14 de junho de 2013
13 de março de 2013
Yet this is Canada
23 de fevereiro de 2013
il ne serait pas possible de l'anéantir,
sans la supprimer d'emblée
car elle renaîtrait sans cesse
des profoundeurs de ses triangles,
comme la vie dans l'univers.
E. Cèsaro, 1905 (a propósito da curva de Koch)
2 de dezembro de 2012
Elementargeister
Sempre que Alexandre escutava a abertura de Tannhäuser, cerrava as suas pálpebras com uma intensidade feroz e um discreto pranto de felicidade assomava ao evocar-te, apesar de saber que não serias tu quem se sentaria ao seu lado na Ópera ou lhe apertaria a mão fremente quando o seu coração ameaçava confundir a despolarização atrial com a ventricular.
[Imagem: L'Ouverture de Tannhäuser ou Jeune fille au piano, Cézanne, circa 1869]
6 de novembro de 2012
18 de junho de 2012
Que mais queres?
¿Qué más quiere, qué más quiere? Atelo pronto a su muñeca, déjelo latir en libertad, imítelo anhelante. El miedo herrumbra las áncoras, cada cosa que pudo alcanzarse y fue olvidada va corroyendo las venas del reloj, gangrenando la fría sangre de sus rubíes. Y allá en el fondo está la muerte si no corremos y llegamos antes y comprendemos que ya no importa."
18 de maio de 2012
14 de maio de 2012
Reaprender a escrever
15 de abril de 2012
27 de março de 2012
10 de janeiro de 2012
Secreto Brilho
últimos dias tatuados pelas rosas e crianças fulgurem
suspensas no ar nocturno das casas abandonadas"
Cidália Fachada
10 de dezembro de 2011
Meu amor, amor meu, por fim renunciar à escrita com brevíssimas palavras
10 de agosto de 2011
"Leg ihm dies Wort auf die Lider:
vielleicht
tritt in sein Aug, das noch blau ist,
eine zweite, fremdere Bläue,
und jener, der du zu ihm sagte,
träumt mit ihm: Wir."
["Depõe-lhe esta palavra sobre as pálpebras:
talvez
surja nos seus olhos, ainda azuis,
um outro, mais estranho, tom de azul,
e aquele que o tratava por tu
sonhe com ele: Nós."]
Acorda que te beijo as pálpebras, Azul.
9 de junho de 2011
(ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)
Desde luego inevitable metáfora, anguila o estrella, desde luego perchas de la imagen, desde luego ficción, ergo tranquilidad en bibliotecas y butacas; como quieras, no hay otra manera aquí de ser un sultán de Jaipur, un banco de anguilas, un hombre que levanta la cara hacia lo abierto en la noche pelirroja.”
[continua amanhã, distribuindo os caderninhos de molesquina e os poemas aos leitores interessados]
7 de junho de 2011
Gosto quase tanto do Solti como gosto de difeomorfismos
30 de maio de 2011
6 de abril de 2011
Uma (certa) ideia da Índia
“Nocturno Indiano”, Antonio Tabucchi
Palavras-chave: Uma (certa) ideia da Índia
15 de outubro de 2010
Falar-lhe da sua ausência
Ou dizer-lhe como gosto que sejas a minha madrugada, o meu alvor, o meu ante-meridiano, a minha tarde espessa de calor, o meu crepúsculo ácido com um copo entre os dentes, a noite funda com o teu sexo na minha boca.
Palavras-chave: SMS
12 de julho de 2010
Se isto...
Se isto fosse um blogue pedante e sério como um livro do Lobo Antunes que vai à guerra apenas para beber Martinis, escreveria assim:
"Hoje acordei como que acossado por imagens do gás de Rubídio num condensado de Bose-Einstein e a sonhar com pipas de carvalho com vintage Porto apenas para justificar as diferenças entre os cinco (número em discussão) estados da matéria e com dois livros do Cormac McCarthy (agora que já não é moda) comprados num impulso a lembrar as primícias da adolescência.
Em suma: não sei o que dizer destes novos cânones literários de tantos ignotos. O meu reino por uma cópia dos Principia Mathematica.
Post sriptum: E para o estado da matéria mais abundante no universo, que exemplo ilustrativo escolhi eu? O fogo de Santo Elmo, claro está.
7 de julho de 2010
6 de julho de 2010
1 de junho de 2010
A Hipótese do Contínuo. Também em BD...

Hoje a minha atenção dedicou-se de forma íntegra a uma oferta que me chegou pelo correio. Trata-se do livro "Logicomix, an Epic Search for Truth", cujos autores são Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, e do qual, aliás, já tive oportunidade de reproduzir descaradamente umas quantas vinhetas. Por coincidência, chegou-me à caixa de correio electrónico uma sinopse daquele livro de capas azuis onde se reúne um conjunto de ensaios na área da Lógica dedicados a Gödel. E acabo mesmo agora de descobrir que hoje irá decorrer um evento em Lisboa (clicar no cartaz para ampliá-lo) ao qual gostaria de ter estado presente, não me encontrasse tão distante. Por vezes, a pandilha de Whitehead, Russell e Gödel provoca-me saudades, arrisco.
Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões...


[Imagens de "Logicomix, an Epic Search for Truth", brilhante livro de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou]
Se eu tivesse um blogue respeitável...
... intitularia esta publicação da seguinte forma: "Hoje acordei assim, como que Wittgenstein a bradar contra a existência de uma realidade matemática independente e a agitar um atiçador de forma particularmente iracunda".

Como o meu blog é tudo menos respeitável (e até tem o desplante de optar pela grafia internacional, menos domesticada) intitularia assim: "Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões, percorreu a minha pele plasmando-se em simétricos exercícios de incisão".
Ainda a propósito de Gödel

[Com o risco assumido de que apenas uma pequena fracção dos leitores o compreenda;
como de habitual desviado daqui]
Já sei o que pretendo para o meu aniversário...

(... e, já agora, um chapéu novo porque o outro ateimou em rodopiar em graves voltejos enquanto o avistava pelo retrovisor afastando-se. Um chapéu à Gödel, não à Hilbert, bem entendido...)

Palavras-chave: Azul, Matemática, Serendipidade
26 de maio de 2010
25 de maio de 2010
Respondo que Wagner nunca me incomoda I
Após alguns dias absorto por uma nova demonstração de fecunda beleza (em bom rigor: uma velha demonstração que se me assemelha a algo de muito arejado e moderno) que me deixou notavelmente bem disposto e de uma pequena brincadeira com os quaterniões, esses Irmãos Metralha da Matemática, vislumbro um regresso à realidade e à árdua tarefa de trasladar os meus livros na demanda de uma nova ordenação, mais justa e salutarmente mais emotiva. É neste processo combinatório, muitas vezes pouco científico, que acabo por desviar a atenção do propósito inicial e passo a folhear a maior parte dos livros à procura de marginalia, pequenos papéis e notículas escondidas ou de uma passagem quase esquecida no nemoroso da minha memória. Releio uma página aqui e ali, dou uma sacudidela valente a um ou outro exemplar com a esperança incontida que dele brote um papelinho qualquer e quase que não presto atenção à vontade indómita dos meus dedos em percorrer longitudinalmente as lombadas, como os seus nodos tinham por hábito fazê-lo ao longo da tua espinha. Longitudinal e transversalmente, quero eu dizer. Alguns livros despertam-me o desejo de os tactear mais demoradamente. Outros convidam-me a que os cheire. A outros ainda emociona-me o amarelecimento das suas páginas; constato que envelheceram bem e permito que um breve sorriso aflore aos meus lábios.
Esqueço-me do mundo lá fora, aborrecido, grisalho. Comezinho, como costumavas dizer. Esqueço-me de todas as solicitações recebidas nos últimos dias e da correspondência atafulhada para dentro das entranhas luciferinas de uma gaveta. Por ora deixo que a luz filtrada pelas nuvens e pela vidraça me lisonjeie o rosto e sento-me no chão, ao lado de uma pilha de livros em vias de desmoronar e causar uma perturbação geofísica que faria corar de vergonha a causada por aquele vulcão islandês de nome gutural de que é moda actualmente falar.
(procuro no recôncavo interior dos livros um jardim vicejante de palavras rútilas)
De repente dou-me conta que durante este ano apenas li um punhado de livros dignos de registo. E é justamente sobre isto que pretendo falar. Daqui a umas horas.
16 de maio de 2010
"Parabéns, laser!" ou "Nem a Pussy Galore te safa desta"

Cinquenta anos a inspirar a perfídia e maus filmes de ficção-científica.
[Imagem: fotograma de Goldfinger (1964) com a equação geral do ganho para a amplificação óptica]
Palavras-chave: Física Pop
13 de maio de 2010
Para quem ainda queira ir...
"Fronteiras na Física de Partículas, Astrofísica e Cosmologia ‐ Sessão Pública
No próximo dia 13 de Maio vai realizar‐se no Centro de Congressos do IST, das 14h30 às 18h00, uma sessão pública que pretende divulgar e discutir o estado actual do conhecimento que temos sobre a física que rege o Universo em que vivemos (do infinitamente pequeno ao infinitamente grande).
O programa da sessão é o seguinte:
"Frontiers in Particle Physics, Astrophysics and Cosmology"
14h30 ‐ Welcome 14h45 ‐"Past, Present and Future of the Universe" ‐ Prof. Joseph Silk, Savilian Professor of Astronomy, University of Oxford
15h30‐ coffee break 16h‐“Searching for Accelerators in the Cosmos” ‐ Prof. Alan Watson, spokesman Emeritus of Pierre Auger Observatory
16h45‐"The LHC and the early Universe"‐ Prof. Rolf‐Dieter Heuer, Director General of CERN
17h30 ‐ discussion
18h00 ‐ End of session
11 de maio de 2010
Como em Vila-Matas
Erro porque antes de mim outros também o fizeram.
(«Escrevo porque antes de mim outros também o fizeram.» Enrique Vila-Matas)
21 de abril de 2010
"Girl, I'm back in Spanish Town / Ain't no trouble coming around"
Havia arandos, creio. Café ensimesmado com um pauzinho de canela (e assim eu sonho com histórias de piratas e filibusteiros nos mares do Pacífico). O meu cesto de piquenique com um aranhiço em proezas.
24 de fevereiro de 2010
18 de janeiro de 2010
Rohmer (1920-2010)
Parece-me que não devias ter morrido agora, tão cedo. Parece-me que faltava sempre mais um filme para realizares, talvez um filme em que eu próprio pudesse encarnar uma das tuas personagens e ensaiar uma felicidade mínima.
12 de novembro de 2009
Antes de Adormecer é preciso tropeçar (XI)
Antes de adormecer, vem-me à memória ancilar palavras ouvidas da boca de Ana Luísa Amaral: "A única coisa que pode tornar o amor menos mortal e menos transitório é a palavra.”
Apago a luz desarmada do candeeiro de pé alto. Inquieto-me na cadeira. São horas de dormir e de sonhar com palavras desastrosas. Palavras a tropeçar.
Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar.
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Comentários
Âncora Salsugem Baleeiro
Palavras-chave: Antes de Adormecer
1 de novembro de 2009
6:00
"E saio às seis da manhã e começo à procura de ti. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti." (Sarah Kane)
Enquanto dormimos as estrelas rearranjam as suas posições

Os excertos anteriores (capítulos 7 e 12, os únicos que foram dados a ler a outras pessoas) fazem parte de um romance não publicado. Não é meu intento publicá-lo. Escreve-se como quem escreve para que haja uma parte de nós que não morra, que refute o efémero e a transiência das coisas. Escreve-se para comunicar com o mundo (quantas vezes terei repetido isto para os botões do meu casaco sovado?), mas também para demonstrar algo. Algo que não devia ser passível de demonstração. As demonstrações mais bonitas encontram-se no reino da Matemática, claro está, e a este propósito merecia aqui evocar Hardy e Erdös e esse livro que Deus (aqui ele merece letrinha maiúscula) terá compilado com as provas matemáticas mais belas. Embora nesse livro não deva constar a derivação das equações de campo de Einstein a partir da acção de Einstein-Hilbert, não posso deixar de confidenciar que foi algo que sempre me deu algum prazer exercitar. Como se cumprisse um ritual. Torno-me assim numa espécie de Erland Josephson a dirimir argumentos sobre a importância dos actos (aparentemente) inúteis num filme do Tarkovski ("Offret"). Habituei-me a encarar os 107 capítulos daquele livro como uma oferenda que, diariamente, erigia. Como se as palavras ao ganhar uma consistência na folha de papel fossem elas próprias um conjunto auto-consistente de algo extremamente vital, algo de importante porque aquele arranjo e rearranjo era meu. Único. Resistente ao Lema de Borel-Cantelli e à horda infinita de macacos (explicação aqui) que assolava os meus sonhos de autor.
[continua amanhã]
Todo o mundo
No café sentava-me a ler Enrique Vila-Matas e enquanto me afagavas e puxavas com força o cabelo curtinho para ti, todos os sorrisos do mundo ascendiam à boca como ondas de convecção. Deixa-me ensinar-te os nomes das estrelas, mesmo aquelas cujo nome se elide na minha língua, revoluteando-se e enleando-se no meu palato. Sabes-me a mim, sabes-me a grânulos de felicidade e chispas de paixão. Quis consumir-te numa só noite, num fim-de-semana a contar estrelas numa fúria de taxonomista (repito-me, sim, sim, sim) e a reconciliar-me com o céu nocturno. Havia uma casa em ruínas donde se avistava a curva do rio. Eu olhava para aquele comboio manso, agraciado, exaltado por essa presença perene e esse amor que era amor e que era tanto e tudo o que ficou por dizer. Teria sido feliz contigo, a cuspir grainhas de uva por entre os vinhedos e a falar sobre taninos e a beber vinho fino o dia inteiro, imaginando que um dia reconstruiria uma casa como essa e, longe do bulício dos dias e do estafado quotidiano, iria dedilhar palavras para ti, sorrisos em conluio com geometrias e topologias diversas e - porque não? - coroar alguns disparates pelo meio, pois então, porque tenho esta tendência ominosa de ser pouco clarividente na minha expressão verbal. Mas eu era feliz, porque havia dias inteiros nas árvores, dias a sonhar com amêndoas e a cingir-te muito apertada à minha cintura. Havia um carinho desmedido e essa ternura violenta com que te amava. Eras a minha rapariga trinca-espinhas e eu era um homem abençoado pela felicidade que teimava em invadir os meus poros e arremeter-me de frases feitas, frases toscas e simples, pouco buriladas, mas sentidas. Quando invocavas o meu nome eu era todos os homens do mundo. E todas as mulheres do mundo, também. Estavas ali. E eras tu. Tu? Sim, tu. E perguntavas-me quem eu era e eu afiançava-te ser o homem mais feliz do mundo. O homem que desaprende a felicidade e a quem lhe dão o sorriso mais bonito de sempre. Um sorriso teleológico, que vem do início do tempo e que se prolonga sem mácula e é perene. Em ti, o sentido da eternidade.
Agora, regresso a casa de madrugada; e cansados os meus olhos não encontram os teus gestos franzinos mas solícitos, apenas essa ausência que se inscreve como uma doença maligna. Dói.
"E o que é a dor, Alexandre?"
"A dor é isto, é ter de escrever assim, frases curtinhas para não me cansar muito, para tentar compreender como as palavras se acomodam tão mal, que dizem tão pouco, zangado com elas, porque há um homem que não é só palavras e que estas perderam o seu sentido primacial". Abro um livro ao acaso. Que digo? Não, não é ao acaso. O acaso existe, mas hoje escondeu-se de mim, apenas para me torturar de impaciência e saudades. São "Os vinte e cinco poemas à hora do almoço" do Frank O'Hara. Li-te apenas um, a minha voz arriscando uma clareza inaudita, fugindo a grumos e a esse entaramelamento que por vezes me assiste. Temeste a minha mudez ronceira e, agora, aguardo que entres por aquela porta, descalça, e um pouco titubeante, quem sabe?, arrancas-me da soleira da porta pelo braço, onde sem querer conhecer o sentido da palavra resignação aguardo que uma brisa tépida me beije os lábios, e me peças para ler os restantes vinte e quatro. Um para cada hora do dia. Todos os dias.
Pigarreio um pouco e
St. Paul and All That
Frank O’Hara
Totally abashed and smiling
sit down and
face the frigidaire
no May
it’s May
such little things have to be established in the morning
after the big things of night
but that’s good”
they will only fill a coffee cup
and says “hey,
[copyright Frank O’Hara, 1961]
Todos os dias do mundo, amor.
31 de outubro de 2009
Excerto II (capítulo 7)
A grafite e o silício sonham talvez com outra existência. Os números também sonharão. As linhas rectas e os infinitos que não existem na natureza sonho-os eu. Sonho-me a mim. Sonho o cálcio que me sustenta. Digo a palavra “cartilagem” e abano o nariz como se nele tivesse respingado um floco de neve disparatadamente simétrico. A minha língua por vezes sonha ser triturada por cacos de vidros. A apalage da dor e esta língua carda perfurada a pionaises de cabeças multicoloridas. Berlindes. Em criança guardava tampas de garrafas. Tinha uma saca cheia delas. Sacolejava-a frequentemente para ouvir o chocalho da lata, os níqueis estridentes e ruidosos, como se eu pudesse dar viva voz às partículas de gás em violenta colisão umas com as outras, nesse vidrinho de alquimista que eu imaginava possuir. Mais tarde expliquei ao meu filho o que é o som. Ele teria uns sete ou oito anos e julgo que não terá percebido. Todavia declara na ocasião que gostaria de ver as palavras desenhadas no ar (eu, que apenas sabia desenhar caligramas no corpo da minha mulher, não tentei o ar). E a criança fala da existência física. Pela primeira vez a criança fala como se o seu pai tivesse proferido aquelas palavras. Da boca do seu pai. E o pai é imortal porque é a voz noutra estrutura de átomos. Em muito mais que uma estrutura de átomos... Átomos como berlindes a beijarem a complexidade. Teria gostado de lhe ter deixado os meus berlindes e as minhas tampas de garrafas. Como resumir isto? Dizer que sempre estive mais perto da matéria com que a natureza se fabricou do que com Deus. Dizer que as palavras ainda estiveram mais perto de mim pois elas são a protogeometria de todas as coisas.
Excerto I (capítulo 12)
O Teorema começa assim.
Andar. Sentir a calçada fugir debaixo das solas dos sapatos. Sentir a derme destes a ranger, imaginar que são os ossos que chiam sofrendo a humidade de um dia de Outono. Chegar a casa. Chave apropriada em ranhura apropriada. Girá-la. Parar apenas um instante à ombreira da porta. Preparar para entrar. Entrar. Há uma mulher acocorada a acender a lareira. A mulher interrompe essa tarefa e sorri, rodando sobre os seus calcanhares, pés descalços sobre o soalho gasto da casa. A mulher levanta-se e sorri, sorri, sorri e beija-o. “Os teus lábios têm a textura das romãzeiras”, diz-lhe ele – e quanto a isto só poderemos ignorar o que as palavras possam querer significar; invocará ele a estrutura palmípede das folhas, o caule nodular da árvore ou a sexualidade ígnea do fruto? Beijar-lhe. Abraçar-lhe com sofreguidão. Sentir os seus mamilos pressionados contra o seu peito. Passar as mãos pelas suas costas. Beijam-se novamente, enleados numa coreografia há muito delineada. Naquela casa todo o tempo. E a mulher volta à tarefa com que a encontrámos inicialmente: ateia incêndios. A lenha verde e molhada enche a sala de fumo. Respira-se mal, tossica-se, pigarreia-se a bom pigarrear. O homem e a mulher riem-se. Respira-se fumo? Não, respira-se algo assimptoticamente perto da felicidade. Um deles diz ao outro que “respiro-te, pois estás entranhado nos meus alvéolos”. Não se sabe qual deles afirma isto porque a esta distância não os conseguiremos distinguir um do outro. A cem metros um novelo de lã é apenas um ponto. A felicidade é tão pouco, creio.
Corolário: É pelo menos assim que esta imagem coexiste na minha memória. Temo em recordar que sou esse homem e tu és essa mulher.
Socalcos
É irritante ter os livros estacionados em segunda fila como se estivessem à espera de serem manuseados pelo senhor deiscente da Biblioteca. Presta-se a alguma ansiedade, amor, estes olhos já estão demasiados cansados de estrelas e de linhas a fio crivadinhas com equações mal-comportadas cujas soluções não se vislumbram de forma fácil. Quando chego a casa cansado e reconforto a minha cabeça no teu peito não são os livros em segunda fila que os meus olhos procuram. Os títulos, sei-os de cor: "Dikter" (Harry Martinson), "Aparição" (Vergílio Ferreira), "Errata: revisões de uma vida" (George Steiner), "Géométrie et calcul différentiel sur les variétés" (Frédéric Pham) e um livro que ali teima em habitar e que, claro, não o saberias adivinhar.
"Cada palavra que cinzelo é como se o próprio cinzel arrancasse um pouco de mim.", não te confidenciei isto? As minhas histórias preferidas estão cheias de erros e equívocos. Quando eu dizia aos meus alunos das aulas de Relatividade Geral e Cosmologia que o importante era errar e sujar as mãos, estava a ser sincero e não a esquivar-me de reproduzir par coeur a demonstração da invariância por transporte paralelo. Mesmo uma teoria tão límpida e elegante como a Gravitação de Einstein presta-se a que nos sujemos. De pó-de-giz, de dias com sabor a romãs, de plantas em formas de filodendros, de restos de tabaco nos bolsos já um pouco carcomidos pelo tempo. Importa aqui esborratar os dedos nesta tinta, sentir a epiderme em poluta mancha de tinta e sentir sulcos escavados pelas lágrimas.
Apetece-me dizer que o que importa é viver na multiplicidade dos espelhos, todos os dias sermos uma nova persona, dizer-se muito alto que sim, porque sim e, por uma vez, escrever um poema de fio a pavio sem pudores nem temores, viver-se como se escreve, viver como te sonho, como nos sonhámos, como fomos em noites imensas de Setembro onde o Estio teimava em não sumir. Era um calor que tanto gostavas. Mas depois veio o frio. E o homem que era o homem, sentiu-se novamente difractado; oh Whitman, meu grande sacana, se achas mesmo que a tua obra é um conjunto de sugestões e de apontamentos, que dizer das minhas palavras e acções que julgava unas?
30 de outubro de 2009
3323 Turgenev (1979 SY9)
Legenda: Não, não posso ser Estragon ou Vladimir à espera de Godot, pese embora a negação da acção ser ela própria uma acção, mas não a acção que privilegio.
22 de setembro de 2009
Reencontro (definição): como Tarkovski a perder o guião de Andrei Rubliov num táxi e a recuperá-lo miraculosamente
Posto isto tudo, dizer-te: ou confessar como te quero assim de pernas abertas e o teu olhar perdido na mansidão da noite, os teus ruídos a confundirem-se com as vibrações que as moléculas enfim saberão fazer.









