31 de outubro de 2014

27 de outubro de 2014

Disclaimer

Gostaria de lhe dizer a viva voz que há uma profunda ternura quando a evoco. Mas devolver-me sempre que sou apenas palavras é tentar aniquilar-me a voz. E a escrita é uma expressão da minha voz, a minha identidade. O património emocional é meu e, se por uma ou outra razão decido escrever sobre este - mesmo que sob uma narrativa convoluta e um fio temporal enovelado - é a minha liberdade enquanto homem e escritor que exerço. E eu desejo tomar em palavras a emoção de estar vivo e de ter amado em demasia.

Alguns textos não deverão ser interpretados literalmente - o ónus da interpretação cabe ao leitor. Líricos, desusados, patéticos, apaixonados, redutores, irredutíveis, congruentes, estiolados, absurdos, claros. Os textos são meus. As emoções também. Escreve-se como se ama. Porque sim.

Porque sim.  E se houver um julgamento, que o haja, mas isso diz mais dos juízes e do processo do que de mim próprio.

25 de outubro de 2014


A demain...

Eu sim


“I prefer the people who eat off the bare earth the delirium from which they were born.” 

― Antonin Artaud

I really do.

Beglückt darf nun dich, o Heimat, ich schauen




Com alegria te encontro de novo pátria minha, com júbilo saúdo os prados verdejantes. São os peregrinos, Elisabeth, regressados de Roma, tu que aguardas Tannhäuser na companhia de Wolfram que renunciou ao seu amor por ti. Só tu, Elisabeth, serias capaz de oferecer o teu corpo às espadas desembainhadas por aqueles homens de rostos enrustidos quando este defendeu a sua paixão carnal por Vénus.

Só tu, Elisabeth, irias morrer de desgosto rogando a salvação para o putanheiro do Tannhäuser.

(Rosas florescem finalmente no cajado papal)

Mas também tu Tannhäuser irás chorar sobre o corpo daquela mulher que sonhaste amar. É sempre tarde.


Onde termina o dia?

23 de outubro de 2014

E no entanto

E no entanto ela existe, ela vive agora. Tu existes, tu vives agora. Bastaria ela ter vindo ter contigo, pedido um começo. E o começo teria redimido tudo.

Sim meu amor, o homem idealista até ao fim.

22 de outubro de 2014

In Memoriam Rapariga de Estio

Prefiro a voz do Morrisey nisto tudo. Prefiro sempre a lucidez e o desassombro ao canto escuro onde uma alma demasiadamente castanha, demasiado sépia se acomoda. O ictiossauro que nunca sonhará desprender-se das guelras e sonhar em terra firme.

Esta rapariga só sabia desenhar os cinzentos - e eu que lhe oferecia um céu desassossegado de azul céruleo estremecia na insuspeita frescura do que me corria nas mãos: o sol o branco o mundo a congeminar estios.

21 de outubro de 2014

Como sempre quis envelhecer sabendo que tinhas sido o meu orgulho, a minha vida plena.

20 de outubro de 2014

Ou ler-te o Steps do Frank O'Hara na minha voz em misto de arrastamento e de infrene paixão.

18 de outubro de 2014

Konserter med Nasjonaloperaen



Cachecol garrido, fato, camisa impecável e a inevitável ausência da gravata. Lenço a condizer. Tenho algum pudor em andar com estes apontamentos (é assim que se diz não é? – hoje não quero parecer démodé), mas desde que o meu pai faleceu que prometi que iria usar cores mais ardentes, ele que era uma pessoa com tanta jovialidade (para ele não havia Outono – disse-te tantas vezes). Silje enverga um vestido longo e negro, a acentuar a geometria do seu corpo. Gosto dos seus sapatos. Aliás, gosto de mulheres que sabem escolher os seus sapatos e o resto da sua indumentária com elegância natural (primeiro fragmento de memória: a Joana sempre a falar de como gostava dos sapatos daquele patetita espanhol criado numa plantação de bananas que dava pelo nome de Manolo qualquer coisa; sapatos banais e óbvios, na minha modesta opinião). Eis a expectativa de um Don Giovanni morno mais leve e divertido com Ildebrando D'Arcangelo, Marcell Bakonyi e Ann-Helen Moen na Operahuset. Há uma curiosidade quase infantil de me deslumbrar com aquela massa de granito, mármore e vidro que se ergue do fiorde de Oslo, irrompendo das águas qual a espada de Excalibur.

Segundo fragmento de memória:

Pensar que, de todas as mulheres que terei amado, esta foi a única com quem partilhei as minhas idas à Ópera. Há mais de uma década e novamente hoje nestas circunstâncias improváveis. Apenas a memória de ter planeado com a Sílvia uma ida à Ópera de Paris que nunca se concretizou. O que iríamos ver? Wagner, decerto (teria sido Tristão e Isolda pelas mãos do Semyon Bychkov?). As mulheres não gostam de ir à Ópera comigo, apesar de eu sorrir para elas, beijá-las, repousar a minha mão sobre as suas pernas, entrelaçar os meus dedos nas suas mãos, ciciar palavras ao seu ouvido, beijar o seu cabelo. Beijar-lhe o cabelo.

Sim, irei beijar-lhe o cabelo abençoado pelo Sol.


17 de outubro de 2014

Rêve OubliéNeste meu hábito surpreendente de te trazer de costas 
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim 
nesta minha mania de te dar o que tu gostas 
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra 
agora encostado ao vidro a sonhar a terra 
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba 
e depois matar-te e dar-te vida eterna 

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros 
continuar a viver até cristalizar entre neve 
continuar a contar a lenda duma princesa sueca 
e depois fechar a porta para tremermos de medo 

Contar a vida pelos dedos e perdê-los 
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada 
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho 
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas 
abrir-se a luz para entrarem olhos 
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala 
e depois ruidosa uma dentadura velha 
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro 

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata. 

António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

Ela nunca irá ter contigo e nunca irá permanecer contigo o resto da vossa vida.
Pois não.
Bastaria ela querer?
Sim. Amo-a como mais ninguém amou alguém. Amo-a. Para sempre.

Amas essa mulher, Alexandre?
Sim, continuo a amar essa mulher.
Para sempre?
Sim. Para sempre. Sem réstia de dúvida. Amo-a porque é ela.

13 de outubro de 2014

Til

Este Outono
não carece de apresentações
uma folha da caducifólia
resguarda-se num livro que ali a minha Biblioteca tenta esconder
em vão
desenho palavras
como rabiscos mal intencionados de um expressionista fractal
(uma coisa assim à Pollock, entendes?)
e
podia
dizer-te que tenho saudades tuas
~til~
ou podia só escrever um til


Bem-vindo, Ds3*(2860)ˉ.

O Imperador cheirava a framboesas e chuva, dir-lhe-ia ela uma vez, enquanto o Estio o fazia sorrir como a criança que sempre habitou nele.

9 de outubro de 2014

Efeméride

Dar-me conta de que, de todas as efemérides possíveis, apraz-me saber que na minha data de aniversário também se comemora a apresentação dos 23 problemas de Hilbert.

1 de outubro de 2014

Um grito


O que fazer com o Amor quando a dor arruina toda a vivacidade e velas funestas se enfunam no peito?

O que fazer quando não há respostas? Ah, um grito talvez poderia romper a rigidez do mundo. Um grito que fosse a manhã clara, um grito de beijos e de flores a irromper na minha boca, o teu sexo na minha mão como uma promessa de dias de Estio.

O que fazer com um grito? Há esta ilha deserta e este promontório onde habito. Posso gritar mas ninguém me ouve. E até as gaivotas escarnecem de mim.