1 de junho de 2010

Sentes?

Já um dia disseste "fui a pessoa mais feliz do mundo"?

...

Di-lo.

Agora.


A Hipótese do Contínuo. Também em BD...



Hoje a minha atenção dedicou-se de forma íntegra a uma oferta que me chegou pelo correio. Trata-se do livro "Logicomix, an Epic Search for Truth", cujos autores são Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, e do qual, aliás, já tive oportunidade de reproduzir descaradamente umas quantas vinhetas. Por coincidência, chegou-me à caixa de correio electrónico uma sinopse daquele livro de capas azuis onde se reúne um conjunto de ensaios na área da Lógica dedicados a Gödel. E acabo mesmo agora de descobrir que  hoje irá decorrer um evento em Lisboa (clicar no cartaz para ampliá-lo) ao qual gostaria de ter estado presente, não me encontrasse tão distante. Por vezes, a pandilha de Whitehead, Russell e Gödel provoca-me saudades, arrisco.


Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões...





[Imagens de "Logicomix, an Epic Search for Truth", brilhante livro de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou]

Se eu tivesse um blogue respeitável...


... intitularia esta publicação da seguinte forma: "Hoje acordei assim, como que Wittgenstein a bradar contra a existência de uma realidade matemática independente e a agitar um atiçador de  forma particularmente iracunda".



Como o meu blog é tudo menos respeitável (e até tem o desplante de optar pela grafia internacional, menos domesticada) intitularia assim: "Hoje acordei com uma placidez e um sorriso beatífico quando uma palavra solar resvalou dos meus lábios e, aos trambolhões, percorreu a minha pele plasmando-se em simétricos exercícios de incisão". 


Ainda a propósito de Gödel



[Com o risco assumido de que apenas uma pequena fracção  dos leitores o compreenda;

como de habitual desviado daqui]


Já sei o que pretendo para o meu aniversário...



(... e, já agora,  um chapéu novo porque o outro ateimou em rodopiar em graves voltejos enquanto o avistava pelo retrovisor afastando-se. Um chapéu à Gödel, não à Hilbert, bem entendido...)


26 de maio de 2010

VII Encontro Internacional de Poetas

Mais informações aqui.


Respondo que Wagner nunca me incomoda III


[Uma nota do Biafra perdida por entre "Gente de Dublin" do Joyce; tenho por aí a versão original em inglês ("Dubliners") mas, tal como o "Opus Pistorum" do Henry Miller, não há forma de o reencontrar]

Respondo que Wagner nunca me incomoda II


[Este resgatei-o de um contentor para reciclagem; não é o meu livro favorito de Cálculo Tensorial, mas já privei de alguns bons momentos na sua companhia]

25 de maio de 2010

Respondo que Wagner nunca me incomoda I

Após alguns dias absorto por uma nova demonstração de fecunda beleza  (em bom rigor: uma velha demonstração que se me assemelha a algo de muito arejado e moderno) que me deixou notavelmente bem disposto e de uma pequena brincadeira com os quaterniões, esses Irmãos Metralha da Matemática, vislumbro um regresso à realidade e à árdua tarefa de trasladar os meus livros na demanda de uma nova ordenação, mais justa e salutarmente mais emotiva. É neste processo combinatório, muitas vezes pouco científico, que acabo por desviar a atenção do propósito inicial e passo a folhear a maior parte dos livros à procura de marginalia, pequenos papéis e notículas escondidas ou de uma passagem quase esquecida no nemoroso da minha memória. Releio uma página aqui e ali, dou uma sacudidela valente a um ou outro exemplar com a esperança incontida que dele brote um papelinho qualquer e quase que não presto atenção à vontade indómita dos meus dedos em percorrer longitudinalmente as lombadas, como os seus nodos tinham por hábito fazê-lo ao longo da tua espinha. Longitudinal e transversalmente, quero eu dizer. Alguns livros despertam-me o desejo de os tactear mais demoradamente. Outros convidam-me a que os cheire. A outros ainda emociona-me o amarelecimento das suas páginas; constato que envelheceram bem e permito que um breve sorriso aflore aos meus lábios.

Esqueço-me do mundo lá fora, aborrecido, grisalho. Comezinho, como costumavas dizer. Esqueço-me de todas as solicitações recebidas nos últimos dias e da correspondência atafulhada para dentro das entranhas luciferinas de uma gaveta. Por ora deixo que a luz filtrada pelas nuvens e pela vidraça me lisonjeie o rosto e sento-me no chão, ao lado de uma pilha de livros em vias de desmoronar e causar uma perturbação geofísica que faria corar de vergonha a causada por aquele vulcão islandês de nome gutural de que é moda actualmente falar.

(procuro no recôncavo interior dos livros um jardim vicejante de palavras rútilas)

De repente dou-me conta que durante este ano apenas li um punhado de livros dignos de registo. E é justamente sobre isto que pretendo falar. Daqui a umas horas.

16 de maio de 2010

"Parabéns, laser!" ou "Nem a Pussy Galore te safa desta"



Cinquenta anos a inspirar a perfídia e maus filmes de ficção-científica.


[Imagem: fotograma de Goldfinger (1964) com a equação geral do ganho para a amplificação óptica]


13 de maio de 2010

Para quem ainda queira ir...

"Fronteiras na Física de Partículas, Astrofísica e Cosmologia ‐ Sessão Pública

No próximo dia 13 de Maio vai realizar‐se no Centro de Congressos do IST, das 14h30 às 18h00, uma sessão pública que pretende divulgar e discutir o estado actual do conhecimento que temos sobre a física que rege o Universo em que vivemos (do infinitamente pequeno ao infinitamente grande).

Esta sessão é a primeira actividade pública da recente constituída rede internacional de doutoramento IDPASC (International Doctorate Network in Particle Physics, Astrophysics and Cosmology) que reúne várias Universidades Portuguesas, Espanholas, Italianas e Francesas e o CERN.

O programa da sessão é o seguinte:


"Frontiers in Particle Physics, Astrophysics and Cosmology"


14h30 ‐ Welcome 14h45 ‐"Past, Present and Future of the Universe" ‐ Prof. Joseph Silk, Savilian Professor of Astronomy, University of Oxford

15h30‐ coffee break 16h‐“Searching for Accelerators in the Cosmos” ‐ Prof. Alan Watson, spokesman Emeritus of Pierre Auger Observatory

16h45‐"The LHC and the early Universe"‐ Prof. Rolf‐Dieter Heuer, Director General of CERN

17h30 ‐ discussion 

18h00 ‐ End of session

Esclarecimentos adicionais Prof. Mário Pimenta (pimenta@lip.pt)"

11 de maio de 2010

Como em Vila-Matas


Erro porque antes de mim outros também o fizeram.


(«Escrevo porque antes de mim outros também o fizeram.» Enrique Vila-Matas)





21 de abril de 2010

"Girl, I'm back in Spanish Town / Ain't no trouble coming around"


Havia arandos, creio. Café ensimesmado com um pauzinho de canela (e assim eu sonho com histórias de piratas e filibusteiros nos mares do Pacífico). O meu cesto de piquenique com um aranhiço em proezas.



18 de janeiro de 2010

Rohmer (1920-2010)



Parece-me que não devias ter morrido agora, tão cedo. Parece-me que faltava sempre mais um filme para realizares, talvez um filme em que eu próprio pudesse encarnar uma das tuas personagens e ensaiar uma felicidade mínima.


12 de novembro de 2009

Antes de Adormecer é preciso tropeçar (XI)


Antes de adormecer, vem-me à memória ancilar palavras ouvidas da boca de Ana Luísa Amaral: "A única coisa que pode tornar o amor menos mortal e menos transitório é a palavra.”



Apago a luz desarmada do candeeiro de pé alto. Inquieto-me na cadeira. São horas de dormir e de sonhar com palavras desastrosas. Palavras a tropeçar.

Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar.


1 de novembro de 2009

6:00


"E saio às seis da manhã e começo à procura de ti. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti." (Sarah Kane)



Enquanto dormimos as estrelas rearranjam as suas posições



Os excertos anteriores (capítulos 7 e 12, os únicos que foram dados a ler a outras pessoas) fazem parte de um romance não publicado. Não é meu intento publicá-lo. Escreve-se como quem escreve para que haja uma parte de nós que não morra, que refute o efémero e a transiência das coisas. Escreve-se para comunicar com o mundo (quantas vezes terei repetido isto para os botões do meu casaco sovado?), mas também para demonstrar algo. Algo que não devia ser passível de demonstração. As demonstrações mais bonitas encontram-se no reino da Matemática, claro está, e a este propósito merecia aqui evocar Hardy e Erdös e esse livro que Deus (aqui ele merece letrinha maiúscula) terá compilado com as provas matemáticas mais belas. Embora nesse livro não deva constar a derivação das equações de campo de Einstein a partir da acção de Einstein-Hilbert, não posso deixar de confidenciar que foi algo que sempre me deu algum prazer exercitar. Como se cumprisse um ritual. Torno-me assim numa espécie de Erland Josephson a dirimir argumentos sobre a importância dos actos (aparentemente) inúteis num filme do Tarkovski ("Offret"). Habituei-me a encarar os 107 capítulos daquele livro como uma oferenda que, diariamente, erigia. Como se as palavras ao ganhar uma consistência na folha de papel fossem elas próprias um conjunto auto-consistente de algo extremamente vital, algo de importante porque aquele arranjo e rearranjo era meu. Único. Resistente ao Lema de Borel-Cantelli e à horda infinita de macacos (explicação aqui) que assolava os meus sonhos de autor. 


[continua amanhã]

Eu sou uma caducifólia

Um dia também gostaria de o poder finalmente dizer:

"sou um eucalipto"


Todo o mundo


No café sentava-me a ler Enrique Vila-Matas e enquanto me afagavas e puxavas com força o cabelo curtinho para ti, todos os sorrisos do mundo ascendiam à boca como ondas de convecção. Deixa-me ensinar-te os nomes das estrelas, mesmo aquelas cujo nome se elide na minha língua, revoluteando-se e enleando-se no meu palato. Sabes-me a mim, sabes-me a grânulos de felicidade e chispas de paixão. Quis consumir-te numa só noite, num fim-de-semana a contar estrelas numa fúria de taxonomista (repito-me, sim, sim, sim) e a reconciliar-me com o céu nocturno. Havia uma casa em ruínas donde se avistava a curva do rio. Eu olhava para aquele comboio manso, agraciado, exaltado por essa presença perene e esse amor que era amor e que era  tanto e tudo o que ficou por dizer. Teria sido feliz contigo, a cuspir grainhas de uva por entre os vinhedos e a falar sobre taninos e a beber vinho fino o dia inteiro, imaginando que um dia reconstruiria uma casa como essa e, longe do bulício dos dias e do estafado quotidiano, iria dedilhar palavras para ti, sorrisos em conluio com geometrias e topologias diversas e - porque não? - coroar alguns disparates pelo meio, pois então, porque tenho esta tendência ominosa de ser pouco clarividente na minha expressão verbal. Mas eu era feliz, porque havia dias inteiros nas árvores, dias a sonhar com amêndoas e a cingir-te muito apertada à minha cintura. Havia um carinho desmedido e essa ternura violenta com que te amava. Eras a minha rapariga trinca-espinhas e eu era um homem abençoado pela felicidade que teimava em invadir os meus poros e arremeter-me de frases feitas, frases toscas e simples, pouco buriladas, mas sentidas. Quando invocavas o meu nome eu era todos os homens do mundo. E todas as mulheres do mundo, também. Estavas ali. E eras tu. Tu? Sim, tu. E perguntavas-me quem eu era e eu afiançava-te ser o homem mais feliz do mundo. O homem que desaprende a felicidade e a quem lhe dão o sorriso mais bonito de sempre. Um sorriso teleológico, que vem do início do tempo e que se prolonga sem mácula e é perene. Em ti, o sentido da eternidade. 

Agora,  regresso a casa de madrugada; e cansados os meus olhos não encontram os teus gestos franzinos mas solícitos,  apenas essa ausência que se inscreve como uma doença maligna. Dói.

                     "E o que é a dor, Alexandre?"

"A dor é isto, é ter de escrever assim, frases curtinhas para não me cansar muito, para tentar compreender como as palavras se acomodam tão mal, que dizem tão pouco, zangado com elas, porque há um homem que não é só palavras e que estas perderam o seu sentido primacial". Abro um livro ao acaso. Que digo? Não, não é ao acaso.  O acaso existe, mas hoje escondeu-se de mim, apenas para me torturar de impaciência e saudades. São "Os vinte e cinco poemas à hora do almoço" do Frank O'Hara. Li-te apenas um, a minha voz arriscando uma clareza inaudita, fugindo a grumos e a esse entaramelamento que por vezes me assiste. Temeste a minha mudez ronceira e, agora, aguardo que entres por aquela porta, descalça, e um pouco titubeante, quem sabe?, arrancas-me  da soleira da porta pelo braço, onde sem querer conhecer o sentido da palavra resignação aguardo que uma brisa tépida me beije os lábios, e me peças para ler os restantes vinte e quatro. Um para cada hora do dia. Todos os dias.

Pigarreio um pouco e 


St. Paul and All That
Frank O’Hara


Totally abashed and smiling

I walk in
sit down and
face the frigidaire
it’s April
no May
it’s May

such little things have to be established in the morning
after the big things of night
do you want me to come? when
I think of all the things I’ve been thinking of
I feel insane
simply “life in Birmingham is hell”
simply “you will miss me
but that’s good”
when the tears of a whole generation are assembled
they will only fill a coffee cup
just because they evaporate
doesn’t mean life has heat
“this various dream of living”
I am alive with you
full of anxious pleasures and pleasurable anxiety
hardness and softness
listening while you talk and talking while you read
I read what you read
you do not read what I read
which is right, I am the one with the curiosity
you read for some mysterious reason
I read simply because I am a writer
the sun doesn’t necessarily set, sometimes is just
disappears
when you’re not here someone walks in
and says “hey,
there’s no dancer in that bed”
O the Polish summers! those drafts!
those black and white teeth!
you never come when you say you’ll come but on the
other hand you do come


[copyright Frank O’Hara, 1961]


Todos os dias do mundo, amor.

 


31 de outubro de 2009

Excerto II (capítulo 7)

A grafite e o silício sonham talvez com outra existência. Os números também sonharão. As linhas rectas e os infinitos que não existem na natureza sonho-os eu. Sonho-me a mim. Sonho o cálcio que me sustenta. Digo a palavra “cartilagem” e abano o nariz como se nele tivesse respingado um floco de neve disparatadamente simétrico. A minha língua por vezes sonha ser triturada por cacos de vidros. A apalage da dor e esta língua carda perfurada a pionaises de cabeças multicoloridas. Berlindes. Em criança guardava tampas de garrafas. Tinha uma saca cheia delas. Sacolejava-a frequentemente para ouvir o chocalho da lata, os níqueis estridentes e ruidosos, como se eu pudesse dar viva voz às partículas de gás em violenta colisão umas com as outras, nesse vidrinho de alquimista que eu imaginava possuir. Mais tarde expliquei ao meu filho o que é o som. Ele teria uns sete ou oito anos e julgo que não terá percebido. Todavia declara na ocasião que gostaria de ver as palavras desenhadas no ar (eu, que apenas sabia desenhar caligramas no corpo da minha mulher, não tentei o ar). E a criança fala da existência física. Pela primeira vez a criança fala como se o seu pai tivesse proferido aquelas palavras. Da boca do seu pai. E o pai é imortal porque é a voz noutra estrutura de átomos. Em muito mais que uma estrutura de átomos... Átomos como berlindes a beijarem a complexidade. Teria gostado de lhe ter deixado os meus berlindes e as minhas tampas de garrafas. Como resumir isto? Dizer que sempre estive mais perto da matéria com que a natureza se fabricou do que com Deus. Dizer que as palavras ainda estiveram mais perto de mim pois elas são a protogeometria de todas as coisas.

Excerto I (capítulo 12)

O Teorema começa assim.


Andar. Sentir a calçada fugir debaixo das solas dos sapatos. Sentir a derme destes a ranger, imaginar que são os ossos que chiam sofrendo a humidade de um dia de Outono. Chegar a casa. Chave apropriada em ranhura apropriada. Girá-la. Parar apenas um instante à ombreira da porta. Preparar para entrar. Entrar. Há uma mulher acocorada a acender a lareira. A mulher interrompe essa tarefa e sorri, rodando sobre os seus calcanhares, pés descalços sobre o soalho gasto da casa. A mulher levanta-se e sorri, sorri, sorri e beija-o. “Os teus lábios têm a textura das romãzeiras”, diz-lhe ele – e quanto a isto só poderemos ignorar o que as palavras possam querer significar; invocará ele a estrutura palmípede das folhas, o caule nodular da árvore ou a sexualidade ígnea do fruto? Beijar-lhe. Abraçar-lhe com sofreguidão. Sentir os seus mamilos pressionados contra o seu peito. Passar as mãos pelas suas costas. Beijam-se novamente, enleados numa coreografia há muito delineada. Naquela casa todo o tempo. E a mulher volta à tarefa com que a encontrámos inicialmente: ateia incêndios. A lenha verde e molhada enche a sala de fumo. Respira-se mal, tossica-se, pigarreia-se a bom pigarrear. O homem e a mulher riem-se. Respira-se fumo? Não, respira-se algo assimptoticamente perto da felicidade. Um deles diz ao outro que “respiro-te, pois estás entranhado nos meus alvéolos”. Não se sabe qual deles afirma isto porque a esta distância não os conseguiremos distinguir um do outro. A cem metros um novelo de lã é apenas um ponto. A felicidade é tão pouco, creio.

Corolário: É pelo menos assim que esta imagem coexiste na minha memória. Temo em recordar que sou esse homem e tu és essa mulher.

Socalcos

Hoje recordo-me bem de que a Relatividade Geral é uma teoria difeomorficamente invariante.

É irritante ter os livros estacionados em segunda fila como se estivessem à espera de serem manuseados pelo senhor deiscente da Biblioteca. Presta-se a alguma ansiedade, amor, estes olhos já estão demasiados cansados de estrelas e de linhas a fio crivadinhas com equações mal-comportadas cujas soluções não se vislumbram de forma fácil. Quando chego a casa cansado e reconforto a minha cabeça no teu peito não são os livros em segunda fila que os meus olhos procuram. Os títulos, sei-os de cor: "Dikter" (Harry Martinson), "Aparição" (Vergílio Ferreira), "Errata: revisões de uma vida" (George Steiner), "Géométrie et calcul différentiel sur les variétés" (Frédéric Pham) e um livro que ali teima em habitar e que, claro, não o saberias adivinhar.
[ não me soubeste adivinhar ]

"Cada palavra que cinzelo é como se o próprio cinzel arrancasse um pouco de mim.", não te confidenciei isto? As minhas histórias preferidas estão cheias de erros e equívocos. Quando eu dizia aos meus alunos das aulas de Relatividade Geral e Cosmologia que o importante era errar e sujar as mãos, estava a ser sincero e não a esquivar-me de reproduzir par coeur a demonstração da invariância por transporte paralelo. Mesmo uma teoria tão límpida e elegante como a Gravitação de Einstein presta-se a que nos sujemos. De pó-de-giz, de dias com sabor a romãs, de plantas em formas de filodendros, de restos de tabaco nos bolsos já um pouco carcomidos pelo tempo. Importa aqui esborratar os dedos nesta tinta, sentir a epiderme em poluta mancha de tinta e sentir sulcos escavados pelas lágrimas. 

Apetece-me dizer que o que importa é viver na multiplicidade dos espelhos, todos os dias sermos uma nova persona, dizer-se muito alto que sim, porque sim e, por uma vez, escrever um poema de fio a pavio sem pudores nem temores, viver-se como se escreve, viver como te sonho, como nos sonhámos, como fomos em noites imensas de Setembro onde o Estio teimava em não sumir. Era um calor que tanto gostavas. Mas depois veio o frio. E o homem que era o homem, sentiu-se novamente difractado; oh Whitman, meu grande sacana, se achas mesmo que a tua obra é um conjunto de sugestões e de apontamentos, que dizer das minhas palavras e acções que julgava unas?

30 de outubro de 2009

3323 Turgenev (1979 SY9)



Legenda: Não, não posso ser Estragon ou Vladimir à espera de Godot, pese embora a negação da acção ser ela própria uma acção, mas não a acção que privilegio.


22 de setembro de 2009

Reencontro (definição): como Tarkovski a perder o guião de Andrei Rubliov num táxi e a recuperá-lo miraculosamente

Posto isto tudo, dizer-te: ou confessar como te quero assim de pernas abertas e o teu olhar perdido na mansidão da noite, os teus ruídos a confundirem-se com as vibrações que as moléculas enfim saberão fazer.


26 de agosto de 2008

Contra a corrente

A não perder: um excelente artigo de revisão do Carlo Rovelli sobre Gravitação Quântica em Laços na Living Reviews in Relativity. Clicar aqui.

25 de agosto de 2008

Atómstöðin III

Por vezes confronto-me nessa vastidão álgida com o limiar da minha dor, como se esta ganhasse uma existência tangível e eu próprio sentisse que a luz se difractasse na presença de algo desconhecido, interessada apenas pelo espaço intersticial que a mágoa completa e não pela matéria de que sou feito. Sou assim um ser invisível para o qual a luz atravessa imperturbável, zombeteira e, apenas empenhada com uma rede de ausências tecidas numa topologia intrincada, ainda lhe consigo escutar um riso escarninho enquanto se difracta exibindo apenas uma débil sombra de um homem que finalmente se apressa a colocar uma pedra sobre a língua.

Atómstöðin II

(Há na literatura islandesa a mesma dimensão telúrica que a sua geografia encerra. Agora as pontas dos dedos encontram os seus quadris, passeiam por lá, “não sou um dos teus caderninhos que nunca usas”, retorque-lhe ela, impaciente, controladora. Não a sei definir. Ele tão pouco. Quando quero pensar em Anita vou à biblioteca e folheio atlas e livros de viagens sobre a Islândia e a Patagónia. Geiseres, paisagens lunares e erodidas (esteve ali presente a mão de um demónio muito bem humorado), cores que não consigo adjectivar, uma alvura impossível de aprender. E depois aquela literatura da resistência contra os elementos, o Bjarn de Casas de Verão do romance de Haldór Laxness. Tenho ali o livro do Chatwin a pedir-me que o releia; é certo que a reencontrarei novamente nas páginas do mesmo).

Atómstöðin I

“I want to know light”, Roswell was confessing, “I want to reach inside light and find its heart, touch its soul, take some in my hands whatever it turns out to be, and bring it back, like the Gold Rush only more at stake, maybe, ‘cause it’s easier to go crazy from, there’s danger in every direction, deadlier than snakes or fever or claim jumpers –“

Thomas Pynchon, Against the Day

77° 47′ 0″ N, 70° 46′ 0″ W



Há um provérbio iídiche que afirma que tempos houve em que os anjos andavam pela Terra. Agora nem os poderemos encontrar no Céu. Cito-o de memória, mas creio que não deturpei o seu sentido. Sabes, amor, há uma nudez irreal debaixo de um glaciar. A vista a partir de Siorapaluk continua a ser tão bonita.


8 de agosto de 2008

23 de julho de 2008

Atomic Cafe I





"Os que vivem intensamente não têm medo de morrer" (Anaïs Nin)

15 de julho de 2008

Drommar Ibland

Hei-de morrer sem chegar a dizer-te. Dizer-te luz, saibro, estrela, cascalho, citocromo-c. E a razão pela qual todas estas palavras são revestidas de Azul. Talvez um dia acordes noutro universo, os olhos pasmados de ternura, voltares a dizer "eu mais, eu melhor" e a sorrires com os meus "maisjómenos". Será sempre o teu sinal marca de estrela tatuado no meu espírito. A minha casa: apenas um persistente pixel Azul Neblina alicerçando a estrutura hemoglobínica das palavras.


[este blogue talvez regresse um dia destes]



[Voyager 1, 14/2/1990, 4 milhões de milhas]


[A imagem anterior, desta feita ampliada; o ponto esmaecido que se encontra na faixa castanha da direita é o planeta Terra - deverás clicar para ampliá-lo, Azul]


[A minha casa, vista da Cassini orbitando as orelhas moucas de Galileu, 15/9/2006]


Nem chega a um pixel

14 de julho de 2008

Hey, that's no way to say goodbye.



I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.


Sábado, 19 de Julho, no Passeio Marítimo de Algés.

In memoriam Solstício

A única casa que valia a pena habitar.

A propósito das madeixas que teimam em crescer em nuvens em agregados de matéria I


A propósito das madeixas que teimam em crescer em nuvens em agregados de matéria.

Não me recordo bem da amplitude dos gestos (os dedos enregelados bem fundo nos bolsos, um fundilho talvez roto ou com cotão) um cigarro preso nos lábios sem ter coragem de o acender. O espaço repartido por mais três ou quatro pessoas. Aquele espaço. Eu convidava a loucura que preenchia os interstícios do fibrado do espaço-tempo (ah! só um louco poderia afirmar isto) a transpor uma barreira quase invisível, uma cortina de água tépida, um convite ao entorpecimento. Chorava. Por mim. Pelas estrelas imóveis irremediavelmente pregadas a um céu demasiadamente azul. Pelas palavras que nunca cheguei a dizer. Chorava porque os meus lábios privados de sal, de afecto, de cor, insurgiam-se finalmente.

Não, não era o desejo do abismo que havia em mim. Os abismos não nos procuram, nem nós os queremos encontrar.


13 de julho de 2008

Caixa de Ressonância V


A rapariga que acentuava os advérbios de modo certo dia perguntou-me como era capaz de escutar ópera em altos berros no carro. Mesmo assim eu gostava dela – sabia que esta secretamente se comovia com os prelúdios de Wagner.

(Elsa de Brabante: nunca poderás questionar ao filho de Parsifal a sua identidade)

Liçóes de Astrofísica V: "Everything is blue in the world" (até o Sol)



Imagem (provavelmente) da sonda SOHO.

Azul Citrino

Caixa de ressonância IV

Havia uma imagem que teria querido partilhar com a rapariga que acentuava os advérbios de modo.



Caixa de ressonância III

Por vezes o gato que era eu espreitava essa rapariga a regar as sardinheiras nos vasos paralelepipédicos a desafiar a gravidade.


Caixa de ressonância II


Encontrava essa rapariga que acentuava os advérbios em muitos sonhos, em muitas bibliotecas e, por vezes, até no supermercado: ela escolhia algumas ervas aromáticas (e eu só podia supor que era para o chá) e eu ficava ali escondido, manso e intrigado em doses cuidadosamente proporcionais segundo a razão de ouro dos arquitectos gregos, uma espécie de gato negro prestes a usar todo o conhecimento das leis da natureza na sua impulsão pelas quatro patas e a cauda a gesticular como a batuta invisível de um maestro conduzindo o holandês do Der fliegende Holländer. Um gato melómano que não trocaria Wagner e meia garrafa de Stolichnaya por todo o Paládio do mundo.


Caixa de ressonância I


Era uma rapariga que acentuava os advérbios de modo. Deixava que estes saíssem pela boca e voltassem a entrar pelos ouvidos dos que a rodeavam, talvez na esperança que estes depois retornassem às suas narinas pois é certo que as palavras fazem vibrar as moléculas do ar quando não são apenas esta tinta mesquinha e têm voz. Esses advérbios de modo com a desusada acentuação que o caracterizavam eram abelhas que polinizavam flores e causavam-me cócegas, talvez localizadas nos lóbulos das orelhas, cócegas que se estendiam através das ramificações e eram amplificadas por uma estrutura que desconheço a sua origem, mas que devo talvez chamar-lhe de coração. Ou fígado. A rapariga que acentuava os advérbios de modo por vezes abusava dos estribilhos, mas também essas repetições me faziam titilar os lóbulos das orelhas, não me queixava das suas repetições, apenas dos seus advérbios de modo que por vezes me faziam espirrar.

13 de junho de 2008

2. Apatia (antes)

Deu-lhe dois beijos rápidos, roçando a face de forma fugaz para que não sentisse o seu cheiro. Entrou emocionado porta adentro. Notou que esse riso lhe fazia falta, esse riso claro e gratuito, sem concessões. Porém, quando se recordava dela não evocava o seu riso, era outra coisa que surgia nos momentos mais improváveis, algo intangível, que não vem desenhado nos livros mas que poderíamos designar por “epifania", à falta de uma designação mais justa. Embora mais velho que ela, sentia-se sempre uma criança a seu lado. Resignou-se a sentar muito quieto numa ponta do sofá, não sem antes admirar a arrumação da sua sala. Verbalizou-o – não era conversa de circunstância: a sua casa apaziguava-o. Ela quedou-se pela outra ponta, também imóvel. Sabia que, afinal de contas, nenhum deles nutria alguma coisa pelo outro. Guardava-lhe um enorme carinho no coração, era o que ele costumava afirmar. Ela nunca o amou, dizia para consigo, e embora a tenha amado era apenas o seu embaixador que ali se encontrava e não ele próprio – apeteceu-lhe dizer: "Não, doravante não me irás tratar por Alexandre. Call me Ismael. Esse é o nome do carcereiro que me enclausura”. Talvez devesse ter falado da alteridade. Do outro que há em nós. Talvez de Camus. Porque não? Mas isso iria criar uma série de equívocos. Ele queria apenas fruir da sua companhia e não se alcandorar em referências óbvias ou permitir-lhe que o acusasse de viver num mundo lírico. Era verdade que ele tinha abandonado o mundo e agora construía as suas próprias regras. Somente fingir que se encontrava ali. Já não se interessava por muita coisa. Dizem que tinha perdido a fé. Prendeu a mão entre as almofadas. Talvez estivesse nervoso. Apetecia-lhe acender um dos charutos que tinha trazido. E soprar o fumo para as suas costas. fffffffffff como onomatopeia. E de seguida pousar os seus lábios. Nas costas. A pele. As coxas. Apetecia sorrir-lhe, como costumava sorrir para ela. Talvez a tivesse amado em demasia. Ou como imaginava ter sorrido para ela. Já tinha visto aquele filme. Agnés Jaoui e o careca de bigode de cujo nome não se recorda (Messieur Castela – com um ou dois l’s?). Talvez ela não se enternecesse por ele. Pelo filme, bem entendido. Creio que talvez já não a conhecesse bem. Continuava bonita. Era uma estranha para ele. Lábios pequeninos, orelhas pequeninas, quase tudo em ponto pequeno, numa delicada simetria liliputiana. Estava a ganhar um pouco de volume no seu traseiro. Uma vez fez-lhe um comentário sobre o seu corpo e ela não gostou. A história deles estava eivada de equívocos. Mesmo agora, se ela lesse essas palavras iria sentir-se magoada pelas referências em duas mensagens ao seu traseiro. Ele achava a emergência das suas rugas como algo de belo. Adorava as suas olheiras. Sempre gostou de mulheres com insónias. Que tornavam a noite presente, em suma, como Maurice Blanchot terá afirmado. Recordo-me bem que ele adorava as suas costas: era o seu violino de Ingrès. Creio que o terá dito algumas vezes, enquanto faziam amor. Bem sei que não abona nada à sua originalidade, mas ao pé dela tornava-se algo tímido e comedido nas palavras, revelando-se apenas de forma sexual. Gostava de lhe chamar de “princesa da Entropia”. É algo de rebuscado, não é? Creio que talvez acreditasse que toda a palavra seria redundante, quando a sua língua articulava elipses consumindo-se no seu sexo. Tinha pintado o cabelo: agora era morena. Pareceu-lhe amenizada pela noite. Não perguntou se era feliz. Tinha prometido a si mesmo nunca mais lhe questionar acerca disso. Havia estrelas. O triângulo de Verão. Vénus. A Ursula Andress (era como cogitava na Ursa-maior-rabo-de-frigideira). E a Cassiopeia, cadeira, éme ou dahbliú. Mentiu-lhe. Três vezes. Altair, Deneb e Vega. Em duas das ocasiões fingiu que acreditava nela. Era um jogo que a divertia. Na realidade não se incomodou. Era apenas um jogo, já disse? Fazia parte da sua faceta lúdica e pouco mais. Talvez tivesse gostado de ouvir mentiras a noite inteira. Reparou que estacionava o carro quase tão mal como ele. O certo é que ele tinha sempre imensos acidentes quando conduzia a seu lado. Esmurradelas, o pneu furado ao aproximar-se da berma do passeio, o carro atirado por um pequeno declive. Ao telefone a voz dela tinha um timbre nervoso. Era raro concordarem sobre vinhos. Como se fossem novamente estranhos. Creio que ela não o irá acompanhar à Ópera quando for a Paris assistir a Tristão e Isolda. Antes falou-lhe disso. Ela perguntou-lhe algo sobre matéria protocolar. Talvez tenham esgrimido argumentos sobre algumas coisas que não ficaram bem resolvidas. Recordou-se que a única vez que foram juntos ao cinema foi para ver Saraband ao Alvaláxia(!). Não era verdade pois tinham visto outro filme mais recentemente. Ela não tinha gostado. Do filme do Bergman. Ele tinha repousado a sua cabeça no seu colo enquanto ela afagava o seu cabelo. Num banco do centro comercial. Era feliz. Não necessitava de muito: andava com uma T-shirt coçada e uns sapatos quase rotos. Por vezes vestia-se impecavelmente. Ainda agora costuma afirmar que tem um gosto irrepreensível por camisas. Julgo ser verdade. Mas, ainda a propósito da indumentária, Silje costumava interrogá-lo como era possível alguém ter a desfaçatez de vestir três tons diferentes de castanho nas suas peças de roupa. Na altura usava rabo-de-cavalo. Durante três anos não cortou o seu cabelo. Não se percebe bem porquê. Até porque se considerava uma pessoa com algum low profile, sempre disposto a passar incógnito. Há quem diga que foi por preguiça. Outros terão outras teorias mais rebuscadas, eu não sei o que acreditar, não me interessa muito. Chegou a casa. Tinha-se despedido com dois beijos ainda mais fugidios. Durante a noite inteira não a desejou. Pela primeira vez na vida tinha-se protegido mais do que esperaria. Sentiu-se insensível. Não mais interessante do ponto de vista evolutivo que uma barata. Agora masturbava-se várias vezes. Para compensar a ausência da noite. Por fim escreveu-lhe uma carta. Os dedos orlados por uma carapaça esbranquiçada ditavam:


“Ao passar timidamente a ombreira da porta fui outra vez o teu amante, porque foi convocada à minha memória a imagem do teu corpo bem rente ao meu, as minhas mãos enlaçando-se nas tuas costas e o meu abraço muito muito forte com medo de te perder.”


Tinha sido uma noite de banalidades. Obrigava-se de há uns meses a esta parte a ser banal. Como se se comprazesse com isso. Fui me deitar e não fiquei a saber como termina a carta. Sei apenas que não chegará a enviá-la.


1. Após


E no entanto, ao regressar a casa com os olhos agredidos pelos faróis, galgou rapidamente os lanços das escadas que o separavam do quarto para remeter-se à volúpia enleante dos lençóis sem sequer preocupar-se a ler parte das páginas designadas até que o sono sobreviesse, não podendo evitar que o seu sexo crescesse entre os dedos, numa erecção imódica e iracunda que a noite até então tinha contido. Enquanto o dia clareava, ácido e inflamado, dedicou aqueles minutos de vigília a masturbar-se várias vezes, certamente forçado pela imanência da electricidade daquela mulher a disparar estímulos vertiginosos e furiosos em tudo quanto era axónio. Primeiro, foram os seus mamilos eriçados coroando aqueles gratos seios que o fizeram jorrar, deixando escorrer indolentemente o sémen pela palma da mão, pelos dedos, imaginando que a viscosidade não o impediria de chegar às cutículas. Depois, discorriam no seu espírito as imagens daquelas ancas férteis onde os seus pulsos adoravam jazer após o embate que era entrar nesse corpo de alabastro e sentir a tessitura do seu sexo a suster-lhe a respiração como um lenço de veludo impregnado de um odor muito forte dentro da sua garganta, asfixiando-o, impelindo-o a penetrá-la de forma ainda mais intensa, como se a quisesse ferir de morte, puxando-a com denodo para si, cravando-lhe as mãos nos seus quadris, beliscando-lhe as nádegas, deixando-a trémula e abandonada até que o seu próprio corpo ficasse completamente repassado e coberto por um manto sudativo, o silêncio meditativo quando fazia amor interrompido apenas pelo som árduo da sua respiração e de quando em vez da resistência que os dentes encontravam ao morder-lhe a nuca, e finalmente não conseguiu suster aquele esgar que tão fielmente reproduzia o esgar contido quando este se vinha e que das primeiras vezes que estiveram juntos a deixara agradavelmente surpreendida. E, após mais uma breve pausa, a imaginar que a vestia – porque sempre lhe deu mais prazer vesti-la do que desnudá-la – meio entontecida, ainda febril e eléctrica, gotejando abundante entre as pernas, tentando invocar à memória aquele seu movimento rítmico das ancas quando lhe enfiava as calças justas, moldando-lhe as formas (não pôde deixar de pensar como o seu traseiro estava um pouco mais gordo e isso fez-lhe sorrir com ternura, cremos), qual dança que tivesse sido inventada apenas para proveito deles, teve ainda tempo para pensar que talvez ainda a adorasse em demasia. Fez então repetir os gestos de uma coreografia para a gastar, para que esta saísse da sua linfa, para que vertesse para os lençóis absurdamente alvos, para que secasse entre os interstícios dos dedos, como sucedia agora ao seu sémen, num acto de purga. Não sabemos se foi bem sucedido em tal demanda. Relata apenas, quem o observava, que se deixou tomar por um cansaço beatífico e, a esta distância, parecia que um sorriso persistente soerguia a comissura dos seus lábios.

26 de maio de 2008

Depois não digam que não tive a decência de vos avisar




Coco Rosie daqui a pouco (21h30) no TAGV. Resguardem-se com máscaras que cubram o nariz e a boca ou fatos de protecção biológica porque, febril e fungoso, serei um vector (e se fosse antes um tensor?) de descarada transmissão bacteriana.

Hoje estarei de acordo (talvez)

"Reading maketh a full man; conference a ready man; and writing an exact man."

(Francis Bacon)

19 de maio de 2008

O Sabor da Melancia



O Sabor da Melancia (Tian bian yi duo yun), é já daqui a pouco (21h30) no TAGV. O filme é de Ming-Liang Tsai e conta no seu elenco com Kang-sheng Lee, Shiang-chyi Chen e Yi-Ching Lu.