10 de janeiro de 2012

Secreto Brilho

"Espero que as tangerinas brilhem antes de sangrarem os
últimos dias tatuados pelas rosas e crianças fulgurem
suspensas no ar nocturno das casas abandonadas"

 Cidália Fachada



10 de dezembro de 2011

Meu amor, amor meu, por fim renunciar à escrita com brevíssimas palavras





Aguardando que me perguntasses novamente como é adormecer nos meus braços, que me ciciasses ao ouvido que não há outro lugar onde preferisses estar. E eu, mesmo habitando os interstícios da luz, poder dizer-te apenas uma vez mais: "E a ti amei-te pela única razão certa que afinal também é a verdade redentora que procura o belo." Poder dizer-te uma vez mais que, para lá da definitiva derrota, sou o homem mais feliz do mundo sempre que evoco o azul-mais-que-azul. Mesmo sem direito ao pauzinho de canela  haveria sempre o cesto de piquenique na bagageira do carro aguardando por ti.



10 de agosto de 2011

Acorda. Dirige o teu olhar para o nascente. Um pouco mais à direita talvez. Orionte, o caçador, está a nascer. Há uma alba que se avizinha - todos os meus sentidos se despertam para esta. Parece que o cri-cri dos grilos se intensifica à medida que os meus olhos não se cansam de olhar para o céu. Ao longe o ruído tímido da cidade. Por vezes um carro a passar sem contudo interromper a detonação calma que me aperta. O som do comboio trazido pela brisa que me despenteia o cabelo. Uma sensação de espanto pelo firmamento há muito arredado de mim. Acorda. Partilho contigo esta beleza. Entreabro a boca de espanto e timidez pelo universo. Por tudo quanto existe. Por tudo quanto me une a ti, mesmo sem o saberes. Um meteoro dardeja o céu. É o tempo das perseides. Como me podia ter esquecido delas? Há tanto tempo que sinto que não observo o céu contigo. Acorda e lê Celan:

"Leg ihm dies Wort auf die Lider:
vielleicht
tritt in sein Aug, das noch blau ist,
eine zweite, fremdere Bläue,
und jener, der du zu ihm sagte,
 träumt mit ihm: Wir."

["Depõe-lhe esta palavra sobre as pálpebras:
talvez
surja nos seus olhos, ainda azuis,
um outro, mais estranho, tom de azul,
e aquele que o tratava por tu
sonhe com ele: Nós."]

Acorda que te beijo as pálpebras, Azul.

9 de junho de 2011

(ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)



Quando terminei de escrever fui assaltado por uma espécie de melancolia. Como se quisesse permanecer para sempre naquele texto, como se aquele homem de cabelos grisalhos pudesse ser eu e a mulher de tez sempre tisnada pelo Sol de vestidos rodopiantes e joelhos esfolados a lembrarem-me as crateras da Lua (e eu sei lá porquê, porque és o meu deus animista das coisas) fosses tu, a única interpretação do mundo, entre tantas possíveis: tu eras o colapso da minha função de onda, tenho este desvario em afirmá-lo, embora não o possas compreender. Como se me agradasse perder-me no meio das entrelinhas de palavras minuciosamente buriladas. Não queria ter de dar um ponto final à história, despedir-me para sempre do sábio e diletante gato que só gostava de Wittgenstein ou do cão que se chamava Óscar e que percebia muito pouco de Filosofia. Queria que aquelas palavras continuassem a habitar a superfície da minha pele como microorganismos simbióticos. Desejava que os ditirambos do Prof. Ricci se alvoraçassem um pouco mais na ponta dos meus dedos ou que o plano principal da obra tivesse sido um pouco mais esparso, mais milimétrico, mais arrumado, mais caligráfico, como que se animado pelo punho de um Walser em Waldau, como se a minha escrita fosse reduzida apenas a este pulsar descompassado do coração, registado numa escala quase imperceptível

         (ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)

Refiro-me, está claro, ao livro que escribulei (não, não percas o teu tempo a procurar essa palavrinha no dicionário, acabei de a resgatar da tessitura do céu ou do saibro da terra – tanto faz) e, embora a forma como me tenha livrado daquelas folhas como alguém se livra da culpa tenha sido tão operática quanto burlesca (canso-me de repetir a mim mesmo, num afã de apaziguamento, que Wagner no Caramulo pode não ser a mesma coisa que em Bayreuth, mas que por lá talvez habitem moiras encantadas que se enterneçam com as minhas palavras), a verdade é que de alguma forma sentia que as personagens que habitavam o meu livro não poderiam nunca ter termo distinto daquele. Diz-me, o que escreveria eu como dedicatória, sabendo que nunca o lerias: “À Joana S________”, “Ao azul mais que azul”, “À Joana de Sintra” (este aqui glosando um equívoco à Vila-Matas que dedica sempre as suas obras à sua mulher, Paula de Parma), “À minha geometria combinatória dos dias”, “Para a Joana, a mulher mais bonita do mundo”, “Para o sinal marca de estrela”, “Ao Azul Neblina”?

Há um mês atrás estava sentado numa das ghâts de Varanasi, observando o rápido declinar do Sol no céu e esse espalhamento da luz que teima em reflectir-se no rio, arvorando em todo um cambiante de matizes. Há miúdos a jogar cricket mesmo ao pé das ghâts onde ocorrem as cremações. Há um salmodiar confuso numa daquelas cerimónias. Um corpo arde e outro ainda. Fumo um cigarro, quase alheio ao tropel quotidiano da cidade. Uma poluição imensa, imensa (os níveis de poluição biológico passaram todos os limites legais e estão a queimar grandes quantidades de lixo orgânico na orla da cidade): o ar na minha garganta adensa-se da poeira que inalo e sei que nas minhas narinas há uma competição entre o fumo do cigarro e as dos cadáveres humanos colocados a arder nas piras crematórias. Os cães refastelam-se ao sol. Dizem que por vezes comem os restos dos cadáveres cuja combustão não foi bem realizada, mas tal nunca observei, talvez tenha apenas vislumbrado parte de corpos a boiar na água infecta. Por vezes vejo algum bovídeo a deambular por ali, indiferente a isto tudo. Indiferente, como eu. Indiferente aos rituais em que as pessoas rapam o cabelo e às imensas solicitações que sofro. A cidade de Shiva não é o sítio mais bonito no mundo, mesmo com um livro do Tagore a forrar o meu bolso. Mas não me sinto chocado com nada disto. Aprendi a aceitar Varanasi, como aceito a tua ausência: sem a compreender, mas sempre presente em mim. E assim celebro a beleza que esta cidade encerra, apesar desta constante encenação e farsa em relação à morte (como deves saber, Gandhi foi muito crítico em relação a este folclore hindi de Varanasi). Alheio-me a isto tudo e observo as abluções das pessoas no Ganges. Não me atrevo a chegar lá perto porque é um dos rios mais poluídos do mundo mas, de alguma forma, invejo aquelas crianças que se banham e se riem de uma forma tão despreocupada como eu quando conduzo e deixo que o vento amacie o meu cabelo. A felicidade também é isto: estar num sítio improvável do mundo e, embora não estejas ali comigo, és tu quem habitas o meu coração e que me faz estremecer. Naquela ghât em Varanasi não há peregrinos, não há cremações, não há a confusão de pessoas ou de mundos em ebulição. Há apenas um sobressalto no meu coração, algo de muito terno e um fragor que surge em qualquer sítio do mundo sempre que te invoco. A felicidade também é ir a Jantar Mantar (o observatório de Jai Singh) e recordar-me das palavras do Cortázar quando escreveu aquele punhado de folhas e, sob aquele sol abrasador do meio-dia solar, sem protector solar ou chapéu (tinha-o perdido naquela alegre confusão de Varanasi após uma diatribe com um condutor de riquexó), ciciar a um monólito que te amo.

De acordo com a minha crença numa versão local do Livre Arbítrio e na minha costumeira refutação na sua versão global (assim como quem preferisse a Geometria à Topologia, sorrio – é que não deixa de ser uma sublime ironia), quando regressei do subcontinente determinei que era altura de devolver o resto das palavras que te escrevi: é um conjunto de poemas e algumas mensagens de amor que te fui escrevendo nos últimos anos, sempre que terminava uma caixa de cigarrilhas ou de charutos. São 248 poemas no seu total. Há também um conjunto de cadernos com escritos e cartas nuns caderninhos pretos. Escrevi-as para ti. Ou por ti.

Não sei como terminar esta mensagem – não deixo de ser desusadamente palavroso, e agora desabituado a escrever há muito... Assim, deixo-te as palavras inicias de “La prosa del observatório”, do Cortázar. Quisera eu também ter escrito algo assim para ti. Por ti.


“Esa hora que puede llegar alguna vez fuera de toda hora, agujero en la red del tiempo, esa manera de estar entre, no por encima o detrás sino entre, esa hora orificio a la que se accede al socaire de las otras horas, de la incontable vida con sus horas de frente y de lado, su tiempo para cada cosa, sus cosas en el preciso tiempo, estar en una pieza de hotel o de un andén, estar mirando una vitrina, un perro, acaso teniéndote en los brazos, amor de siesta o duermevela, entreviendo en esa mancha clara la puerta que se abre a la terraza, en una ráfaga verde la blusa que te quitaste para darme la leve sal que tiembla en tus senos, y sin aviso, sin innecesarias advertencias de pasaje, en un café del barrio latino o en la última secuencia de una película de Pabst, un arrimo a lo que ya no se ordena como dios manda, acceso entre dos ocupaciones instaladas en el nicho de sus horas, en la colmena día, así o de otra manera (en la ducha, en plena calle, en una sonata, en un telegrama) tocar con algo que no se apoya en los sentidos esa brecha en la sucesión, y tan así, tan resbalando, las anguilas, por ejemplo, la región de los sargazos, las anguilas y también las máquinas de mármol, la noche de Jai Singh bebiendo un flujo de estrellas, los observatorios bajo la luna de Jaipur y de Delhi, la negra cinta de las migraciones, las anguilas en plena calle o en la platea de un teatro, dándose para el que las sigue desde las máquinas de mármol, ese que ya no mira el reloj en la noche de París; tan simplemente anillo de Moebius y de anguila y de máquinas de mármol, esto que fluye ya en una palabra desatinada, desarrimada, que busca por sí misma, que también se pone en marcha desde sargazos de tiempo y semánticas aleatorias, la migración de un verbo: discurso, decurso, las anguilas atlánticas y las palabras anguilas, los relámpagos de mármol de las máquinas de Jai Singh, el que mira los astros y las anguilas, el anillo de Moebius circulando en sí mismo, en el océano, en Jaipur, cumpliéndose otra vez sin otras veces, siendo como lo es el mármol, como lo es la anguila: comprenderás que nada de eso puede decirse desde aceras o sillas o tablados de la ciudad; comprenderás que sólo así, cediéndose anguila o mármol, dejándose anillo, entonces ya no se está entre los sargazos, ..hay decurso, eso pasa: intentarlo, como ellas en la noche atlántica, como el que busca las mensuras estelares, no para saber, no para nada; algo como un golpe de ala, un descorrerse, un quejido de amor y entonces ya, entonces tal vez, entonces por eso sí.
Desde luego inevitable metáfora, anguila o estrella, desde luego perchas de la imagen, desde luego ficción, ergo tranquilidad en bibliotecas y butacas; como quieras, no hay otra manera aquí de ser un sultán de Jaipur, un banco de anguilas, un hombre que levanta la cara hacia lo abierto en la noche pelirroja.”


[continua amanhã, distribuindo os caderninhos de molesquina e os poemas aos leitores interessados] 

Há uma casa em Orchha (ओरछा) com o teu nome




7 de junho de 2011

Gosto quase tanto do Solti como gosto de difeomorfismos



[Se eu fosse uma linha recta nunca mais poderia sonhar com cáusticas]

30 de maio de 2011

Quando foi a última vez que foste a pessoa mais feliz do mundo?


Varanasi: abluções matinais no Ganges enquanto passeava de barco para assistir às cremações na Manikarnika Ghat.

6 de abril de 2011

Uma (certa) ideia da Índia

Recordo-me de ter usado na minha tese de Licenciatura a citação que mais abaixo se apresenta. É justo confessar que, de alguma forma, a minha vida esteve sempre irremediavelmente ligada a determinada obras e esta pequena peça de literatura - apropriada para almas insones e viajantes improváveis -, não é excepção. O autor apresenta no seu livro a hipótese de que alguém talvez possa um dia reproduzir a sua viagem por uma Índia de gares, hospitais, quartos de hotel num ambiente que a minha memória faz aludir como soturno. 

Alexandre: A Índia como uma sala de espera ou uma ante-câmara para uma outra vida. 

A verdade é que não releio este livro há uma boa década e não posso negar a verdadeira possibilidade de surpresa que possa aflorir aos meus olhos quando reencontrar na lisura das suas linhas uma Índia um pouco mais solar que a desta viagem de Mumbai a Goa. Reduzir um livro a uma viagem não é o meu intento; há algo delicadamente missionário nesta demanda por Xavier, como quem decerto procura uma (certa) ideia de redenção. 

‘Estendi-me no fundo do barco e pus-me a olhar para o céu. A noite estava verdadeiramente magnífica. Segui as constelações e pensei nas estrelas e no tempo em que as estudava e nas tardes passadas no planetário. De repente lembrei-me delas como as tinha aprendido, segundo a classificação da intensidade luminosa: Sírio, Canopo, Centauro, Vega, Capela, Artur, Oríon… E depois pensei nas estrelas variáveis e na voz de uma pessoa querida. E depois nas estrelas extintas, cuja luz ainda continua a chegar até nós, e nas estrelas de neutrões, na fase final da evolução, e no débil raio que emitem. Disse em voz baixa: pulsar. E quase como se tivesse sido acordada pelo meu sussurro, como se tivesse accionado um gravador, chegou até mim a voz nasal e fleumática do professor Stini que dizia: quando a massa de uma estrela agonizante é superior ao dobro da massa solar, já não existe estado da matéria capaz de deter a concentração, e esta procede até ao infinito; já não sai mais nenhuma radiação dessa estrela, que se transforma assim num buraco negro.’


“Nocturno Indiano”, Antonio Tabucchi


15 de outubro de 2010

Falar-lhe da sua ausência

Ou dizer-lhe como gosto que sejas a minha madrugada, o meu alvor, o meu ante-meridiano, a minha tarde espessa de calor, o meu crepúsculo ácido com um copo entre os dentes, a noite funda com o teu sexo na minha boca.

12 de julho de 2010

Somos todos uns crédulos II

Somos todos uns crédulos I

Se isto...

Se isto fosse um blogue pedante e sério como um livro do Lobo Antunes que vai à guerra apenas para beber Martinis, escreveria assim:

"Hoje acordei como que acossado por imagens do gás de Rubídio num condensado de Bose-Einstein e a sonhar com pipas de carvalho com vintage Porto apenas para justificar as diferenças entre os cinco (número em discussão) estados da matéria e com dois livros do Cormac McCarthy (agora que já não é moda) comprados num impulso a lembrar as primícias da adolescência.

Em suma: não sei o que dizer destes novos cânones literários de tantos ignotos. O meu reino por uma cópia dos Principia Mathematica.

Post sriptum: E para o estado da matéria mais abundante no universo, que exemplo ilustrativo escolhi eu? O fogo de Santo Elmo, claro está.

1 de junho de 2010

Sentes?

Já um dia disseste "fui a pessoa mais feliz do mundo"?

...

Di-lo.

Agora.


A Hipótese do Contínuo. Também em BD...



Hoje a minha atenção dedicou-se de forma íntegra a uma oferta que me chegou pelo correio. Trata-se do livro "Logicomix, an Epic Search for Truth", cujos autores são Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, e do qual, aliás, já tive oportunidade de reproduzir descaradamente umas quantas vinhetas. Por coincidência, chegou-me à caixa de correio electrónico uma sinopse daquele livro de capas azuis onde se reúne um conjunto de ensaios na área da Lógica dedicados a Gödel. E acabo mesmo agora de descobrir que  hoje irá decorrer um evento em Lisboa (clicar no cartaz para ampliá-lo) ao qual gostaria de ter estado presente, não me encontrasse tão distante. Por vezes, a pandilha de Whitehead, Russell e Gödel provoca-me saudades, arrisco.


Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões...





[Imagens de "Logicomix, an Epic Search for Truth", brilhante livro de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou]

Se eu tivesse um blogue respeitável...


... intitularia esta publicação da seguinte forma: "Hoje acordei assim, como que Wittgenstein a bradar contra a existência de uma realidade matemática independente e a agitar um atiçador de  forma particularmente iracunda".



Como o meu blog é tudo menos respeitável (e até tem o desplante de optar pela grafia internacional, menos domesticada) intitularia assim: "Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões, percorreu a minha pele plasmando-se em simétricos exercícios de incisão". 


Ainda a propósito de Gödel



[Com o risco assumido de que apenas uma pequena fracção  dos leitores o compreenda;

como de habitual desviado daqui]


Já sei o que pretendo para o meu aniversário...



(... e, já agora,  um chapéu novo porque o outro ateimou em rodopiar em graves voltejos enquanto o avistava pelo retrovisor afastando-se. Um chapéu à Gödel, não à Hilbert, bem entendido...)


26 de maio de 2010

VII Encontro Internacional de Poetas

Mais informações aqui.


Respondo que Wagner nunca me incomoda III


[Uma nota do Biafra perdida por entre "Gente de Dublin" do Joyce; tenho por aí a versão original em inglês ("Dubliners") mas, tal como o "Opus Pistorum" do Henry Miller, não há forma de o reencontrar]

Respondo que Wagner nunca me incomoda II


[Este resgatei-o de um contentor para reciclagem; não é o meu livro favorito de Cálculo Tensorial, mas já privei de alguns bons momentos na sua companhia]

25 de maio de 2010

Respondo que Wagner nunca me incomoda I

Após alguns dias absorto por uma nova demonstração de fecunda beleza  (em bom rigor: uma velha demonstração que se me assemelha a algo de muito arejado e moderno) que me deixou notavelmente bem disposto e de uma pequena brincadeira com os quaterniões, esses Irmãos Metralha da Matemática, vislumbro um regresso à realidade e à árdua tarefa de trasladar os meus livros na demanda de uma nova ordenação, mais justa e salutarmente mais emotiva. É neste processo combinatório, muitas vezes pouco científico, que acabo por desviar a atenção do propósito inicial e passo a folhear a maior parte dos livros à procura de marginalia, pequenos papéis e notículas escondidas ou de uma passagem quase esquecida no nemoroso da minha memória. Releio uma página aqui e ali, dou uma sacudidela valente a um ou outro exemplar com a esperança incontida que dele brote um papelinho qualquer e quase que não presto atenção à vontade indómita dos meus dedos em percorrer longitudinalmente as lombadas, como os seus nodos tinham por hábito fazê-lo ao longo da tua espinha. Longitudinal e transversalmente, quero eu dizer. Alguns livros despertam-me o desejo de os tactear mais demoradamente. Outros convidam-me a que os cheire. A outros ainda emociona-me o amarelecimento das suas páginas; constato que envelheceram bem e permito que um breve sorriso aflore aos meus lábios.

Esqueço-me do mundo lá fora, aborrecido, grisalho. Comezinho, como costumavas dizer. Esqueço-me de todas as solicitações recebidas nos últimos dias e da correspondência atafulhada para dentro das entranhas luciferinas de uma gaveta. Por ora deixo que a luz filtrada pelas nuvens e pela vidraça me lisonjeie o rosto e sento-me no chão, ao lado de uma pilha de livros em vias de desmoronar e causar uma perturbação geofísica que faria corar de vergonha a causada por aquele vulcão islandês de nome gutural de que é moda actualmente falar.

(procuro no recôncavo interior dos livros um jardim vicejante de palavras rútilas)

De repente dou-me conta que durante este ano apenas li um punhado de livros dignos de registo. E é justamente sobre isto que pretendo falar. Daqui a umas horas.

16 de maio de 2010

"Parabéns, laser!" ou "Nem a Pussy Galore te safa desta"



Cinquenta anos a inspirar a perfídia e maus filmes de ficção-científica.


[Imagem: fotograma de Goldfinger (1964) com a equação geral do ganho para a amplificação óptica]


13 de maio de 2010

Para quem ainda queira ir...

"Fronteiras na Física de Partículas, Astrofísica e Cosmologia ‐ Sessão Pública

No próximo dia 13 de Maio vai realizar‐se no Centro de Congressos do IST, das 14h30 às 18h00, uma sessão pública que pretende divulgar e discutir o estado actual do conhecimento que temos sobre a física que rege o Universo em que vivemos (do infinitamente pequeno ao infinitamente grande).

Esta sessão é a primeira actividade pública da recente constituída rede internacional de doutoramento IDPASC (International Doctorate Network in Particle Physics, Astrophysics and Cosmology) que reúne várias Universidades Portuguesas, Espanholas, Italianas e Francesas e o CERN.

O programa da sessão é o seguinte:


"Frontiers in Particle Physics, Astrophysics and Cosmology"


14h30 ‐ Welcome 14h45 ‐"Past, Present and Future of the Universe" ‐ Prof. Joseph Silk, Savilian Professor of Astronomy, University of Oxford

15h30‐ coffee break 16h‐“Searching for Accelerators in the Cosmos” ‐ Prof. Alan Watson, spokesman Emeritus of Pierre Auger Observatory

16h45‐"The LHC and the early Universe"‐ Prof. Rolf‐Dieter Heuer, Director General of CERN

17h30 ‐ discussion 

18h00 ‐ End of session

Esclarecimentos adicionais Prof. Mário Pimenta (pimenta@lip.pt)"

11 de maio de 2010

Como em Vila-Matas


Erro porque antes de mim outros também o fizeram.


(«Escrevo porque antes de mim outros também o fizeram.» Enrique Vila-Matas)





21 de abril de 2010

"Girl, I'm back in Spanish Town / Ain't no trouble coming around"


Havia arandos, creio. Café ensimesmado com um pauzinho de canela (e assim eu sonho com histórias de piratas e filibusteiros nos mares do Pacífico). O meu cesto de piquenique com um aranhiço em proezas.



18 de janeiro de 2010

Rohmer (1920-2010)



Parece-me que não devias ter morrido agora, tão cedo. Parece-me que faltava sempre mais um filme para realizares, talvez um filme em que eu próprio pudesse encarnar uma das tuas personagens e ensaiar uma felicidade mínima.


12 de novembro de 2009

Antes de Adormecer é preciso tropeçar (XI)


Antes de adormecer, vem-me à memória ancilar palavras ouvidas da boca de Ana Luísa Amaral: "A única coisa que pode tornar o amor menos mortal e menos transitório é a palavra.”



Apago a luz desarmada do candeeiro de pé alto. Inquieto-me na cadeira. São horas de dormir e de sonhar com palavras desastrosas. Palavras a tropeçar.

Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar.


1 de novembro de 2009

6:00


"E saio às seis da manhã e começo à procura de ti. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti." (Sarah Kane)



Enquanto dormimos as estrelas rearranjam as suas posições



Os excertos anteriores (capítulos 7 e 12, os únicos que foram dados a ler a outras pessoas) fazem parte de um romance não publicado. Não é meu intento publicá-lo. Escreve-se como quem escreve para que haja uma parte de nós que não morra, que refute o efémero e a transiência das coisas. Escreve-se para comunicar com o mundo (quantas vezes terei repetido isto para os botões do meu casaco sovado?), mas também para demonstrar algo. Algo que não devia ser passível de demonstração. As demonstrações mais bonitas encontram-se no reino da Matemática, claro está, e a este propósito merecia aqui evocar Hardy e Erdös e esse livro que Deus (aqui ele merece letrinha maiúscula) terá compilado com as provas matemáticas mais belas. Embora nesse livro não deva constar a derivação das equações de campo de Einstein a partir da acção de Einstein-Hilbert, não posso deixar de confidenciar que foi algo que sempre me deu algum prazer exercitar. Como se cumprisse um ritual. Torno-me assim numa espécie de Erland Josephson a dirimir argumentos sobre a importância dos actos (aparentemente) inúteis num filme do Tarkovski ("Offret"). Habituei-me a encarar os 107 capítulos daquele livro como uma oferenda que, diariamente, erigia. Como se as palavras ao ganhar uma consistência na folha de papel fossem elas próprias um conjunto auto-consistente de algo extremamente vital, algo de importante porque aquele arranjo e rearranjo era meu. Único. Resistente ao Lema de Borel-Cantelli e à horda infinita de macacos (explicação aqui) que assolava os meus sonhos de autor. 


[continua amanhã]

Eu sou uma caducifólia

Um dia também gostaria de o poder finalmente dizer:

"sou um eucalipto"


Todo o mundo


No café sentava-me a ler Enrique Vila-Matas e enquanto me afagavas e puxavas com força o cabelo curtinho para ti, todos os sorrisos do mundo ascendiam à boca como ondas de convecção. Deixa-me ensinar-te os nomes das estrelas, mesmo aquelas cujo nome se elide na minha língua, revoluteando-se e enleando-se no meu palato. Sabes-me a mim, sabes-me a grânulos de felicidade e chispas de paixão. Quis consumir-te numa só noite, num fim-de-semana a contar estrelas numa fúria de taxonomista (repito-me, sim, sim, sim) e a reconciliar-me com o céu nocturno. Havia uma casa em ruínas donde se avistava a curva do rio. Eu olhava para aquele comboio manso, agraciado, exaltado por essa presença perene e esse amor que era amor e que era  tanto e tudo o que ficou por dizer. Teria sido feliz contigo, a cuspir grainhas de uva por entre os vinhedos e a falar sobre taninos e a beber vinho fino o dia inteiro, imaginando que um dia reconstruiria uma casa como essa e, longe do bulício dos dias e do estafado quotidiano, iria dedilhar palavras para ti, sorrisos em conluio com geometrias e topologias diversas e - porque não? - coroar alguns disparates pelo meio, pois então, porque tenho esta tendência ominosa de ser pouco clarividente na minha expressão verbal. Mas eu era feliz, porque havia dias inteiros nas árvores, dias a sonhar com amêndoas e a cingir-te muito apertada à minha cintura. Havia um carinho desmedido e essa ternura violenta com que te amava. Eras a minha rapariga trinca-espinhas e eu era um homem abençoado pela felicidade que teimava em invadir os meus poros e arremeter-me de frases feitas, frases toscas e simples, pouco buriladas, mas sentidas. Quando invocavas o meu nome eu era todos os homens do mundo. E todas as mulheres do mundo, também. Estavas ali. E eras tu. Tu? Sim, tu. E perguntavas-me quem eu era e eu afiançava-te ser o homem mais feliz do mundo. O homem que desaprende a felicidade e a quem lhe dão o sorriso mais bonito de sempre. Um sorriso teleológico, que vem do início do tempo e que se prolonga sem mácula e é perene. Em ti, o sentido da eternidade. 

Agora,  regresso a casa de madrugada; e cansados os meus olhos não encontram os teus gestos franzinos mas solícitos,  apenas essa ausência que se inscreve como uma doença maligna. Dói.

                     "E o que é a dor, Alexandre?"

"A dor é isto, é ter de escrever assim, frases curtinhas para não me cansar muito, para tentar compreender como as palavras se acomodam tão mal, que dizem tão pouco, zangado com elas, porque há um homem que não é só palavras e que estas perderam o seu sentido primacial". Abro um livro ao acaso. Que digo? Não, não é ao acaso.  O acaso existe, mas hoje escondeu-se de mim, apenas para me torturar de impaciência e saudades. São "Os vinte e cinco poemas à hora do almoço" do Frank O'Hara. Li-te apenas um, a minha voz arriscando uma clareza inaudita, fugindo a grumos e a esse entaramelamento que por vezes me assiste. Temeste a minha mudez ronceira e, agora, aguardo que entres por aquela porta, descalça, e um pouco titubeante, quem sabe?, arrancas-me  da soleira da porta pelo braço, onde sem querer conhecer o sentido da palavra resignação aguardo que uma brisa tépida me beije os lábios, e me peças para ler os restantes vinte e quatro. Um para cada hora do dia. Todos os dias.

Pigarreio um pouco e 


St. Paul and All That
Frank O’Hara


Totally abashed and smiling

I walk in
sit down and
face the frigidaire
it’s April
no May
it’s May

such little things have to be established in the morning
after the big things of night
do you want me to come? when
I think of all the things I’ve been thinking of
I feel insane
simply “life in Birmingham is hell”
simply “you will miss me
but that’s good”
when the tears of a whole generation are assembled
they will only fill a coffee cup
just because they evaporate
doesn’t mean life has heat
“this various dream of living”
I am alive with you
full of anxious pleasures and pleasurable anxiety
hardness and softness
listening while you talk and talking while you read
I read what you read
you do not read what I read
which is right, I am the one with the curiosity
you read for some mysterious reason
I read simply because I am a writer
the sun doesn’t necessarily set, sometimes is just
disappears
when you’re not here someone walks in
and says “hey,
there’s no dancer in that bed”
O the Polish summers! those drafts!
those black and white teeth!
you never come when you say you’ll come but on the
other hand you do come


[copyright Frank O’Hara, 1961]


Todos os dias do mundo, amor.

 


31 de outubro de 2009

Excerto II (capítulo 7)

A grafite e o silício sonham talvez com outra existência. Os números também sonharão. As linhas rectas e os infinitos que não existem na natureza sonho-os eu. Sonho-me a mim. Sonho o cálcio que me sustenta. Digo a palavra “cartilagem” e abano o nariz como se nele tivesse respingado um floco de neve disparatadamente simétrico. A minha língua por vezes sonha ser triturada por cacos de vidros. A apalage da dor e esta língua carda perfurada a pionaises de cabeças multicoloridas. Berlindes. Em criança guardava tampas de garrafas. Tinha uma saca cheia delas. Sacolejava-a frequentemente para ouvir o chocalho da lata, os níqueis estridentes e ruidosos, como se eu pudesse dar viva voz às partículas de gás em violenta colisão umas com as outras, nesse vidrinho de alquimista que eu imaginava possuir. Mais tarde expliquei ao meu filho o que é o som. Ele teria uns sete ou oito anos e julgo que não terá percebido. Todavia declara na ocasião que gostaria de ver as palavras desenhadas no ar (eu, que apenas sabia desenhar caligramas no corpo da minha mulher, não tentei o ar). E a criança fala da existência física. Pela primeira vez a criança fala como se o seu pai tivesse proferido aquelas palavras. Da boca do seu pai. E o pai é imortal porque é a voz noutra estrutura de átomos. Em muito mais que uma estrutura de átomos... Átomos como berlindes a beijarem a complexidade. Teria gostado de lhe ter deixado os meus berlindes e as minhas tampas de garrafas. Como resumir isto? Dizer que sempre estive mais perto da matéria com que a natureza se fabricou do que com Deus. Dizer que as palavras ainda estiveram mais perto de mim pois elas são a protogeometria de todas as coisas.

Excerto I (capítulo 12)

O Teorema começa assim.


Andar. Sentir a calçada fugir debaixo das solas dos sapatos. Sentir a derme destes a ranger, imaginar que são os ossos que chiam sofrendo a humidade de um dia de Outono. Chegar a casa. Chave apropriada em ranhura apropriada. Girá-la. Parar apenas um instante à ombreira da porta. Preparar para entrar. Entrar. Há uma mulher acocorada a acender a lareira. A mulher interrompe essa tarefa e sorri, rodando sobre os seus calcanhares, pés descalços sobre o soalho gasto da casa. A mulher levanta-se e sorri, sorri, sorri e beija-o. “Os teus lábios têm a textura das romãzeiras”, diz-lhe ele – e quanto a isto só poderemos ignorar o que as palavras possam querer significar; invocará ele a estrutura palmípede das folhas, o caule nodular da árvore ou a sexualidade ígnea do fruto? Beijar-lhe. Abraçar-lhe com sofreguidão. Sentir os seus mamilos pressionados contra o seu peito. Passar as mãos pelas suas costas. Beijam-se novamente, enleados numa coreografia há muito delineada. Naquela casa todo o tempo. E a mulher volta à tarefa com que a encontrámos inicialmente: ateia incêndios. A lenha verde e molhada enche a sala de fumo. Respira-se mal, tossica-se, pigarreia-se a bom pigarrear. O homem e a mulher riem-se. Respira-se fumo? Não, respira-se algo assimptoticamente perto da felicidade. Um deles diz ao outro que “respiro-te, pois estás entranhado nos meus alvéolos”. Não se sabe qual deles afirma isto porque a esta distância não os conseguiremos distinguir um do outro. A cem metros um novelo de lã é apenas um ponto. A felicidade é tão pouco, creio.

Corolário: É pelo menos assim que esta imagem coexiste na minha memória. Temo em recordar que sou esse homem e tu és essa mulher.

Socalcos

Hoje recordo-me bem de que a Relatividade Geral é uma teoria difeomorficamente invariante.

É irritante ter os livros estacionados em segunda fila como se estivessem à espera de serem manuseados pelo senhor deiscente da Biblioteca. Presta-se a alguma ansiedade, amor, estes olhos já estão demasiados cansados de estrelas e de linhas a fio crivadinhas com equações mal-comportadas cujas soluções não se vislumbram de forma fácil. Quando chego a casa cansado e reconforto a minha cabeça no teu peito não são os livros em segunda fila que os meus olhos procuram. Os títulos, sei-os de cor: "Dikter" (Harry Martinson), "Aparição" (Vergílio Ferreira), "Errata: revisões de uma vida" (George Steiner), "Géométrie et calcul différentiel sur les variétés" (Frédéric Pham) e um livro que ali teima em habitar e que, claro, não o saberias adivinhar.
[ não me soubeste adivinhar ]

"Cada palavra que cinzelo é como se o próprio cinzel arrancasse um pouco de mim.", não te confidenciei isto? As minhas histórias preferidas estão cheias de erros e equívocos. Quando eu dizia aos meus alunos das aulas de Relatividade Geral e Cosmologia que o importante era errar e sujar as mãos, estava a ser sincero e não a esquivar-me de reproduzir par coeur a demonstração da invariância por transporte paralelo. Mesmo uma teoria tão límpida e elegante como a Gravitação de Einstein presta-se a que nos sujemos. De pó-de-giz, de dias com sabor a romãs, de plantas em formas de filodendros, de restos de tabaco nos bolsos já um pouco carcomidos pelo tempo. Importa aqui esborratar os dedos nesta tinta, sentir a epiderme em poluta mancha de tinta e sentir sulcos escavados pelas lágrimas. 

Apetece-me dizer que o que importa é viver na multiplicidade dos espelhos, todos os dias sermos uma nova persona, dizer-se muito alto que sim, porque sim e, por uma vez, escrever um poema de fio a pavio sem pudores nem temores, viver-se como se escreve, viver como te sonho, como nos sonhámos, como fomos em noites imensas de Setembro onde o Estio teimava em não sumir. Era um calor que tanto gostavas. Mas depois veio o frio. E o homem que era o homem, sentiu-se novamente difractado; oh Whitman, meu grande sacana, se achas mesmo que a tua obra é um conjunto de sugestões e de apontamentos, que dizer das minhas palavras e acções que julgava unas?

30 de outubro de 2009

3323 Turgenev (1979 SY9)



Legenda: Não, não posso ser Estragon ou Vladimir à espera de Godot, pese embora a negação da acção ser ela própria uma acção, mas não a acção que privilegio.


22 de setembro de 2009

Reencontro (definição): como Tarkovski a perder o guião de Andrei Rubliov num táxi e a recuperá-lo miraculosamente

Posto isto tudo, dizer-te: ou confessar como te quero assim de pernas abertas e o teu olhar perdido na mansidão da noite, os teus ruídos a confundirem-se com as vibrações que as moléculas enfim saberão fazer.


26 de agosto de 2008

Contra a corrente

A não perder: um excelente artigo de revisão do Carlo Rovelli sobre Gravitação Quântica em Laços na Living Reviews in Relativity. Clicar aqui.

25 de agosto de 2008

Atómstöðin III

Por vezes confronto-me nessa vastidão álgida com o limiar da minha dor, como se esta ganhasse uma existência tangível e eu próprio sentisse que a luz se difractasse na presença de algo desconhecido, interessada apenas pelo espaço intersticial que a mágoa completa e não pela matéria de que sou feito. Sou assim um ser invisível para o qual a luz atravessa imperturbável, zombeteira e, apenas empenhada com uma rede de ausências tecidas numa topologia intrincada, ainda lhe consigo escutar um riso escarninho enquanto se difracta exibindo apenas uma débil sombra de um homem que finalmente se apressa a colocar uma pedra sobre a língua.

Atómstöðin II

(Há na literatura islandesa a mesma dimensão telúrica que a sua geografia encerra. Agora as pontas dos dedos encontram os seus quadris, passeiam por lá, “não sou um dos teus caderninhos que nunca usas”, retorque-lhe ela, impaciente, controladora. Não a sei definir. Ele tão pouco. Quando quero pensar em Anita vou à biblioteca e folheio atlas e livros de viagens sobre a Islândia e a Patagónia. Geiseres, paisagens lunares e erodidas (esteve ali presente a mão de um demónio muito bem humorado), cores que não consigo adjectivar, uma alvura impossível de aprender. E depois aquela literatura da resistência contra os elementos, o Bjarn de Casas de Verão do romance de Haldór Laxness. Tenho ali o livro do Chatwin a pedir-me que o releia; é certo que a reencontrarei novamente nas páginas do mesmo).

Atómstöðin I

“I want to know light”, Roswell was confessing, “I want to reach inside light and find its heart, touch its soul, take some in my hands whatever it turns out to be, and bring it back, like the Gold Rush only more at stake, maybe, ‘cause it’s easier to go crazy from, there’s danger in every direction, deadlier than snakes or fever or claim jumpers –“

Thomas Pynchon, Against the Day

77° 47′ 0″ N, 70° 46′ 0″ W



Há um provérbio iídiche que afirma que tempos houve em que os anjos andavam pela Terra. Agora nem os poderemos encontrar no Céu. Cito-o de memória, mas creio que não deturpei o seu sentido. Sabes, amor, há uma nudez irreal debaixo de um glaciar. A vista a partir de Siorapaluk continua a ser tão bonita.


8 de agosto de 2008

23 de julho de 2008

Atomic Cafe I





"Os que vivem intensamente não têm medo de morrer" (Anaïs Nin)

15 de julho de 2008

Drommar Ibland

Hei-de morrer sem chegar a dizer-te. Dizer-te luz, saibro, estrela, cascalho, citocromo-c. E a razão pela qual todas estas palavras são revestidas de Azul. Talvez um dia acordes noutro universo, os olhos pasmados de ternura, voltares a dizer "eu mais, eu melhor" e a sorrires com os meus "maisjómenos". Será sempre o teu sinal marca de estrela tatuado no meu espírito. A minha casa: apenas um persistente pixel Azul Neblina alicerçando a estrutura hemoglobínica das palavras.


[este blogue talvez regresse um dia destes]



[Voyager 1, 14/2/1990, 4 milhões de milhas]


[A imagem anterior, desta feita ampliada; o ponto esmaecido que se encontra na faixa castanha da direita é o planeta Terra - deverás clicar para ampliá-lo, Azul]


[A minha casa, vista da Cassini orbitando as orelhas moucas de Galileu, 15/9/2006]


Nem chega a um pixel

14 de julho de 2008

Hey, that's no way to say goodbye.



I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.


Sábado, 19 de Julho, no Passeio Marítimo de Algés.

In memoriam Solstício

A única casa que valia a pena habitar.