28 de agosto de 2014

Muitos anos são anos a mais.

Anos sem Estio.

23 de maio de 2014

A minha mesa vermelha


É tempo de calar palavras e contar imagens.


18 de março de 2014

Ondas gravitacionais





Enquanto este blogue está no seu estertor, há notícias fresquíssimas do Universo que não podem ser ignoradas. A legibilidade da Natureza é algo que nunca deixará de me consolar. Quem está assim tão próximo da Natureza nunca irá precisar de uma proposta de deus, porque há em si esta ideia de beleza imorredoira.

14 de fevereiro de 2014



Este blogue termina aqui. Na realidade há muito que terminou. Continuará em outro lugar. A anunciar. Há em mim uma gratidão imensa por ter sido lido e por todas as mensagens de correio electrónico que recebi. Não respondi à grande maioria delas, é certo, mas li-as com a máxima atenção. A caixa de comentários cedo foi vedada devido ao perpetuar de equívocos e disparates. Mas a vida é sempre mais. Prevalece. Há o amor imorredoiro. E depois há o resto. Durante estes anos todos acreditei que Azul Neblina fosse uma mulher. Não é. É algo orgânico. Muito mais bonito.

[como é evidente, o blogue não termina aqui - a menos que invoquemos aqui uma violação cronológica qualquer]

3 de fevereiro de 2014



Nobilíssimas formulações do Paradoxo de Russell e Chungking Express

Por vezes sonho com um azul tão sanguíneo como o das toranjas mais sumarentas. Sonho com um vermelho cerúleo e com aquelas canções japonesas que nos enternecem até à medula. Há um vermelho tão ácido neste céu e nesta linfa. Um vermelho absurdamente sem sabor nem coloração. Há um pigmento no meu coração. Há novelos de cinza enovelando-se no cinzeiro baço. Há dendrites e outras ramificações arbóreas. Há um rol que se inclui a si próprio. Hoje o kitsch é este vermelho de algumas centenas de nanómetros. Hoje sou o homem das latas de ananás, quase quase fora de prazo. Paradoxo de Russell e Chungking Express, claro está.

30 de janeiro de 2014

Aceleração de Coriolis

Imagino sempre que há um sorriso que me acompanha – o teu sorriso – enquanto me abandono a ler à mesa de café ou repouso num banco de jardim o meu corpo cansado de contemplar o mundo.

5 de janeiro de 2014

Exangue. Sem réstia de luz.

Vou.

25 de outubro de 2013

Não mais seres amada como o desejaste ser. Nunca ser amado como o desejei.

Um dia III



Um dia imaginei que me sentava ao teu lado em Bayreuth sorrindo em inimaginável cumplicidade e envaidecimento por ser teu.

Um dia II


Passaram-se oito anos. Mas a morte não é isto. É outra coisa. Havia este homem que não era outoniço nem tão pouco invernal. Das estações do ano só aceitava a Primavera e o Estio (o Estio, sempre esta ideia deificante do Estio, como todas as mulheres que teimei em amar…); as outras ignorava-as, como se o seu corpo estivesse em completo desacordo com a inclinação do eixo de rotação terrestre em relação ao seu plano de translação. Este homem desconhecia o minguar dos dias e as manhãs a ressumar humidade. Eu sentia em demasia todos os equinócios e solstícios como se as células do meu corpo valsassem com os afélios, periélios e pontos vernais. Cruzava-me com ele à noite, sobretudo, porque ultimamente este tinha um sono intermitente. Eu passava muitas noites acordado

a sonhar a suspirar a escrever a ler a admirar-te em silêncio a pensar em amotinar-me contra o mundo a rever Bergman a reler Borges a indignar-me com a estultícia das pessoas a emocionar-me a tentar emocionar-me a tentar emocionar-me a tentar mas estás morto – zurzia eu para comigo – e passava as minhas noites numa vigília absurda como se nunca me tivesse desabituado de zelar por ti noites em súplica ao negrume do firmamento para que o sono finalmente sobreviesse a fracção sumida da minha consciência anulasse a ideia de ti a ideia de ti sempre este inferno álgido e este amor com o qual não soubeste fazer e em vez disso ervas daninhas instruem-se de caligrafia e congestionam de palavras abruptas as quatro câmaras do coração

A ler a sonhar a suspirar a pensar. Guardava as noites como quem guarda a ideia de um espaço sôfrego e aglutinador, esta ideia primordial de há oito anos atrás que só poderia ser albergada nos côncavos de um homem outrora excessivo mas agora cendrado. Esta ideia de Estio tardio, este amor terrível, verdadeiro e perigoso pela qual teria valido a pena bater-me de forma quixotesca. Eras o meu amor ergódico, Azul, o meu animal marinho mais leve e belo que as sereias. E eu era um homem imenso e feliz. O homem mais feliz e lúcido do mundo. Agora deparo-me apenas com este estranho de mim mesmo cruzando-se a meio da noite com um homem de vitalidade imensa ao qual não tenho coragem de lhe responder porque é que ainda me encontro desperto. Gostaria de lhe ter confiado que amava uma mulher que apelidei de Azul Neblina.

Agora é tarde. É sempre tarde quando o cansaço inerme finalmente se instala. Não posso mais conversar com esse homem ao qual a Primavera e o Estio lhe assentavam tão bem. Queria ter-lhe declarado que, finalmente, reconheci que o Azul Neblina não se encontra numa mulher mas em mim. A morte interpôs-se quando cruzou a meta. O mundo inteiro cabia no seu coração e este não resistiu. O meu pai também era Azul Neblina.

A morte é outra coisa. A morte não é isto.

2 de outubro de 2013

Um dia I




“The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open.”

Philip Roth in The Dying Animal

“Teus ombros sustentam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança” – eis a frase de Drummond de Andrade que me assalta ao espírito ao evocar-te agora envolto pelo pesado fumo da cigarrilha. Os meus dedos enrolam-na, deixam que sedutoramente esta se enlace na minha mão, como o teu corpo se encoscorava junto ao meu, aninhado como um bicho-de-seda – e bastaria estares ali, não haveria palavra alguma que fosse necessário proferir, pois tu foste sempre a palavra mais dourada, a palavra primordial, a palavra única que constava do meu dicionário, e cujo léxico rico se arvorava, ramificando-se em sentidos múltiplos e complexos. Os teus ombros sustentavam o mundo porque tu eras a mulher, a casa, a pátria, a raiz há muito escondida de todas as línguas do mundo. Havia na doçura das tuas mãos e dos teus lábios aquilo que a mágoa dos teus olhos teima em esconder: o sentido teleológico que para mim funcionava como uma força atractiva, irresistível, inelutável, de que o universo fora criado para que nos encontrássemos.

Talvez seja um princípio universal: amar-se alguém construindo uma cosmogonia onde só se caiba a própria pessoa e o objecto da sua mais pura afeição. Mas como voltar a falar de amor se todas as palavras tropeçam na boca e se vão enclavinhar nas gengivas fazendo-as sangrar? Nunca mais poder dizer o quanto te amei; na boca apenas a polpa das palavras misturadas com o fel. Este pão ázimo que tem de se mastigar e ruminar todos os dias até se tornar num bolo digestivo passível de ser deglutido e assimilado.

Um dia finalmente acordas.

Passaram-se oito anos.

20 de junho de 2013

"GABRIEL Estás a falar acerca do teu amor?
TERESA Sim, acerca disso. É preguiça também, Gabriel. Consegues compreender que quando já não devemos amar alguém continuamos a fazê-lo, por preguiça. Somos assim tão preguiçosos. Eu sou assim tão preguiçosa, Gabriel."

Stig Dagerman - A Sombra de Mart



18 de junho de 2013

Esta morte não me pertence



Um dia acordaste volvidos sete anos. Uns dias numa cidade nórdica de eléctricos azuis. Compraste o último livro do Herberto Helder. Estiveste muito tempo com ele fechado quase a invocar o sentido do sagrado. Cheiraste-o. Tacteaste as palavras ali cinzeladas. Usaste os teus sentidos. Todos. 

E vês como tudo é tão claro, Alexandre?:

nunca mais quero escrever numa língua voraz,

porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça, 
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence, 
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio”




15 de junho de 2013

Intermezzo

Um dia sonhei que poderia escrever uma palavra tão densa quanto uma estrela de neutrões.

14 de junho de 2013


Os rododendros surgiram primaveris.


Tenho estas palavras na minha boca. Não se somem. Não se elidem. Não se vo la ti li z a m. Mastigo-as e voltam a surgir. Mais fulvas. Mais densas. Mais lépidas. Animadas de um movimento perpétuo em torno de língua, dentes, palato e papilas gustativas. É como ter leptocéfalos na minha boca que não cessam de retinir. Tenho estas palavras que me sabem a dias solares, a falar em demasia, a beber muito sem perder a compostura. Tenho palavras e palavras, mas apenas estas afloram à minha boca: “Os rododendros surgiram primaveris”. Palavras para amar e degustar. Não necessito guardar nas palmas das mãos tais palavras. Elas são como o sorriso invejável: perenes. É uma sensação agradável da qual não me canso. Palavras a beijarem-me a devorarem o meu mundo a sonharem-me a irromperem no meu dia a violarem o sacrário dos meus pensamentos. Tenho palavras na minha boca onde os sentidos afloram e tudo é vital e tudo é perfeito porque há em mim uma imperfeição estrutural que não cesso de contar ao mundo. Palavras que gatinham das minhas mãos e me beijam longamente.


Digo-te: sou um homem palavroso. Mas hoje dir-te-ia apenas que os rododendros surgiram primaveris.


(Esquivo-me ao mundo. Apenas no teu regaço encontro as primícias da beleza.)


13 de março de 2013

Yet this is Canada


Beneath the Malebolge lies Hastings street
The province of the pimp upon his beat
Where each in his little world of drugs or crime
Drifts hopelessly, or hopeful, begs a dime
Wherewith to purchase half-a-pint of piss
Although he will be cheated, even in this.
I hope, although I doubt it, that God knows
This place where chancres blossom like the rose
For in each face is such a hard despair
That nothing like a grief finds entrance there.
An on this scene from all excuse exempt
The mountains gaze in absolute contempt.
Yes this, yet this is Canada, my friend
Yours to absolve of ruin, or make an end.

Malcolm Lowry

23 de fevereiro de 2013

Si elle était douée de vie,
il ne serait pas possible de l'anéantir,
sans la supprimer d'emblée
car elle renaîtrait sans cesse
des profoundeurs de ses triangles,
comme la vie dans l'univers.

E. Cèsaro, 1905 (a propósito da curva de Koch)

2 de dezembro de 2012

Elementargeister



Sempre que Alexandre escutava a abertura de Tannhäuser, cerrava as suas pálpebras com uma intensidade feroz e um discreto pranto de felicidade assomava ao evocar-te, apesar de saber que não serias tu quem se sentaria ao seu lado na Ópera ou  lhe apertaria a mão fremente quando o seu coração ameaçava confundir a despolarização atrial com a ventricular.

[Imagem: L'Ouverture de Tannhäuser ou Jeune fille au piano, Cézanne, circa 1869]

6 de novembro de 2012

"all the hepcats are going goofy over something called 'nuclear physics' "



"Percorrer muitas estradas,
Voltar  para casa
E olhar tudo como se fosse a primeira vez"

T S Elliot


N'est ce pas, Tyrone Slothrop?

18 de junho de 2012

Que mais queres?

"Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.
¿Qué más quiere, qué más quiere? Atelo pronto a su muñeca, déjelo latir en libertad, imítelo anhelante. El miedo herrumbra las áncoras, cada cosa que pudo alcanzarse y fue olvidada va corroyendo las venas del reloj, gangrenando la fría sangre de sus rubíes. Y allá en el fondo está la muerte si no corremos y llegamos antes y comprendemos que ya no importa."

Julio Cortázar, Instrucciones para dar cuerda al reloj

18 de maio de 2012


Parêntesis: Por vezes juro que habitava nas palmas das tuas mãos, perdido entre um queratinócito ou um ninho de melanócitos.

14 de maio de 2012

Reaprender a escrever

Se um dia me perdesse a escrever-te mais uma carta de amor que fosse, evocar-te-ia as "Variações de Goldberg" e todas as interpretações da Beleza como uma verdade absoluta, impoluta mas também estocástica, Azul Neblina. 

27 de março de 2012

(E o que é um nanómetro? Um nanómetro é o suspiro do anjo quando beija a tessitura da pele mais breve das tuas coxas.)

10 de janeiro de 2012

Secreto Brilho

"Espero que as tangerinas brilhem antes de sangrarem os
últimos dias tatuados pelas rosas e crianças fulgurem
suspensas no ar nocturno das casas abandonadas"

 Cidália Fachada



10 de dezembro de 2011

Meu amor, amor meu, por fim renunciar à escrita com brevíssimas palavras





Aguardando que me perguntasses novamente como é adormecer nos meus braços, que me ciciasses ao ouvido que não há outro lugar onde preferisses estar. E eu, mesmo habitando os interstícios da luz, poder dizer-te apenas uma vez mais: "E a ti amei-te pela única razão certa que afinal também é a verdade redentora que procura o belo." Poder dizer-te uma vez mais que, para lá da definitiva derrota, sou o homem mais feliz do mundo sempre que evoco o azul-mais-que-azul. Mesmo sem direito ao pauzinho de canela  haveria sempre o cesto de piquenique na bagageira do carro aguardando por ti.



10 de agosto de 2011

Acorda. Dirige o teu olhar para o nascente. Um pouco mais à direita talvez. Orionte, o caçador, está a nascer. Há uma alba que se avizinha - todos os meus sentidos se despertam para esta. Parece que o cri-cri dos grilos se intensifica à medida que os meus olhos não se cansam de olhar para o céu. Ao longe o ruído tímido da cidade. Por vezes um carro a passar sem contudo interromper a detonação calma que me aperta. O som do comboio trazido pela brisa que me despenteia o cabelo. Uma sensação de espanto pelo firmamento há muito arredado de mim. Acorda. Partilho contigo esta beleza. Entreabro a boca de espanto e timidez pelo universo. Por tudo quanto existe. Por tudo quanto me une a ti, mesmo sem o saberes. Um meteoro dardeja o céu. É o tempo das perseides. Como me podia ter esquecido delas? Há tanto tempo que sinto que não observo o céu contigo. Acorda e lê Celan:

"Leg ihm dies Wort auf die Lider:
vielleicht
tritt in sein Aug, das noch blau ist,
eine zweite, fremdere Bläue,
und jener, der du zu ihm sagte,
 träumt mit ihm: Wir."

["Depõe-lhe esta palavra sobre as pálpebras:
talvez
surja nos seus olhos, ainda azuis,
um outro, mais estranho, tom de azul,
e aquele que o tratava por tu
sonhe com ele: Nós."]

Acorda que te beijo as pálpebras, Azul.

9 de junho de 2011

(ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)



Quando terminei de escrever fui assaltado por uma espécie de melancolia. Como se quisesse permanecer para sempre naquele texto, como se aquele homem de cabelos grisalhos pudesse ser eu e a mulher de tez sempre tisnada pelo Sol de vestidos rodopiantes e joelhos esfolados a lembrarem-me as crateras da Lua (e eu sei lá porquê, porque és o meu deus animista das coisas) fosses tu, a única interpretação do mundo, entre tantas possíveis: tu eras o colapso da minha função de onda, tenho este desvario em afirmá-lo, embora não o possas compreender. Como se me agradasse perder-me no meio das entrelinhas de palavras minuciosamente buriladas. Não queria ter de dar um ponto final à história, despedir-me para sempre do sábio e diletante gato que só gostava de Wittgenstein ou do cão que se chamava Óscar e que percebia muito pouco de Filosofia. Queria que aquelas palavras continuassem a habitar a superfície da minha pele como microorganismos simbióticos. Desejava que os ditirambos do Prof. Ricci se alvoraçassem um pouco mais na ponta dos meus dedos ou que o plano principal da obra tivesse sido um pouco mais esparso, mais milimétrico, mais arrumado, mais caligráfico, como que se animado pelo punho de um Walser em Waldau, como se a minha escrita fosse reduzida apenas a este pulsar descompassado do coração, registado numa escala quase imperceptível

         (ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)

Refiro-me, está claro, ao livro que escribulei (não, não percas o teu tempo a procurar essa palavrinha no dicionário, acabei de a resgatar da tessitura do céu ou do saibro da terra – tanto faz) e, embora a forma como me tenha livrado daquelas folhas como alguém se livra da culpa tenha sido tão operática quanto burlesca (canso-me de repetir a mim mesmo, num afã de apaziguamento, que Wagner no Caramulo pode não ser a mesma coisa que em Bayreuth, mas que por lá talvez habitem moiras encantadas que se enterneçam com as minhas palavras), a verdade é que de alguma forma sentia que as personagens que habitavam o meu livro não poderiam nunca ter termo distinto daquele. Diz-me, o que escreveria eu como dedicatória, sabendo que nunca o lerias: “À Joana S________”, “Ao azul mais que azul”, “À Joana de Sintra” (este aqui glosando um equívoco à Vila-Matas que dedica sempre as suas obras à sua mulher, Paula de Parma), “À minha geometria combinatória dos dias”, “Para a Joana, a mulher mais bonita do mundo”, “Para o sinal marca de estrela”, “Ao Azul Neblina”?

Há um mês atrás estava sentado numa das ghâts de Varanasi, observando o rápido declinar do Sol no céu e esse espalhamento da luz que teima em reflectir-se no rio, arvorando em todo um cambiante de matizes. Há miúdos a jogar cricket mesmo ao pé das ghâts onde ocorrem as cremações. Há um salmodiar confuso numa daquelas cerimónias. Um corpo arde e outro ainda. Fumo um cigarro, quase alheio ao tropel quotidiano da cidade. Uma poluição imensa, imensa (os níveis de poluição biológico passaram todos os limites legais e estão a queimar grandes quantidades de lixo orgânico na orla da cidade): o ar na minha garganta adensa-se da poeira que inalo e sei que nas minhas narinas há uma competição entre o fumo do cigarro e as dos cadáveres humanos colocados a arder nas piras crematórias. Os cães refastelam-se ao sol. Dizem que por vezes comem os restos dos cadáveres cuja combustão não foi bem realizada, mas tal nunca observei, talvez tenha apenas vislumbrado parte de corpos a boiar na água infecta. Por vezes vejo algum bovídeo a deambular por ali, indiferente a isto tudo. Indiferente, como eu. Indiferente aos rituais em que as pessoas rapam o cabelo e às imensas solicitações que sofro. A cidade de Shiva não é o sítio mais bonito no mundo, mesmo com um livro do Tagore a forrar o meu bolso. Mas não me sinto chocado com nada disto. Aprendi a aceitar Varanasi, como aceito a tua ausência: sem a compreender, mas sempre presente em mim. E assim celebro a beleza que esta cidade encerra, apesar desta constante encenação e farsa em relação à morte (como deves saber, Gandhi foi muito crítico em relação a este folclore hindi de Varanasi). Alheio-me a isto tudo e observo as abluções das pessoas no Ganges. Não me atrevo a chegar lá perto porque é um dos rios mais poluídos do mundo mas, de alguma forma, invejo aquelas crianças que se banham e se riem de uma forma tão despreocupada como eu quando conduzo e deixo que o vento amacie o meu cabelo. A felicidade também é isto: estar num sítio improvável do mundo e, embora não estejas ali comigo, és tu quem habitas o meu coração e que me faz estremecer. Naquela ghât em Varanasi não há peregrinos, não há cremações, não há a confusão de pessoas ou de mundos em ebulição. Há apenas um sobressalto no meu coração, algo de muito terno e um fragor que surge em qualquer sítio do mundo sempre que te invoco. A felicidade também é ir a Jantar Mantar (o observatório de Jai Singh) e recordar-me das palavras do Cortázar quando escreveu aquele punhado de folhas e, sob aquele sol abrasador do meio-dia solar, sem protector solar ou chapéu (tinha-o perdido naquela alegre confusão de Varanasi após uma diatribe com um condutor de riquexó), ciciar a um monólito que te amo.

De acordo com a minha crença numa versão local do Livre Arbítrio e na minha costumeira refutação na sua versão global (assim como quem preferisse a Geometria à Topologia, sorrio – é que não deixa de ser uma sublime ironia), quando regressei do subcontinente determinei que era altura de devolver o resto das palavras que te escrevi: é um conjunto de poemas e algumas mensagens de amor que te fui escrevendo nos últimos anos, sempre que terminava uma caixa de cigarrilhas ou de charutos. São 248 poemas no seu total. Há também um conjunto de cadernos com escritos e cartas nuns caderninhos pretos. Escrevi-as para ti. Ou por ti.

Não sei como terminar esta mensagem – não deixo de ser desusadamente palavroso, e agora desabituado a escrever há muito... Assim, deixo-te as palavras inicias de “La prosa del observatório”, do Cortázar. Quisera eu também ter escrito algo assim para ti. Por ti.


“Esa hora que puede llegar alguna vez fuera de toda hora, agujero en la red del tiempo, esa manera de estar entre, no por encima o detrás sino entre, esa hora orificio a la que se accede al socaire de las otras horas, de la incontable vida con sus horas de frente y de lado, su tiempo para cada cosa, sus cosas en el preciso tiempo, estar en una pieza de hotel o de un andén, estar mirando una vitrina, un perro, acaso teniéndote en los brazos, amor de siesta o duermevela, entreviendo en esa mancha clara la puerta que se abre a la terraza, en una ráfaga verde la blusa que te quitaste para darme la leve sal que tiembla en tus senos, y sin aviso, sin innecesarias advertencias de pasaje, en un café del barrio latino o en la última secuencia de una película de Pabst, un arrimo a lo que ya no se ordena como dios manda, acceso entre dos ocupaciones instaladas en el nicho de sus horas, en la colmena día, así o de otra manera (en la ducha, en plena calle, en una sonata, en un telegrama) tocar con algo que no se apoya en los sentidos esa brecha en la sucesión, y tan así, tan resbalando, las anguilas, por ejemplo, la región de los sargazos, las anguilas y también las máquinas de mármol, la noche de Jai Singh bebiendo un flujo de estrellas, los observatorios bajo la luna de Jaipur y de Delhi, la negra cinta de las migraciones, las anguilas en plena calle o en la platea de un teatro, dándose para el que las sigue desde las máquinas de mármol, ese que ya no mira el reloj en la noche de París; tan simplemente anillo de Moebius y de anguila y de máquinas de mármol, esto que fluye ya en una palabra desatinada, desarrimada, que busca por sí misma, que también se pone en marcha desde sargazos de tiempo y semánticas aleatorias, la migración de un verbo: discurso, decurso, las anguilas atlánticas y las palabras anguilas, los relámpagos de mármol de las máquinas de Jai Singh, el que mira los astros y las anguilas, el anillo de Moebius circulando en sí mismo, en el océano, en Jaipur, cumpliéndose otra vez sin otras veces, siendo como lo es el mármol, como lo es la anguila: comprenderás que nada de eso puede decirse desde aceras o sillas o tablados de la ciudad; comprenderás que sólo así, cediéndose anguila o mármol, dejándose anillo, entonces ya no se está entre los sargazos, ..hay decurso, eso pasa: intentarlo, como ellas en la noche atlántica, como el que busca las mensuras estelares, no para saber, no para nada; algo como un golpe de ala, un descorrerse, un quejido de amor y entonces ya, entonces tal vez, entonces por eso sí.
Desde luego inevitable metáfora, anguila o estrella, desde luego perchas de la imagen, desde luego ficción, ergo tranquilidad en bibliotecas y butacas; como quieras, no hay otra manera aquí de ser un sultán de Jaipur, un banco de anguilas, un hombre que levanta la cara hacia lo abierto en la noche pelirroja.”


[continua amanhã, distribuindo os caderninhos de molesquina e os poemas aos leitores interessados] 

Há uma casa em Orchha (ओरछा) com o teu nome




7 de junho de 2011

Gosto quase tanto do Solti como gosto de difeomorfismos



[Se eu fosse uma linha recta nunca mais poderia sonhar com cáusticas]

30 de maio de 2011

Quando foi a última vez que foste a pessoa mais feliz do mundo?


Varanasi: abluções matinais no Ganges enquanto passeava de barco para assistir às cremações na Manikarnika Ghat.

6 de abril de 2011

Uma (certa) ideia da Índia

Recordo-me de ter usado na minha tese de Licenciatura a citação que mais abaixo se apresenta. É justo confessar que, de alguma forma, a minha vida esteve sempre irremediavelmente ligada a determinada obras e esta pequena peça de literatura - apropriada para almas insones e viajantes improváveis -, não é excepção. O autor apresenta no seu livro a hipótese de que alguém talvez possa um dia reproduzir a sua viagem por uma Índia de gares, hospitais, quartos de hotel num ambiente que a minha memória faz aludir como soturno. 

Alexandre: A Índia como uma sala de espera ou uma ante-câmara para uma outra vida. 

A verdade é que não releio este livro há uma boa década e não posso negar a verdadeira possibilidade de surpresa que possa aflorir aos meus olhos quando reencontrar na lisura das suas linhas uma Índia um pouco mais solar que a desta viagem de Mumbai a Goa. Reduzir um livro a uma viagem não é o meu intento; há algo delicadamente missionário nesta demanda por Xavier, como quem decerto procura uma (certa) ideia de redenção. 

‘Estendi-me no fundo do barco e pus-me a olhar para o céu. A noite estava verdadeiramente magnífica. Segui as constelações e pensei nas estrelas e no tempo em que as estudava e nas tardes passadas no planetário. De repente lembrei-me delas como as tinha aprendido, segundo a classificação da intensidade luminosa: Sírio, Canopo, Centauro, Vega, Capela, Artur, Oríon… E depois pensei nas estrelas variáveis e na voz de uma pessoa querida. E depois nas estrelas extintas, cuja luz ainda continua a chegar até nós, e nas estrelas de neutrões, na fase final da evolução, e no débil raio que emitem. Disse em voz baixa: pulsar. E quase como se tivesse sido acordada pelo meu sussurro, como se tivesse accionado um gravador, chegou até mim a voz nasal e fleumática do professor Stini que dizia: quando a massa de uma estrela agonizante é superior ao dobro da massa solar, já não existe estado da matéria capaz de deter a concentração, e esta procede até ao infinito; já não sai mais nenhuma radiação dessa estrela, que se transforma assim num buraco negro.’


“Nocturno Indiano”, Antonio Tabucchi


15 de outubro de 2010

Falar-lhe da sua ausência

Ou dizer-lhe como gosto que sejas a minha madrugada, o meu alvor, o meu ante-meridiano, a minha tarde espessa de calor, o meu crepúsculo ácido com um copo entre os dentes, a noite funda com o teu sexo na minha boca.

12 de julho de 2010

Somos todos uns crédulos II

Somos todos uns crédulos I

Se isto...

Se isto fosse um blogue pedante e sério como um livro do Lobo Antunes que vai à guerra apenas para beber Martinis, escreveria assim:

"Hoje acordei como que acossado por imagens do gás de Rubídio num condensado de Bose-Einstein e a sonhar com pipas de carvalho com vintage Porto apenas para justificar as diferenças entre os cinco (número em discussão) estados da matéria e com dois livros do Cormac McCarthy (agora que já não é moda) comprados num impulso a lembrar as primícias da adolescência.

Em suma: não sei o que dizer destes novos cânones literários de tantos ignotos. O meu reino por uma cópia dos Principia Mathematica.

Post sriptum: E para o estado da matéria mais abundante no universo, que exemplo ilustrativo escolhi eu? O fogo de Santo Elmo, claro está.

1 de junho de 2010

Sentes?

Já um dia disseste "fui a pessoa mais feliz do mundo"?

...

Di-lo.

Agora.


A Hipótese do Contínuo. Também em BD...



Hoje a minha atenção dedicou-se de forma íntegra a uma oferta que me chegou pelo correio. Trata-se do livro "Logicomix, an Epic Search for Truth", cujos autores são Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, e do qual, aliás, já tive oportunidade de reproduzir descaradamente umas quantas vinhetas. Por coincidência, chegou-me à caixa de correio electrónico uma sinopse daquele livro de capas azuis onde se reúne um conjunto de ensaios na área da Lógica dedicados a Gödel. E acabo mesmo agora de descobrir que  hoje irá decorrer um evento em Lisboa (clicar no cartaz para ampliá-lo) ao qual gostaria de ter estado presente, não me encontrasse tão distante. Por vezes, a pandilha de Whitehead, Russell e Gödel provoca-me saudades, arrisco.


Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões...





[Imagens de "Logicomix, an Epic Search for Truth", brilhante livro de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou]

Se eu tivesse um blogue respeitável...


... intitularia esta publicação da seguinte forma: "Hoje acordei assim, como que Wittgenstein a bradar contra a existência de uma realidade matemática independente e a agitar um atiçador de  forma particularmente iracunda".



Como o meu blog é tudo menos respeitável (e até tem o desplante de optar pela grafia internacional, menos domesticada) intitularia assim: "Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões, percorreu a minha pele plasmando-se em simétricos exercícios de incisão". 


Ainda a propósito de Gödel



[Com o risco assumido de que apenas uma pequena fracção  dos leitores o compreenda;

como de habitual desviado daqui]


Já sei o que pretendo para o meu aniversário...



(... e, já agora,  um chapéu novo porque o outro ateimou em rodopiar em graves voltejos enquanto o avistava pelo retrovisor afastando-se. Um chapéu à Gödel, não à Hilbert, bem entendido...)


26 de maio de 2010

VII Encontro Internacional de Poetas

Mais informações aqui.


Respondo que Wagner nunca me incomoda III


[Uma nota do Biafra perdida por entre "Gente de Dublin" do Joyce; tenho por aí a versão original em inglês ("Dubliners") mas, tal como o "Opus Pistorum" do Henry Miller, não há forma de o reencontrar]

Respondo que Wagner nunca me incomoda II


[Este resgatei-o de um contentor para reciclagem; não é o meu livro favorito de Cálculo Tensorial, mas já privei de alguns bons momentos na sua companhia]

25 de maio de 2010

Respondo que Wagner nunca me incomoda I

Após alguns dias absorto por uma nova demonstração de fecunda beleza  (em bom rigor: uma velha demonstração que se me assemelha a algo de muito arejado e moderno) que me deixou notavelmente bem disposto e de uma pequena brincadeira com os quaterniões, esses Irmãos Metralha da Matemática, vislumbro um regresso à realidade e à árdua tarefa de trasladar os meus livros na demanda de uma nova ordenação, mais justa e salutarmente mais emotiva. É neste processo combinatório, muitas vezes pouco científico, que acabo por desviar a atenção do propósito inicial e passo a folhear a maior parte dos livros à procura de marginalia, pequenos papéis e notículas escondidas ou de uma passagem quase esquecida no nemoroso da minha memória. Releio uma página aqui e ali, dou uma sacudidela valente a um ou outro exemplar com a esperança incontida que dele brote um papelinho qualquer e quase que não presto atenção à vontade indómita dos meus dedos em percorrer longitudinalmente as lombadas, como os seus nodos tinham por hábito fazê-lo ao longo da tua espinha. Longitudinal e transversalmente, quero eu dizer. Alguns livros despertam-me o desejo de os tactear mais demoradamente. Outros convidam-me a que os cheire. A outros ainda emociona-me o amarelecimento das suas páginas; constato que envelheceram bem e permito que um breve sorriso aflore aos meus lábios.

Esqueço-me do mundo lá fora, aborrecido, grisalho. Comezinho, como costumavas dizer. Esqueço-me de todas as solicitações recebidas nos últimos dias e da correspondência atafulhada para dentro das entranhas luciferinas de uma gaveta. Por ora deixo que a luz filtrada pelas nuvens e pela vidraça me lisonjeie o rosto e sento-me no chão, ao lado de uma pilha de livros em vias de desmoronar e causar uma perturbação geofísica que faria corar de vergonha a causada por aquele vulcão islandês de nome gutural de que é moda actualmente falar.

(procuro no recôncavo interior dos livros um jardim vicejante de palavras rútilas)

De repente dou-me conta que durante este ano apenas li um punhado de livros dignos de registo. E é justamente sobre isto que pretendo falar. Daqui a umas horas.

16 de maio de 2010

"Parabéns, laser!" ou "Nem a Pussy Galore te safa desta"



Cinquenta anos a inspirar a perfídia e maus filmes de ficção-científica.


[Imagem: fotograma de Goldfinger (1964) com a equação geral do ganho para a amplificação óptica]


13 de maio de 2010

Para quem ainda queira ir...

"Fronteiras na Física de Partículas, Astrofísica e Cosmologia ‐ Sessão Pública

No próximo dia 13 de Maio vai realizar‐se no Centro de Congressos do IST, das 14h30 às 18h00, uma sessão pública que pretende divulgar e discutir o estado actual do conhecimento que temos sobre a física que rege o Universo em que vivemos (do infinitamente pequeno ao infinitamente grande).

Esta sessão é a primeira actividade pública da recente constituída rede internacional de doutoramento IDPASC (International Doctorate Network in Particle Physics, Astrophysics and Cosmology) que reúne várias Universidades Portuguesas, Espanholas, Italianas e Francesas e o CERN.

O programa da sessão é o seguinte:


"Frontiers in Particle Physics, Astrophysics and Cosmology"


14h30 ‐ Welcome 14h45 ‐"Past, Present and Future of the Universe" ‐ Prof. Joseph Silk, Savilian Professor of Astronomy, University of Oxford

15h30‐ coffee break 16h‐“Searching for Accelerators in the Cosmos” ‐ Prof. Alan Watson, spokesman Emeritus of Pierre Auger Observatory

16h45‐"The LHC and the early Universe"‐ Prof. Rolf‐Dieter Heuer, Director General of CERN

17h30 ‐ discussion 

18h00 ‐ End of session

Esclarecimentos adicionais Prof. Mário Pimenta (pimenta@lip.pt)"