que sob uma narrativa convoluta e um fio temporal enovelado - é a minha liberdade enquanto homem e escritor que exerço. E eu desejo tomar em palavras a emoção de estar vivo e de ter amado em demasia.

Alguns textos não deverão ser interpretados literalmente - o ónus da interpretação cabe ao leitor. Líricos, desusados, patéticos, apaixonados, redutores, irredutíveis, congruentes, estiolados, absurdos, claros. Os textos são meus. As emoções também. Escreve-se como se ama. Porque sim.

Porque sim.  E se houver um julgamento, que o haja, mas isso diz mais dos juízes e do processo do que de mim próprio.

25 de outubro de 2014


A demain...

Eu sim


“I prefer the people who eat off the bare earth the delirium from which they were born.” 

― Antonin Artaud

I really do.

Beglückt darf nun dich, o Heimat, ich schauen




Com alegria te encontro de novo pátria minha, com júbilo saúdo os prados verdejantes. São os peregrinos, Elisabeth, regressados de Roma, tu que aguardas Tannhäuser na companhia de Wolfram que renunciou ao seu amor por ti. Só tu, Elisabeth, serias capaz de oferecer o teu corpo às espadas desembainhadas por aqueles homens de rostos enrustidos quando este defendeu a sua paixão carnal por Vénus.

Só tu, Elisabeth, irias morrer de desgosto rogando a salvação para o putanheiro do Tannhäuser.

(Rosas florescem finalmente no cajado papal)

Mas também tu Tannhäuser irás chorar sobre o corpo daquela mulher que sonhaste amar. É sempre tarde.


Onde termina o dia?

23 de outubro de 2014

E no entanto

E no entanto ela existe, ela vive agora. Tu existes, tu vives agora. Bastaria ela ter vindo ter contigo, pedido um começo. E o começo teria redimido tudo.

Sim meu amor, o homem idealista até ao fim.

22 de outubro de 2014

In Memoriam Rapariga de Estio

Prefiro a voz do Morrisey nisto tudo. Prefiro sempre a lucidez e o desassombro ao canto escuro onde uma alma demasiadamente castanha, demasiado sépia se acomoda. O ictiossauro que nunca sonhará desprender-se das guelras e sonhar em terra firme.

Esta rapariga só sabia desenhar os cinzentos - e eu que lhe oferecia um céu desassossegado de azul céruleo estremecia na insuspeita frescura do que me corria nas mãos: o sol o branco o mundo a congeminar estios.

21 de outubro de 2014

Como sempre quis envelhecer sabendo que tinhas sido o meu orgulho, a minha vida plena.

20 de outubro de 2014

Ou ler-te o Steps do Frank O'Hara na minha voz em misto de arrastamento e de infrene paixão.

18 de outubro de 2014

Konserter med Nasjonaloperaen



Cachecol garrido, fato, camisa impecável e a inevitável ausência da gravata. Lenço a condizer. Tenho algum pudor em andar com estes apontamentos (é assim que se diz não é? – hoje não quero parecer démodé), mas desde que o meu pai faleceu que prometi que iria usar cores mais ardentes, ele que era uma pessoa com tanta jovialidade (para ele não havia Outono – disse-te tantas vezes). Silje enverga um vestido longo e negro, a acentuar a geometria do seu corpo. Gosto dos seus sapatos. Aliás, gosto de mulheres que sabem escolher os seus sapatos e o resto da sua indumentária com elegância natural (primeiro fragmento de memória: a Joana sempre a falar de como gostava dos sapatos daquele patetita espanhol criado numa plantação de bananas que dava pelo nome de Manolo qualquer coisa; sapatos banais e óbvios, na minha modesta opinião). Eis a expectativa de um Don Giovanni morno mais leve e divertido com Ildebrando D'Arcangelo, Marcell Bakonyi e Ann-Helen Moen na Operahuset. Há uma curiosidade quase infantil de me deslumbrar com aquela massa de granito, mármore e vidro que se ergue do fiorde de Oslo, irrompendo das águas qual a espada de Excalibur.

Segundo fragmento de memória:

Pensar que, de todas as mulheres que terei amado, esta foi a única com quem partilhei as minhas idas à Ópera. Há mais de uma década e novamente hoje nestas circunstâncias improváveis. Apenas a memória de ter planeado com a Sílvia uma ida à Ópera de Paris que nunca se concretizou. O que iríamos ver? Wagner, decerto (teria sido Tristão e Isolda pelas mãos do Semyon Bychkov?). As mulheres não gostam de ir à Ópera comigo, apesar de eu sorrir para elas, beijá-las, repousar a minha mão sobre as suas pernas, entrelaçar os meus dedos nas suas mãos, ciciar palavras ao seu ouvido, beijar o seu cabelo. Beijar-lhe o cabelo.

Sim, irei beijar-lhe o cabelo abençoado pelo Sol.


17 de outubro de 2014

Rêve OubliéNeste meu hábito surpreendente de te trazer de costas 
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim 
nesta minha mania de te dar o que tu gostas 
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra 
agora encostado ao vidro a sonhar a terra 
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba 
e depois matar-te e dar-te vida eterna 

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros 
continuar a viver até cristalizar entre neve 
continuar a contar a lenda duma princesa sueca 
e depois fechar a porta para tremermos de medo 

Contar a vida pelos dedos e perdê-los 
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada 
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho 
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas 
abrir-se a luz para entrarem olhos 
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala 
e depois ruidosa uma dentadura velha 
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro 

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata. 

António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

Ela nunca irá ter contigo e nunca irá permanecer contigo o resto da vossa vida.
Pois não.
Bastaria ela querer?
Sim. Amo-a como mais ninguém amou alguém. Amo-a. Para sempre.

Amas essa mulher, Alexandre?
Sim, continuo a amar essa mulher.
Para sempre?
Sim. Para sempre. Sem réstia de dúvida. Amo-a porque é ela.

13 de outubro de 2014

Til

Este Outono
não carece de apresentações
uma folha da caducifólia
resguarda-se num livro que ali a minha Biblioteca tenta esconder
em vão
desenho palavras
como rabiscos mal intencionados de um expressionista fractal
(uma coisa assim à Pollock, entendes?)
e
podia
dizer-te que tenho saudades tuas
~til~
ou podia só escrever um til


Bem-vindo, Ds3*(2860)ˉ.

O Imperador cheirava a framboesas e chuva, dir-lhe-ia ela uma vez, enquanto o Estio o fazia sorrir como a criança que sempre habitou nele.

9 de outubro de 2014

Efeméride

Dar-me conta de que, de todas as efemérides possíveis, apraz-me saber que na minha data de aniversário também se comemora a apresentação dos 23 problemas de Hilbert.

1 de outubro de 2014

Um grito


O que fazer com o Amor quando a dor arruina toda a vivacidade e velas funestas se enfunam no peito?

O que fazer quando não há respostas? Ah, um grito talvez poderia romper a rigidez do mundo. Um grito que fosse a manhã clara, um grito de beijos e de flores a irromper na minha boca, o teu sexo na minha mão como uma promessa de dias de Estio.

O que fazer com um grito? Há esta ilha deserta e este promontório onde habito. Posso gritar mas ninguém me ouve. E até as gaivotas escarnecem de mim.

Ou como amar uma rapariga de mente coagulada presa irremediavelmente a palavras sequestradas por um boião de conserva




18 de setembro de 2014

Um amor podia surgir disto III


Um amor podia surgir disto II





Um amor podia surgir disto I






"Nada me dá mais prazer do que transmitir uma falsa ideia de mim próprio àqueles que trago no coração. É injusto talvez, mas também ousado, e por isso está bem. Este traço assume em mim contornos doentios. Parece-me indizivelmente belo, por exemplo, morrer com a terrível consciência de ter ofendido aqueles que mais amo neste mundo e de lhes ter dado uma má impressão de mim. Ninguém compreenderá isto, porventura apenas aquele que trema ao ver o que há de belo num desafio. Morrer miseravelmente, por uma falta de educação, por uma estupidez. Será esta meta digna? Não, claro que não. Mas tudo isto são disparates da pior espécie."


              Robert Walser in Jakob von Gunten

28 de agosto de 2014

Muitos anos são anos a mais.

Anos sem Estio.

23 de maio de 2014

A minha mesa vermelha


É tempo de calar palavras e contar imagens.


18 de março de 2014

Ondas gravitacionais





Enquanto este blogue está no seu estertor, há notícias fresquíssimas do Universo que não podem ser ignoradas. A legibilidade da Natureza é algo que nunca deixará de me consolar. Quem está assim tão próximo da Natureza nunca irá precisar de uma proposta de deus, porque há em si esta ideia de beleza imorredoira.

14 de fevereiro de 2014



Este blogue termina aqui. Na realidade há muito que terminou. Continuará em outro lugar. A anunciar. Há em mim uma gratidão imensa por ter sido lido e por todas as mensagens de correio electrónico que recebi. Não respondi à grande maioria delas, é certo, mas li-as com a máxima atenção. A caixa de comentários cedo foi vedada devido ao perpetuar de equívocos e disparates. Mas a vida é sempre mais. Prevalece. Há o amor imorredoiro. E depois há o resto. Durante estes anos todos acreditei que Azul Neblina fosse uma mulher. Não é. É algo orgânico. Muito mais bonito.

[como é evidente, o blogue não termina aqui - a menos que invoquemos aqui uma violação cronológica qualquer]

3 de fevereiro de 2014



Nobilíssimas formulações do Paradoxo de Russell e Chungking Express

Por vezes sonho com um azul tão sanguíneo como o das toranjas mais sumarentas. Sonho com um vermelho cerúleo e com aquelas canções japonesas que nos enternecem até à medula. Há um vermelho tão ácido neste céu e nesta linfa. Um vermelho absurdamente sem sabor nem coloração. Há um pigmento no meu coração. Há novelos de cinza enovelando-se no cinzeiro baço. Há dendrites e outras ramificações arbóreas. Há um rol que se inclui a si próprio. Hoje o kitsch é este vermelho de algumas centenas de nanómetros. Hoje sou o homem das latas de ananás, quase quase fora de prazo. Paradoxo de Russell e Chungking Express, claro está.

30 de janeiro de 2014

Aceleração de Coriolis

Imagino sempre que há um sorriso que me acompanha – o teu sorriso – enquanto me abandono a ler à mesa de café ou repouso num banco de jardim o meu corpo cansado de contemplar o mundo.

5 de janeiro de 2014

Exangue. Sem réstia de luz.

Vou.

25 de outubro de 2013

Não mais seres amada como o desejaste ser. Nunca ser amado como o desejei.

Um dia III



Um dia imaginei que me sentava ao teu lado em Bayreuth sorrindo em inimaginável cumplicidade e envaidecimento por ser teu.

Um dia II


Passaram-se oito anos. Mas a morte não é isto. É outra coisa. Havia este homem que não era outoniço nem tão pouco invernal. Das estações do ano só aceitava a Primavera e o Estio (o Estio, sempre esta ideia deificante do Estio, como todas as mulheres que teimei em amar…); as outras ignorava-as, como se o seu corpo estivesse em completo desacordo com a inclinação do eixo de rotação terrestre em relação ao seu plano de translação. Este homem desconhecia o minguar dos dias e as manhãs a ressumar humidade. Eu sentia em demasia todos os equinócios e solstícios como se as células do meu corpo valsassem com os afélios, periélios e pontos vernais. Cruzava-me com ele à noite, sobretudo, porque ultimamente este tinha um sono intermitente. Eu passava muitas noites acordado

a sonhar a suspirar a escrever a ler a admirar-te em silêncio a pensar em amotinar-me contra o mundo a rever Bergman a reler Borges a indignar-me com a estultícia das pessoas a emocionar-me a tentar emocionar-me a tentar emocionar-me a tentar mas estás morto – zurzia eu para comigo – e passava as minhas noites numa vigília absurda como se nunca me tivesse desabituado de zelar por ti noites em súplica ao negrume do firmamento para que o sono finalmente sobreviesse a fracção sumida da minha consciência anulasse a ideia de ti a ideia de ti sempre este inferno álgido e este amor com o qual não soubeste fazer e em vez disso ervas daninhas instruem-se de caligrafia e congestionam de palavras abruptas as quatro câmaras do coração

A ler a sonhar a suspirar a pensar. Guardava as noites como quem guarda a ideia de um espaço sôfrego e aglutinador, esta ideia primordial de há oito anos atrás que só poderia ser albergada nos côncavos de um homem outrora excessivo mas agora cendrado. Esta ideia de Estio tardio, este amor terrível, verdadeiro e perigoso pela qual teria valido a pena bater-me de forma quixotesca. Eras o meu amor ergódico, Azul, o meu animal marinho mais leve e belo que as sereias. E eu era um homem imenso e feliz. O homem mais feliz e lúcido do mundo. Agora deparo-me apenas com este estranho de mim mesmo cruzando-se a meio da noite com um homem de vitalidade imensa ao qual não tenho coragem de lhe responder porque é que ainda me encontro desperto. Gostaria de lhe ter confiado que amava uma mulher que apelidei de Azul Neblina.

Agora é tarde. É sempre tarde quando o cansaço inerme finalmente se instala. Não posso mais conversar com esse homem ao qual a Primavera e o Estio lhe assentavam tão bem. Queria ter-lhe declarado que, finalmente, reconheci que o Azul Neblina não se encontra numa mulher mas em mim. A morte interpôs-se quando cruzou a meta. O mundo inteiro cabia no seu coração e este não resistiu. O meu pai também era Azul Neblina.

A morte é outra coisa. A morte não é isto.

2 de outubro de 2013

Um dia I




“The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open.”

Philip Roth in The Dying Animal

“Teus ombros sustentam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança” – eis a frase de Drummond de Andrade que me assalta ao espírito ao evocar-te agora envolto pelo pesado fumo da cigarrilha. Os meus dedos enrolam-na, deixam que sedutoramente esta se enlace na minha mão, como o teu corpo se encoscorava junto ao meu, aninhado como um bicho-de-seda – e bastaria estares ali, não haveria palavra alguma que fosse necessário proferir, pois tu foste sempre a palavra mais dourada, a palavra primordial, a palavra única que constava do meu dicionário, e cujo léxico rico se arvorava, ramificando-se em sentidos múltiplos e complexos. Os teus ombros sustentavam o mundo porque tu eras a mulher, a casa, a pátria, a raiz há muito escondida de todas as línguas do mundo. Havia na doçura das tuas mãos e dos teus lábios aquilo que a mágoa dos teus olhos teima em esconder: o sentido teleológico que para mim funcionava como uma força atractiva, irresistível, inelutável, de que o universo fora criado para que nos encontrássemos.

Talvez seja um princípio universal: amar-se alguém construindo uma cosmogonia onde só se caiba a própria pessoa e o objecto da sua mais pura afeição. Mas como voltar a falar de amor se todas as palavras tropeçam na boca e se vão enclavinhar nas gengivas fazendo-as sangrar? Nunca mais poder dizer o quanto te amei; na boca apenas a polpa das palavras misturadas com o fel. Este pão ázimo que tem de se mastigar e ruminar todos os dias até se tornar num bolo digestivo passível de ser deglutido e assimilado.

Um dia finalmente acordas.

Passaram-se oito anos.

20 de junho de 2013

"GABRIEL Estás a falar acerca do teu amor?
TERESA Sim, acerca disso. É preguiça também, Gabriel. Consegues compreender que quando já não devemos amar alguém continuamos a fazê-lo, por preguiça. Somos assim tão preguiçosos. Eu sou assim tão preguiçosa, Gabriel."

Stig Dagerman - A Sombra de Mart