20 de setembro de 2018
15 de setembro de 2018
Ulisses em Kristineberg
Somos um soluço do acaso. E, todavia, a felicidade é uma erva daninha que cresce nos corações mais frágeis. Um prego cravado a furtar-se à dor. Quando acordo, de manhãzinha cedo, já a rapariga de Blekinge tinha ido para o Hospital. Estava a nevar. Fazia Sol. Talvez chovesse. Levanto-me para ir tomar o pequeno-almoço à cozinha. Os pratos ainda estavam no lava-loiças. Tínhamos comido peixe assado no forno e bebido uma garrafa de vinho branco que tinha trazido de Portugal. Nevava, não era? E eu mordiscava os cantos de uma torrada com queijo e bebia sumo de toranja. Um gato por ali tamborilava as suas patas na madeira. O gato conversava comigo. Eu folheava o Dagens Nyheter sem perceber quase patavina. Não é necessário muito para ser-se feliz, não é, Alexandre? – pergunta-me o gato. Concordo, gato, de dia há diagramas de Penrose e bebe-se café. À noite janto e faço amor. De manhã enfarrusco-me com o matutino e enrosco os meus pés sobre o teu dorso, e tu finges que reclamas só para espaireceres do teu fastio contagiante. E aos fins-de-semana passeamos pelo arquipélago – eu e a rapariga de vestido florescido – e conto as ilhas que salpicam a longa esteira de sal do mar. Não confundes Ítaca com os ilhéus do Báltico? Não, gato, Ítaca é onde os meus dedos palmilham o rosto dela. Ítaca é um apartamento do rés-do-chão em Kristineberg.
De pés descalços a ver a neve tombar e a roer uma torrada.
Nariz tisnado pelo sol dez anos depois da queda de Tróia. Chatearam-se com os deuses. Athena e as suas tempestades. Ulisses e Penélope. Sete anos de tormentas. E a ninfa Calipso.
Um dia, ela previu que eu iria partir, insatisfeito, rumo a uma outra Ítaca, talvez no mar Jónico. Agora que a neve já cessou de cair, quase que me escuto a miar-lhe: “Sou Ulisses no meu passeio de Lévy”.
Imagem: Snöväder, Kristineberg, © Hasse Persson
3 de setembro de 2018
2 de setembro de 2018
30 de julho de 2018
15 de março de 2018
9 de março de 2018
16 de fevereiro de 2018
14 de fevereiro de 2018
7 de janeiro de 2018
24 de dezembro de 2017
23 de dezembro de 2017
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
Um alto incêndio em nome de nós todos.
5 de dezembro de 2017
To Kill a Mockingbird I
4 de dezembro de 2017
Kitsch (Lost in Translation) - Always lost in translation, my dear
I could feel at the time
There was no way of knowing
Fallen leaves in the night
Who can say where they're blowing
As free as the wind
And hopefully learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this, tell me one thing
More than this, there is nothing
There was no way of knowing
Like dream in the night
Who can say where we're going
No care in the world
Maybe I'm learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this, tell me one thing
More than this, you know there is nothing
nothing
More than this
More than this
nothing
3 de dezembro de 2017
13 de novembro de 2016
19 de outubro de 2016
21 de setembro de 2015
É tempo de narcisos
"in time of daffodils(who know
the goal of living is to grow)
forgetting why,remember how
in time of lilacs who proclaim
the aim of waking is to dream,
remember so(forgetting seem)
in time of roses(who amaze
our now and here with paradise)
forgetting if,remember yes
in time of all sweet things beyond
whatever mind may comprehend,
remember seek(forgetting find)
and in a mystery to be
(when time from time shall set us free)
forgetting me,remember me"
e. e. cummings
29 de julho de 2015
29 de maio de 2015
24 de março de 2015
10 de março de 2015
17 de dezembro de 2014
3 de dezembro de 2014
26 de novembro de 2014
Beglückt darf nun dich, o Heimat, ich schaeun II
Violonkonzert do Alban Berg? Inspirar-me-á? A mim, de fracos recursos em análise musical? O que me pode inspirar? Uma musa? A promessa da minha língua a suster o bramido no corpo de uma mulher? Ou a flânerie pelos passeios de Coimbra, animado por uma presença feérica de um qualquer prelúdio de Wagner? Se fosses real, dir-te-ia para vires comigo, andando aos soluços, como quem dança mas anda, atentando à abertura do Tannhäuser. Ser-se excessivo. Escrever para conter o excesso, lutar – repito-me inúmeras vezes – contra a fealdade do mundo. Confundir a despolarização ventricular com a auricular e sentir um sobressalto no coração. Dizem que apenas uma infecção miocárdica pode partir o coração, mas eu tenho uma caixa de cigarrilhas no lugar deste, segundo a Rita que até escreve destas coisas de forma mais exemplar e lúcida que eu. A minha caixa de coração ou de cigarrilhas é de latão e não é imune às balas nem aos bocejos nem às palavras convulsionadas. Amolga-se facilmente, é quebradiça, machuca-se com embaraço e nem sequer tem a forma de um cardióide. Não gostaria de ter um coração de chumbo, como os restantes. O chumbo envenena-nos e enlouquecemos de uma loucura que não é a minha, um pouco menos convencional, um pouco mais aligeirada e benévola. Nas palavras do Bukowski, “a impossibilidade de se ser humano” com esta caixa de cigarrilhas deformada no lugar de um coração plúmbeo. Um dia, esta caixa irá liquefazer-se, como todos os metais se liquefazem a uma certa temperatura e pressão, e o que farei? O que farei quando uma estrela anã crescer no meu peito?
(exercício de carnalidade: olhar demoradamente para uma mulher no café até esta ruborescer, ficar perplexa ou abotoar mais um botão da sua camisa com receio da exposição, explorando a ideia do pudor)
(exercício de memória: recordar-me de como os olhos do meu pai se marulhavam de emoção incontida quando assistia a algo lamechas na televisão, ao mesmo tempo que tentava disfarçar porque na ideia do meu pai só é assim que chora um homem defronte de quem ama)
21 de novembro de 2014
20 de novembro de 2014
14 de novembro de 2014
11 de novembro de 2014
7 de novembro de 2014
31 de outubro de 2014
27 de outubro de 2014
Disclaimer
Gostaria de lhe dizer a viva voz que há uma profunda ternura quando a evoco. Mas devolver-me sempre que sou apenas palavras é tentar aniquilar-me a voz. E a escrita é uma expressão da minha voz, a minha identidade. O património emocional é meu e, se por uma ou outra razão decido escrever sobre este - mesmo que sob uma narrativa convoluta e um fio temporal enovelado - é a minha liberdade enquanto homem e escritor que exerço. E eu desejo tomar em palavras a emoção de estar vivo e de ter amado em demasia.
Alguns textos não deverão ser interpretados literalmente - o ónus da interpretação cabe ao leitor. Líricos, desusados, patéticos, apaixonados, redutores, irredutíveis, congruentes, estiolados, absurdos, claros. Os textos são meus. As emoções também. Escreve-se como se ama. Porque sim.
Porque sim. E se houver um julgamento, que o haja, mas isso diz mais dos juízes e do processo do que de mim próprio.
25 de outubro de 2014
Eu sim
“I prefer the people who eat off the bare earth the delirium from which they were born.”
― Antonin Artaud
I really do.
Beglückt darf nun dich, o Heimat, ich schauen
Com alegria te encontro de novo pátria minha, com júbilo saúdo os prados verdejantes. São os peregrinos, Elisabeth, regressados de Roma, tu que aguardas Tannhäuser na companhia de Wolfram que renunciou ao seu amor por ti. Só tu, Elisabeth, serias capaz de oferecer o teu corpo às espadas desembainhadas por aqueles homens de rostos enrustidos quando este defendeu a sua paixão carnal por Vénus.
23 de outubro de 2014
E no entanto
E no entanto ela existe, ela vive agora. Tu existes, tu vives agora. Bastaria ela ter vindo ter contigo, pedido um começo. E o começo teria redimido tudo.
Sim meu amor, o homem idealista até ao fim.
22 de outubro de 2014
In Memoriam Rapariga de Estio
Esta rapariga só sabia desenhar os cinzentos - e eu que lhe oferecia um céu desassossegado de azul céruleo estremecia na insuspeita frescura do que me corria nas mãos: o sol o branco o mundo a congeminar estios.
21 de outubro de 2014
20 de outubro de 2014
18 de outubro de 2014
Konserter med Nasjonaloperaen
17 de outubro de 2014
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti
Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna
Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo
Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada
Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro
E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.
António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"










































