À magnífica luz
das tardes frias e pachorrentas de Outono há esta imagem que me persegue: os
teus cabelos de um dourado cuja arte sempre me foi escassa para o definir,
sustidos por um gorro de lã branco. Nunca revelei que gostaria de te ter
oferecido essa mínima peça de indumentária, de um branco alvo de um branco sujo
de qualquer cor que no meu parco vocabulário se assemelhasse a branco, a
condizer com os teus caracóis e levar-te a passear pela cidade numa flânerie assumida, apenas dedos enleados
em dedos e palmas a roçar palmas. Muitos sorrisos nos nossos lábios, também.
Lábios a mordiscar lábios. Boca a mordiscar distraidamente castanhas assadas.
Dedos a enfarruscarem-se nas folhas de jornal (ao que parece agora os
canudinhos já não são em papel de jornal ou de lista telefónica, estas que
minguam a cada ano que passa ameaçando sumir-se) para depois tactear o teu
rosto e sujá-lo ao de leve. Beijar-te-ia de seguida, puxando o gorro um pouco
para baixo e rir-nos-íamos de tanto quotidiano, tanto lirismo simples e piroso.
Pés a sentir o restolhar das folhas secas das caducifólias, claro – mais uma
imagem recorrente e de uma banalidade que não me irei cansar nunca. Outono é o
prazer tímido de te ter ao meu lado, sem queixumes, resmoneios ou palavras
amargas e de desdém para com a fealdade do mundo. Pelo menos em pensamento.
Outono é a estação para te pensar assim.
Volvidos tantos
anos não irias acreditar que, por mais de uma vez, parei numa loja de roupa a
deleitar-me com as possibilidades dos gorros que achava que te iriam assentar
bem nessa cabeça adorável que encima um corpo não menos adorável de tanta
perfeição imperfeita. Mais do que te despir, despertaste em mim o desejo de
vestir as mulheres (para as despir logo de seguida – o desejo impõe certas
simetrias que devem ser quebradas tout de
suit) e, num certo sentido, estiveste comigo em tantos quartos,
observando-me enquanto vestia todas aquelas mulheres com quem me envolvi não
apenas para suprir a tua ausência mas porque contigo era apenas um homem de uma
mulher e sem ti (e sem ti S., sem ti J., sem ti A. e sem ti V.) sou um homem de
muitas mulheres, uma relação multivalorada ou, na brevidade da língua inglesa: one-to-many. One too many, Alexandre. Estavas
ali comigo enquanto as vestia dos pés à cabeça para as despir novamente – não
com ciúmes ou repulsa mas com curiosidade –, sopesando as suas mamas nas palmas
das minhas mãos, as mãos que vão escorregando com vagar madraço pelas ancas e detendo-se
na barriga quando um arrepio frio lhes percorre o corpo, avançando pelas
cuequinhas furiosamente arrancadas à sua pele, os dedos procurando os humores
que se desenham entre as suas coxas; e, quando os levava à minha boca, não eram
apenas elas que os meus sentidos sorviam – era também a memória do teu sexo
redolente entreabrindo-se aos meus dedos, o teu corpo arquejando quando te
penetrava sem delongas, o teu cheiro na almofada, o sangue a latir-me aos
ouvidos quando as minhas mãos empurravam-te contra o meu corpo e te fodia
desalmadamente.
Uma e outra
noite regressaria a ti, como quem regressa a um livro que se relê na ânsia de se
encontrar novos sentidos. E, apesar de tanta troca de palavras espúrias servida
apenas para honrar a 2ª lei da Termodinâmica, a tua imagem de cabelos em
duradoura rebeldia e a maneira como arredondavas os teus dedos pela minha orelhinha
decretando-a como perfeita ficou para sempre na minha memória.
(um dia de júbilo
em que entro no elevador à porta da tua casa e sou o homem mais feliz do mundo;
na semana seguinte aguardar-me-ias vestida com a minha camisola interior que
deixei esquecida no teu quarto de paredes alvas, esse quarto com um cheiro
inconfundível a velas; é assim que te guardo: sexo ferino e ternura
deslumbrante)