12 de novembro de 2009

Antes de Adormecer é preciso tropeçar (XI)


Antes de adormecer, vem-me à memória ancilar palavras ouvidas da boca de Ana Luísa Amaral: "A única coisa que pode tornar o amor menos mortal e menos transitório é a palavra.”



Apago a luz desarmada do candeeiro de pé alto. Inquieto-me na cadeira. São horas de dormir e de sonhar com palavras desastrosas. Palavras a tropeçar.

Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar. Palavras a tropeçar.


1 de novembro de 2009

6:00


"E saio às seis da manhã e começo à procura de ti. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti." (Sarah Kane)



Enquanto dormimos as estrelas rearranjam as suas posições



Os excertos anteriores (capítulos 7 e 12, os únicos que foram dados a ler a outras pessoas) fazem parte de um romance não publicado. Não é meu intento publicá-lo. Escreve-se como quem escreve para que haja uma parte de nós que não morra, que refute o efémero e a transiência das coisas. Escreve-se para comunicar com o mundo (quantas vezes terei repetido isto para os botões do meu casaco sovado?), mas também para demonstrar algo. Algo que não devia ser passível de demonstração. As demonstrações mais bonitas encontram-se no reino da Matemática, claro está, e a este propósito merecia aqui evocar Hardy e Erdös e esse livro que Deus (aqui ele merece letrinha maiúscula) terá compilado com as provas matemáticas mais belas. Embora nesse livro não deva constar a derivação das equações de campo de Einstein a partir da acção de Einstein-Hilbert, não posso deixar de confidenciar que foi algo que sempre me deu algum prazer exercitar. Como se cumprisse um ritual. Torno-me assim numa espécie de Erland Josephson a dirimir argumentos sobre a importância dos actos (aparentemente) inúteis num filme do Tarkovski ("Offret"). Habituei-me a encarar os 107 capítulos daquele livro como uma oferenda que, diariamente, erigia. Como se as palavras ao ganhar uma consistência na folha de papel fossem elas próprias um conjunto auto-consistente de algo extremamente vital, algo de importante porque aquele arranjo e rearranjo era meu. Único. Resistente ao Lema de Borel-Cantelli e à horda infinita de macacos (explicação aqui) que assolava os meus sonhos de autor. 


[continua amanhã]

Eu sou uma caducifólia

Um dia também gostaria de o poder finalmente dizer:

"sou um eucalipto"


Todo o mundo


No café sentava-me a ler Enrique Vila-Matas e enquanto me afagavas e puxavas com força o cabelo curtinho para ti, todos os sorrisos do mundo ascendiam à boca como ondas de convecção. Deixa-me ensinar-te os nomes das estrelas, mesmo aquelas cujo nome se elide na minha língua, revoluteando-se e enleando-se no meu palato. Sabes-me a mim, sabes-me a grânulos de felicidade e chispas de paixão. Quis consumir-te numa só noite, num fim-de-semana a contar estrelas numa fúria de taxonomista (repito-me, sim, sim, sim) e a reconciliar-me com o céu nocturno. Havia uma casa em ruínas donde se avistava a curva do rio. Eu olhava para aquele comboio manso, agraciado, exaltado por essa presença perene e esse amor que era amor e que era  tanto e tudo o que ficou por dizer. Teria sido feliz contigo, a cuspir grainhas de uva por entre os vinhedos e a falar sobre taninos e a beber vinho fino o dia inteiro, imaginando que um dia reconstruiria uma casa como essa e, longe do bulício dos dias e do estafado quotidiano, iria dedilhar palavras para ti, sorrisos em conluio com geometrias e topologias diversas e - porque não? - coroar alguns disparates pelo meio, pois então, porque tenho esta tendência ominosa de ser pouco clarividente na minha expressão verbal. Mas eu era feliz, porque havia dias inteiros nas árvores, dias a sonhar com amêndoas e a cingir-te muito apertada à minha cintura. Havia um carinho desmedido e essa ternura violenta com que te amava. Eras a minha rapariga trinca-espinhas e eu era um homem abençoado pela felicidade que teimava em invadir os meus poros e arremeter-me de frases feitas, frases toscas e simples, pouco buriladas, mas sentidas. Quando invocavas o meu nome eu era todos os homens do mundo. E todas as mulheres do mundo, também. Estavas ali. E eras tu. Tu? Sim, tu. E perguntavas-me quem eu era e eu afiançava-te ser o homem mais feliz do mundo. O homem que desaprende a felicidade e a quem lhe dão o sorriso mais bonito de sempre. Um sorriso teleológico, que vem do início do tempo e que se prolonga sem mácula e é perene. Em ti, o sentido da eternidade. 

Agora,  regresso a casa de madrugada; e cansados os meus olhos não encontram os teus gestos franzinos mas solícitos,  apenas essa ausência que se inscreve como uma doença maligna. Dói.

                     "E o que é a dor, Alexandre?"

"A dor é isto, é ter de escrever assim, frases curtinhas para não me cansar muito, para tentar compreender como as palavras se acomodam tão mal, que dizem tão pouco, zangado com elas, porque há um homem que não é só palavras e que estas perderam o seu sentido primacial". Abro um livro ao acaso. Que digo? Não, não é ao acaso.  O acaso existe, mas hoje escondeu-se de mim, apenas para me torturar de impaciência e saudades. São "Os vinte e cinco poemas à hora do almoço" do Frank O'Hara. Li-te apenas um, a minha voz arriscando uma clareza inaudita, fugindo a grumos e a esse entaramelamento que por vezes me assiste. Temeste a minha mudez ronceira e, agora, aguardo que entres por aquela porta, descalça, e um pouco titubeante, quem sabe?, arrancas-me  da soleira da porta pelo braço, onde sem querer conhecer o sentido da palavra resignação aguardo que uma brisa tépida me beije os lábios, e me peças para ler os restantes vinte e quatro. Um para cada hora do dia. Todos os dias.

Pigarreio um pouco e 


St. Paul and All That
Frank O’Hara


Totally abashed and smiling

I walk in
sit down and
face the frigidaire
it’s April
no May
it’s May

such little things have to be established in the morning
after the big things of night
do you want me to come? when
I think of all the things I’ve been thinking of
I feel insane
simply “life in Birmingham is hell”
simply “you will miss me
but that’s good”
when the tears of a whole generation are assembled
they will only fill a coffee cup
just because they evaporate
doesn’t mean life has heat
“this various dream of living”
I am alive with you
full of anxious pleasures and pleasurable anxiety
hardness and softness
listening while you talk and talking while you read
I read what you read
you do not read what I read
which is right, I am the one with the curiosity
you read for some mysterious reason
I read simply because I am a writer
the sun doesn’t necessarily set, sometimes is just
disappears
when you’re not here someone walks in
and says “hey,
there’s no dancer in that bed”
O the Polish summers! those drafts!
those black and white teeth!
you never come when you say you’ll come but on the
other hand you do come


[copyright Frank O’Hara, 1961]


Todos os dias do mundo, amor.

 


31 de outubro de 2009

Excerto II (capítulo 7)

A grafite e o silício sonham talvez com outra existência. Os números também sonharão. As linhas rectas e os infinitos que não existem na natureza sonho-os eu. Sonho-me a mim. Sonho o cálcio que me sustenta. Digo a palavra “cartilagem” e abano o nariz como se nele tivesse respingado um floco de neve disparatadamente simétrico. A minha língua por vezes sonha ser triturada por cacos de vidros. A apalage da dor e esta língua carda perfurada a pionaises de cabeças multicoloridas. Berlindes. Em criança guardava tampas de garrafas. Tinha uma saca cheia delas. Sacolejava-a frequentemente para ouvir o chocalho da lata, os níqueis estridentes e ruidosos, como se eu pudesse dar viva voz às partículas de gás em violenta colisão umas com as outras, nesse vidrinho de alquimista que eu imaginava possuir. Mais tarde expliquei ao meu filho o que é o som. Ele teria uns sete ou oito anos e julgo que não terá percebido. Todavia declara na ocasião que gostaria de ver as palavras desenhadas no ar (eu, que apenas sabia desenhar caligramas no corpo da minha mulher, não tentei o ar). E a criança fala da existência física. Pela primeira vez a criança fala como se o seu pai tivesse proferido aquelas palavras. Da boca do seu pai. E o pai é imortal porque é a voz noutra estrutura de átomos. Em muito mais que uma estrutura de átomos... Átomos como berlindes a beijarem a complexidade. Teria gostado de lhe ter deixado os meus berlindes e as minhas tampas de garrafas. Como resumir isto? Dizer que sempre estive mais perto da matéria com que a natureza se fabricou do que com Deus. Dizer que as palavras ainda estiveram mais perto de mim pois elas são a protogeometria de todas as coisas.

Excerto I (capítulo 12)

O Teorema começa assim.


Andar. Sentir a calçada fugir debaixo das solas dos sapatos. Sentir a derme destes a ranger, imaginar que são os ossos que chiam sofrendo a humidade de um dia de Outono. Chegar a casa. Chave apropriada em ranhura apropriada. Girá-la. Parar apenas um instante à ombreira da porta. Preparar para entrar. Entrar. Há uma mulher acocorada a acender a lareira. A mulher interrompe essa tarefa e sorri, rodando sobre os seus calcanhares, pés descalços sobre o soalho gasto da casa. A mulher levanta-se e sorri, sorri, sorri e beija-o. “Os teus lábios têm a textura das romãzeiras”, diz-lhe ele – e quanto a isto só poderemos ignorar o que as palavras possam querer significar; invocará ele a estrutura palmípede das folhas, o caule nodular da árvore ou a sexualidade ígnea do fruto? Beijar-lhe. Abraçar-lhe com sofreguidão. Sentir os seus mamilos pressionados contra o seu peito. Passar as mãos pelas suas costas. Beijam-se novamente, enleados numa coreografia há muito delineada. Naquela casa todo o tempo. E a mulher volta à tarefa com que a encontrámos inicialmente: ateia incêndios. A lenha verde e molhada enche a sala de fumo. Respira-se mal, tossica-se, pigarreia-se a bom pigarrear. O homem e a mulher riem-se. Respira-se fumo? Não, respira-se algo assimptoticamente perto da felicidade. Um deles diz ao outro que “respiro-te, pois estás entranhado nos meus alvéolos”. Não se sabe qual deles afirma isto porque a esta distância não os conseguiremos distinguir um do outro. A cem metros um novelo de lã é apenas um ponto. A felicidade é tão pouco, creio.

Corolário: É pelo menos assim que esta imagem coexiste na minha memória. Temo em recordar que sou esse homem e tu és essa mulher.

Socalcos

Hoje recordo-me bem de que a Relatividade Geral é uma teoria difeomorficamente invariante.

É irritante ter os livros estacionados em segunda fila como se estivessem à espera de serem manuseados pelo senhor deiscente da Biblioteca. Presta-se a alguma ansiedade, amor, estes olhos já estão demasiados cansados de estrelas e de linhas a fio crivadinhas com equações mal-comportadas cujas soluções não se vislumbram de forma fácil. Quando chego a casa cansado e reconforto a minha cabeça no teu peito não são os livros em segunda fila que os meus olhos procuram. Os títulos, sei-os de cor: "Dikter" (Harry Martinson), "Aparição" (Vergílio Ferreira), "Errata: revisões de uma vida" (George Steiner), "Géométrie et calcul différentiel sur les variétés" (Frédéric Pham) e um livro que ali teima em habitar e que, claro, não o saberias adivinhar.
[ não me soubeste adivinhar ]

"Cada palavra que cinzelo é como se o próprio cinzel arrancasse um pouco de mim.", não te confidenciei isto? As minhas histórias preferidas estão cheias de erros e equívocos. Quando eu dizia aos meus alunos das aulas de Relatividade Geral e Cosmologia que o importante era errar e sujar as mãos, estava a ser sincero e não a esquivar-me de reproduzir par coeur a demonstração da invariância por transporte paralelo. Mesmo uma teoria tão límpida e elegante como a Gravitação de Einstein presta-se a que nos sujemos. De pó-de-giz, de dias com sabor a romãs, de plantas em formas de filodendros, de restos de tabaco nos bolsos já um pouco carcomidos pelo tempo. Importa aqui esborratar os dedos nesta tinta, sentir a epiderme em poluta mancha de tinta e sentir sulcos escavados pelas lágrimas. 

Apetece-me dizer que o que importa é viver na multiplicidade dos espelhos, todos os dias sermos uma nova persona, dizer-se muito alto que sim, porque sim e, por uma vez, escrever um poema de fio a pavio sem pudores nem temores, viver-se como se escreve, viver como te sonho, como nos sonhámos, como fomos em noites imensas de Setembro onde o Estio teimava em não sumir. Era um calor que tanto gostavas. Mas depois veio o frio. E o homem que era o homem, sentiu-se novamente difractado; oh Whitman, meu grande sacana, se achas mesmo que a tua obra é um conjunto de sugestões e de apontamentos, que dizer das minhas palavras e acções que julgava unas?

30 de outubro de 2009

3323 Turgenev (1979 SY9)



Legenda: Não, não posso ser Estragon ou Vladimir à espera de Godot, pese embora a negação da acção ser ela própria uma acção, mas não a acção que privilegio.


22 de setembro de 2009

Reencontro (definição): como Tarkovski a perder o guião de Andrei Rubliov num táxi e a recuperá-lo miraculosamente

Posto isto tudo, dizer-te: ou confessar como te quero assim de pernas abertas e o teu olhar perdido na mansidão da noite, os teus ruídos a confundirem-se com as vibrações que as moléculas enfim saberão fazer.


26 de agosto de 2008

Contra a corrente

A não perder: um excelente artigo de revisão do Carlo Rovelli sobre Gravitação Quântica em Laços na Living Reviews in Relativity. Clicar aqui.

25 de agosto de 2008

Atómstöðin III

Por vezes confronto-me nessa vastidão álgida com o limiar da minha dor, como se esta ganhasse uma existência tangível e eu próprio sentisse que a luz se difractasse na presença de algo desconhecido, interessada apenas pelo espaço intersticial que a mágoa completa e não pela matéria de que sou feito. Sou assim um ser invisível para o qual a luz atravessa imperturbável, zombeteira e, apenas empenhada com uma rede de ausências tecidas numa topologia intrincada, ainda lhe consigo escutar um riso escarninho enquanto se difracta exibindo apenas uma débil sombra de um homem que finalmente se apressa a colocar uma pedra sobre a língua.

Atómstöðin II

(Há na literatura islandesa a mesma dimensão telúrica que a sua geografia encerra. Agora as pontas dos dedos encontram os seus quadris, passeiam por lá, “não sou um dos teus caderninhos que nunca usas”, retorque-lhe ela, impaciente, controladora. Não a sei definir. Ele tão pouco. Quando quero pensar em Anita vou à biblioteca e folheio atlas e livros de viagens sobre a Islândia e a Patagónia. Geiseres, paisagens lunares e erodidas (esteve ali presente a mão de um demónio muito bem humorado), cores que não consigo adjectivar, uma alvura impossível de aprender. E depois aquela literatura da resistência contra os elementos, o Bjarn de Casas de Verão do romance de Haldór Laxness. Tenho ali o livro do Chatwin a pedir-me que o releia; é certo que a reencontrarei novamente nas páginas do mesmo).

Atómstöðin I

“I want to know light”, Roswell was confessing, “I want to reach inside light and find its heart, touch its soul, take some in my hands whatever it turns out to be, and bring it back, like the Gold Rush only more at stake, maybe, ‘cause it’s easier to go crazy from, there’s danger in every direction, deadlier than snakes or fever or claim jumpers –“

Thomas Pynchon, Against the Day

77° 47′ 0″ N, 70° 46′ 0″ W



Há um provérbio iídiche que afirma que tempos houve em que os anjos andavam pela Terra. Agora nem os poderemos encontrar no Céu. Cito-o de memória, mas creio que não deturpei o seu sentido. Sabes, amor, há uma nudez irreal debaixo de um glaciar. A vista a partir de Siorapaluk continua a ser tão bonita.


8 de agosto de 2008

23 de julho de 2008

Atomic Cafe I





"Os que vivem intensamente não têm medo de morrer" (Anaïs Nin)

15 de julho de 2008

Drommar Ibland

Hei-de morrer sem chegar a dizer-te. Dizer-te luz, saibro, estrela, cascalho, citocromo-c. E a razão pela qual todas estas palavras são revestidas de Azul. Talvez um dia acordes noutro universo, os olhos pasmados de ternura, voltares a dizer "eu mais, eu melhor" e a sorrires com os meus "maisjómenos". Será sempre o teu sinal marca de estrela tatuado no meu espírito. A minha casa: apenas um persistente pixel Azul Neblina alicerçando a estrutura hemoglobínica das palavras.


[este blogue talvez regresse um dia destes]



[Voyager 1, 14/2/1990, 4 milhões de milhas]


[A imagem anterior, desta feita ampliada; o ponto esmaecido que se encontra na faixa castanha da direita é o planeta Terra - deverás clicar para ampliá-lo, Azul]


[A minha casa, vista da Cassini orbitando as orelhas moucas de Galileu, 15/9/2006]


Nem chega a um pixel

14 de julho de 2008

Hey, that's no way to say goodbye.



I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.


Sábado, 19 de Julho, no Passeio Marítimo de Algés.

In memoriam Solstício

A única casa que valia a pena habitar.

A propósito das madeixas que teimam em crescer em nuvens em agregados de matéria I


A propósito das madeixas que teimam em crescer em nuvens em agregados de matéria.

Não me recordo bem da amplitude dos gestos (os dedos enregelados bem fundo nos bolsos, um fundilho talvez roto ou com cotão) um cigarro preso nos lábios sem ter coragem de o acender. O espaço repartido por mais três ou quatro pessoas. Aquele espaço. Eu convidava a loucura que preenchia os interstícios do fibrado do espaço-tempo (ah! só um louco poderia afirmar isto) a transpor uma barreira quase invisível, uma cortina de água tépida, um convite ao entorpecimento. Chorava. Por mim. Pelas estrelas imóveis irremediavelmente pregadas a um céu demasiadamente azul. Pelas palavras que nunca cheguei a dizer. Chorava porque os meus lábios privados de sal, de afecto, de cor, insurgiam-se finalmente.

Não, não era o desejo do abismo que havia em mim. Os abismos não nos procuram, nem nós os queremos encontrar.


13 de julho de 2008

Caixa de Ressonância V


A rapariga que acentuava os advérbios de modo certo dia perguntou-me como era capaz de escutar ópera em altos berros no carro. Mesmo assim eu gostava dela – sabia que esta secretamente se comovia com os prelúdios de Wagner.

(Elsa de Brabante: nunca poderás questionar ao filho de Parsifal a sua identidade)

Liçóes de Astrofísica V: "Everything is blue in the world" (até o Sol)



Imagem (provavelmente) da sonda SOHO.

Azul Citrino

Caixa de ressonância IV

Havia uma imagem que teria querido partilhar com a rapariga que acentuava os advérbios de modo.



Caixa de ressonância III

Por vezes o gato que era eu espreitava essa rapariga a regar as sardinheiras nos vasos paralelepipédicos a desafiar a gravidade.


Caixa de ressonância II


Encontrava essa rapariga que acentuava os advérbios em muitos sonhos, em muitas bibliotecas e, por vezes, até no supermercado: ela escolhia algumas ervas aromáticas (e eu só podia supor que era para o chá) e eu ficava ali escondido, manso e intrigado em doses cuidadosamente proporcionais segundo a razão de ouro dos arquitectos gregos, uma espécie de gato negro prestes a usar todo o conhecimento das leis da natureza na sua impulsão pelas quatro patas e a cauda a gesticular como a batuta invisível de um maestro conduzindo o holandês do Der fliegende Holländer. Um gato melómano que não trocaria Wagner e meia garrafa de Stolichnaya por todo o Paládio do mundo.


Caixa de ressonância I


Era uma rapariga que acentuava os advérbios de modo. Deixava que estes saíssem pela boca e voltassem a entrar pelos ouvidos dos que a rodeavam, talvez na esperança que estes depois retornassem às suas narinas pois é certo que as palavras fazem vibrar as moléculas do ar quando não são apenas esta tinta mesquinha e têm voz. Esses advérbios de modo com a desusada acentuação que o caracterizavam eram abelhas que polinizavam flores e causavam-me cócegas, talvez localizadas nos lóbulos das orelhas, cócegas que se estendiam através das ramificações e eram amplificadas por uma estrutura que desconheço a sua origem, mas que devo talvez chamar-lhe de coração. Ou fígado. A rapariga que acentuava os advérbios de modo por vezes abusava dos estribilhos, mas também essas repetições me faziam titilar os lóbulos das orelhas, não me queixava das suas repetições, apenas dos seus advérbios de modo que por vezes me faziam espirrar.

13 de junho de 2008

2. Apatia (antes)

Deu-lhe dois beijos rápidos, roçando a face de forma fugaz para que não sentisse o seu cheiro. Entrou emocionado porta adentro. Notou que esse riso lhe fazia falta, esse riso claro e gratuito, sem concessões. Porém, quando se recordava dela não evocava o seu riso, era outra coisa que surgia nos momentos mais improváveis, algo intangível, que não vem desenhado nos livros mas que poderíamos designar por “epifania", à falta de uma designação mais justa. Embora mais velho que ela, sentia-se sempre uma criança a seu lado. Resignou-se a sentar muito quieto numa ponta do sofá, não sem antes admirar a arrumação da sua sala. Verbalizou-o – não era conversa de circunstância: a sua casa apaziguava-o. Ela quedou-se pela outra ponta, também imóvel. Sabia que, afinal de contas, nenhum deles nutria alguma coisa pelo outro. Guardava-lhe um enorme carinho no coração, era o que ele costumava afirmar. Ela nunca o amou, dizia para consigo, e embora a tenha amado era apenas o seu embaixador que ali se encontrava e não ele próprio – apeteceu-lhe dizer: "Não, doravante não me irás tratar por Alexandre. Call me Ismael. Esse é o nome do carcereiro que me enclausura”. Talvez devesse ter falado da alteridade. Do outro que há em nós. Talvez de Camus. Porque não? Mas isso iria criar uma série de equívocos. Ele queria apenas fruir da sua companhia e não se alcandorar em referências óbvias ou permitir-lhe que o acusasse de viver num mundo lírico. Era verdade que ele tinha abandonado o mundo e agora construía as suas próprias regras. Somente fingir que se encontrava ali. Já não se interessava por muita coisa. Dizem que tinha perdido a fé. Prendeu a mão entre as almofadas. Talvez estivesse nervoso. Apetecia-lhe acender um dos charutos que tinha trazido. E soprar o fumo para as suas costas. fffffffffff como onomatopeia. E de seguida pousar os seus lábios. Nas costas. A pele. As coxas. Apetecia sorrir-lhe, como costumava sorrir para ela. Talvez a tivesse amado em demasia. Ou como imaginava ter sorrido para ela. Já tinha visto aquele filme. Agnés Jaoui e o careca de bigode de cujo nome não se recorda (Messieur Castela – com um ou dois l’s?). Talvez ela não se enternecesse por ele. Pelo filme, bem entendido. Creio que talvez já não a conhecesse bem. Continuava bonita. Era uma estranha para ele. Lábios pequeninos, orelhas pequeninas, quase tudo em ponto pequeno, numa delicada simetria liliputiana. Estava a ganhar um pouco de volume no seu traseiro. Uma vez fez-lhe um comentário sobre o seu corpo e ela não gostou. A história deles estava eivada de equívocos. Mesmo agora, se ela lesse essas palavras iria sentir-se magoada pelas referências em duas mensagens ao seu traseiro. Ele achava a emergência das suas rugas como algo de belo. Adorava as suas olheiras. Sempre gostou de mulheres com insónias. Que tornavam a noite presente, em suma, como Maurice Blanchot terá afirmado. Recordo-me bem que ele adorava as suas costas: era o seu violino de Ingrès. Creio que o terá dito algumas vezes, enquanto faziam amor. Bem sei que não abona nada à sua originalidade, mas ao pé dela tornava-se algo tímido e comedido nas palavras, revelando-se apenas de forma sexual. Gostava de lhe chamar de “princesa da Entropia”. É algo de rebuscado, não é? Creio que talvez acreditasse que toda a palavra seria redundante, quando a sua língua articulava elipses consumindo-se no seu sexo. Tinha pintado o cabelo: agora era morena. Pareceu-lhe amenizada pela noite. Não perguntou se era feliz. Tinha prometido a si mesmo nunca mais lhe questionar acerca disso. Havia estrelas. O triângulo de Verão. Vénus. A Ursula Andress (era como cogitava na Ursa-maior-rabo-de-frigideira). E a Cassiopeia, cadeira, éme ou dahbliú. Mentiu-lhe. Três vezes. Altair, Deneb e Vega. Em duas das ocasiões fingiu que acreditava nela. Era um jogo que a divertia. Na realidade não se incomodou. Era apenas um jogo, já disse? Fazia parte da sua faceta lúdica e pouco mais. Talvez tivesse gostado de ouvir mentiras a noite inteira. Reparou que estacionava o carro quase tão mal como ele. O certo é que ele tinha sempre imensos acidentes quando conduzia a seu lado. Esmurradelas, o pneu furado ao aproximar-se da berma do passeio, o carro atirado por um pequeno declive. Ao telefone a voz dela tinha um timbre nervoso. Era raro concordarem sobre vinhos. Como se fossem novamente estranhos. Creio que ela não o irá acompanhar à Ópera quando for a Paris assistir a Tristão e Isolda. Antes falou-lhe disso. Ela perguntou-lhe algo sobre matéria protocolar. Talvez tenham esgrimido argumentos sobre algumas coisas que não ficaram bem resolvidas. Recordou-se que a única vez que foram juntos ao cinema foi para ver Saraband ao Alvaláxia(!). Não era verdade pois tinham visto outro filme mais recentemente. Ela não tinha gostado. Do filme do Bergman. Ele tinha repousado a sua cabeça no seu colo enquanto ela afagava o seu cabelo. Num banco do centro comercial. Era feliz. Não necessitava de muito: andava com uma T-shirt coçada e uns sapatos quase rotos. Por vezes vestia-se impecavelmente. Ainda agora costuma afirmar que tem um gosto irrepreensível por camisas. Julgo ser verdade. Mas, ainda a propósito da indumentária, Silje costumava interrogá-lo como era possível alguém ter a desfaçatez de vestir três tons diferentes de castanho nas suas peças de roupa. Na altura usava rabo-de-cavalo. Durante três anos não cortou o seu cabelo. Não se percebe bem porquê. Até porque se considerava uma pessoa com algum low profile, sempre disposto a passar incógnito. Há quem diga que foi por preguiça. Outros terão outras teorias mais rebuscadas, eu não sei o que acreditar, não me interessa muito. Chegou a casa. Tinha-se despedido com dois beijos ainda mais fugidios. Durante a noite inteira não a desejou. Pela primeira vez na vida tinha-se protegido mais do que esperaria. Sentiu-se insensível. Não mais interessante do ponto de vista evolutivo que uma barata. Agora masturbava-se várias vezes. Para compensar a ausência da noite. Por fim escreveu-lhe uma carta. Os dedos orlados por uma carapaça esbranquiçada ditavam:


“Ao passar timidamente a ombreira da porta fui outra vez o teu amante, porque foi convocada à minha memória a imagem do teu corpo bem rente ao meu, as minhas mãos enlaçando-se nas tuas costas e o meu abraço muito muito forte com medo de te perder.”


Tinha sido uma noite de banalidades. Obrigava-se de há uns meses a esta parte a ser banal. Como se se comprazesse com isso. Fui me deitar e não fiquei a saber como termina a carta. Sei apenas que não chegará a enviá-la.


1. Após


E no entanto, ao regressar a casa com os olhos agredidos pelos faróis, galgou rapidamente os lanços das escadas que o separavam do quarto para remeter-se à volúpia enleante dos lençóis sem sequer preocupar-se a ler parte das páginas designadas até que o sono sobreviesse, não podendo evitar que o seu sexo crescesse entre os dedos, numa erecção imódica e iracunda que a noite até então tinha contido. Enquanto o dia clareava, ácido e inflamado, dedicou aqueles minutos de vigília a masturbar-se várias vezes, certamente forçado pela imanência da electricidade daquela mulher a disparar estímulos vertiginosos e furiosos em tudo quanto era axónio. Primeiro, foram os seus mamilos eriçados coroando aqueles gratos seios que o fizeram jorrar, deixando escorrer indolentemente o sémen pela palma da mão, pelos dedos, imaginando que a viscosidade não o impediria de chegar às cutículas. Depois, discorriam no seu espírito as imagens daquelas ancas férteis onde os seus pulsos adoravam jazer após o embate que era entrar nesse corpo de alabastro e sentir a tessitura do seu sexo a suster-lhe a respiração como um lenço de veludo impregnado de um odor muito forte dentro da sua garganta, asfixiando-o, impelindo-o a penetrá-la de forma ainda mais intensa, como se a quisesse ferir de morte, puxando-a com denodo para si, cravando-lhe as mãos nos seus quadris, beliscando-lhe as nádegas, deixando-a trémula e abandonada até que o seu próprio corpo ficasse completamente repassado e coberto por um manto sudativo, o silêncio meditativo quando fazia amor interrompido apenas pelo som árduo da sua respiração e de quando em vez da resistência que os dentes encontravam ao morder-lhe a nuca, e finalmente não conseguiu suster aquele esgar que tão fielmente reproduzia o esgar contido quando este se vinha e que das primeiras vezes que estiveram juntos a deixara agradavelmente surpreendida. E, após mais uma breve pausa, a imaginar que a vestia – porque sempre lhe deu mais prazer vesti-la do que desnudá-la – meio entontecida, ainda febril e eléctrica, gotejando abundante entre as pernas, tentando invocar à memória aquele seu movimento rítmico das ancas quando lhe enfiava as calças justas, moldando-lhe as formas (não pôde deixar de pensar como o seu traseiro estava um pouco mais gordo e isso fez-lhe sorrir com ternura, cremos), qual dança que tivesse sido inventada apenas para proveito deles, teve ainda tempo para pensar que talvez ainda a adorasse em demasia. Fez então repetir os gestos de uma coreografia para a gastar, para que esta saísse da sua linfa, para que vertesse para os lençóis absurdamente alvos, para que secasse entre os interstícios dos dedos, como sucedia agora ao seu sémen, num acto de purga. Não sabemos se foi bem sucedido em tal demanda. Relata apenas, quem o observava, que se deixou tomar por um cansaço beatífico e, a esta distância, parecia que um sorriso persistente soerguia a comissura dos seus lábios.

26 de maio de 2008

Depois não digam que não tive a decência de vos avisar




Coco Rosie daqui a pouco (21h30) no TAGV. Resguardem-se com máscaras que cubram o nariz e a boca ou fatos de protecção biológica porque, febril e fungoso, serei um vector (e se fosse antes um tensor?) de descarada transmissão bacteriana.

Hoje estarei de acordo (talvez)

"Reading maketh a full man; conference a ready man; and writing an exact man."

(Francis Bacon)

19 de maio de 2008

O Sabor da Melancia



O Sabor da Melancia (Tian bian yi duo yun), é já daqui a pouco (21h30) no TAGV. O filme é de Ming-Liang Tsai e conta no seu elenco com Kang-sheng Lee, Shiang-chyi Chen e Yi-Ching Lu.

22 de abril de 2008

Um musaranho em Novosibirsk espirrou tendo causado a morte de Lorenz aos 90 anos




Andam a cair que nem tordos. Desta feita foi o Edward Lorenz (faleceu no passado dia 16). Não foi o pai da Teoria do Caos, como muitos patetas têm vindo a escrever por aí. O pai foi o Poincaré. Lorenz é conhecido sobretudo pelo modelo metereológico que tem o seu nome, um conjunto simplificado de equações diferenciais ordinárias que se encontram representadas na imagem do bloco de notas, em conjunto com o código em Octave (com os parâmetros e condições iniciais rabiscadas nas mesmíssimas linhas) que foi usado para representar a imagem do atractor.


Mais amanhã.

Estranho apontamento: constato que desapareceu uma vírgula das frases aprisionadas pelo caderninho de notas. Da última vez que foi avistada abordava os transeuntes de uma rua muito movimentada num bairro mal frequentado de Ulam-Bator. Oferecem-se alvíssaras. Ou, na falta destas, vísceras frescas.


17 de abril de 2008

Por vezes floresce VI (quinteto de Stephan)


Fora de contexto

É evidente que um corte dedekindiano irracional é algo que, de certo modo, "representa" um número irracional.

[Palavras saborosas, a roçagarem o palato com a tenácia do veludo, mas quem é que escreveu isto?]

Por vezes floresce V



Começa assim: "Ou as coisas que se encontram perdidas no interior dos livros, tratando-se da maior parte de objectos insuspeitos: notas, bilhetes de metro (ou de outros meios de transporte), listas de afazeres, notículas variegadas, cartões telefónicos, cartas apaixonadas, cartas desapaixonadas, bilhetes de rendição, suspiros, bilhetes de exaustão, bilhetes de inanição, pequenos leptocéfalos esmagados por gestos mais bruscos, outros objectos impossíveis de serem identificados. E nódoas. Nódoas de café, cerveja, vinho tinto (as de vinho rosé e branco não entram neste rol), salpicos de gotículas de sangue, lágrimas que já não sabem a sal, nódoas de sémen a amarelecer as páginas, cascas espalmadas de amendoim (porque não?) a provar que a sua curvatura é hiperbólica (ou de Lobatchevsky que soa sempre bem), madeixas de cabelo louro (Silje, Viktoria, Anita...?) num livro cuja proveniência é impossível registar. E pétalas. A partir de hoje, quatro ou cinco pétalas alvas."

Por vezes floresce IV (duas flores quasi-actinomorfas)



"A realidade objectiva é um construto sintético, que lida com uma universalização hipotética de múltiplas realidades subjectivas" (assim alardeia Mr. Poole in "A formiga eléctrica", Philip K. Dick)

Um par de flores filtradas pela objectiva do telemóvel. Um detalhe em que só agora reparo: a abelha em tarefa de polinização. E o nome das flores, que se escapa à ponta da língua, em vertiginosa dinâmica demoníaca. Não são margaridas, nem crisântemos, pois não?

Por vezes floresce III (Deimos)


Por vezes floresce II (Phobos)


Por vezes floresce I



Sim, tenho flores no meu quintal. Não te recordas? Orquídeas, estrelícias, muitas rosas e deixa-me ir buscar um tratado sobre Botânica para me enredar na nomenclatura, mas apostaria que são margaridas, lírios e gerbérias. E acrescento: laranjeiras, limoeiros, romãzeiras, pessegueiros, ameixoeiras e outras árvores de fruto (tenho mesmo uma árvore que dá umas pêras-abacate que surpreenderam as minhas expectativas) - algumas terei-as plantado eu. Quando em miúdo uma ou duas vezes recordo-me de ter ido apanhar espigas-de-milho (as quais achava magníficas), imitar o engenheiro Sousa Veloso e cavar batatas. Dizia ao meu pai que os tubérculos não tinham piada alguma, enquanto encolhia os ombros num gesto de abandono e, com as mãos sujas de terra e de minhocas, corria para o jardim para me perder em livros, limonada ou refresco de café deixando mais uma vez o meu pai estarrecido com a minha deserção e com o meu riso de despautério enquanto corria como um desvairado em direcção ao meu mundo solitário de viagens interplanetárias, fenómenos físicos rocambolescos, peripécias com andróides, Matusaléns, amazonas, encantadores de serpentes e heróis que regressam a Ítaca depois de uma circumnavegação galáctica. É que as únicas batatas que gostava de explorar se encontravam esburacadas: tinham o nome de Fobos e Deimos, orbitavam o planeta Marte e encontravam-se à deriva nos livros de ficção científica.

[Post in memorium Arthur C. Clarke (16/12/1917–19/3/2008)]

Os dentes nos mamilos a bailarina à minha porta


Os navios são títulos podres nos dentes do mar dos Sargaços e tu eras o meu complexo conjugado em dias de sede e as minhas membranas teciam mariposas nos teus mamilos eras a minha ausência ressonante de copos de cristal em insensato movimento oscilatório um dilúvio de sinais ortográficos uma sacudidela despertando movimentos elipsoidais o movimento de nutação do pião a bailarina que efectua ainda um último fouetté en tournant sonhando com a liberdade dos giroscópios a última réstia de luz a que improvisa brancas de neve as mesmas que não ousaram derramar uma gota de sangue para não assustar o rançado silêncio que contava com as permutações de uma fiadeira que por erro de casting não conseguiu aparecer num conto do Tchékhov

mas que teimou bater à minha porta invocando uma mal-amanhada história de epiciclos amorosos



[Inspirado no poema do blogue 5 aranhiças:

Os navios são títulos podres nos dentes a mar gos
e a vigência dos dentes são incorporações e s
cotilhas pelas small daily things c ya

a indisponibilidade dos bichos colhidos no final das petulâncias e guardados em pérgulas pela cabotagem dos pomares oblíquos
deixa as maçãs polpudas
a improvisar brancas de neve insufláveis
em alto teor de vermelho ]

Borboletear


É o que faço defronte da luz trémula do monitor, antes de dormir. Antes de dormir! Ah, se eu pudesse dormir. Se tu pudesses acolher-me nos teus braços e eu pudesse voltar a ser frágil, tropeçando nos teus olhos e levando à minha boca os mais puros adjectivos de sal quando sou língua e tu apenas poros. Antes de dormir. Antes de uma mensagem tua brunir no meu telemóvel. Oh, doce trinado das aves, oh maravilhosa surpresa.


(Tu/Ela: "E, amor, como é que se diz "Amor" em Estoniano?"
Alexandre: "Armastus. Mas é uma palavra tão estranha, quase a roçar a hesitação e a tristeza. As minhas palavras nunca foram hesitantes. Antes, são animadas de uma espécie de movimento browniano, pois ora tergiverso, ora ensaio solilóquios dignos de nota de um logomaníaco, mas nunca...
Tu/Ela: "Hmmm, vais dizer nunca circunlóquios."
Alexandre: "Precisamente. E como sabes tu isso, Azul?"
Tu/Ela: "Ora, é manifestamente simples: (...)")

E agora entreteço os meus sentidos a escutar Arvo Pärt. Für Alina. Para Alina. Nos livros do Vila-Matas há (quase) sempre a Paula de Parma. Nos meus, apenas essa ausência muito demorada e que se prolonga até aos capítulos finais sem nunca ser resolvida. Nos meus livros apenas a tua memória, páginas e páginas escondidas bem no fundo de uma gaveta. E, talvez também a identidade daquele que outrora foi o homem mais feliz do mundo. Pois tinha desenhado a palavra Sol na palma da minha mão. Tu beijava-la e uma flor impacientava-se por arborescer no meu peito, um cardume de peixes fosforescentes animava o meu rosto e um sorriso acercava-se de mim como se aqui quisesse viver para sempre.

E agora? Agora apenas esta mudez de silício e germânio. Esta mudez de quadro branco onde ninguém ousará escrever outra equação. Não me atrevo a espreitar para o fundo da gaveta. Cobre-me uma ansiedade mínima apenas de pensar no que terá crescido a partir das minhas palavras. Flores daninhas? Um ou outro cancro avermelhado, iracundo? Como se ao reler novamente aquelas três centenas de páginas o seu flogisto despertasse e, por fim, me queimasse numa sarça ardente que já não poderei sustentar.

III Bienal de Silves


6 de abril de 2008

Miasmas de Tédio

O blogue vai entrar de férias. Quando regressa? Quando acabar de ler o "Against the day", do Thomas Pynchon. E qundo irei começá-lo? Talvez hoje, talvez amanhã. Talvez daqui a umas semanas. Não sei bem. Creio que me apetece começar a ler hoje, ou talvez reler "Na Patagónia", do Chatwin. Toi, toi m'épuise! Ou, "It's always night, or we wouldn't need light" (Thelonious Monk; abre o livro supracitado).


Até daqui a ~1200 páginas de letra miudinha.

5 de abril de 2008

Enfiar o Sol na algibeira como uma carta de amor distraída



"Aos níveis geradores da metáfora, do mito, do riso, onde as artes e as construções decrépitas dos sistemas filosóficos nos faltam, a ciência continua activa. Quando nos aproximamos das suas regiões mais confusas, eis que vemos despontar uma elegância de raiz, um espírito ágil e cheio de frescura. Pense-se no Teorema de Banach-Tarski segundo o qual o Sol e uma ervilha podem ser divididos num número finito de partes discretas, de tal modo que a cada parte distinta de um corresponda uma única parte distinta da outra. A consequência indubitável é que podemos enfiar o Sol na algibeira do casaco e que as partes que compõem a ervilha poderão encher constantemente o universo, sem que sobre qualquer espaço vazio nem no universo nem no interior do grão. Que fantasia surrealista cria outra maravilha mais precisa?"

George Steiner, "No castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição da cultura", Relógio d'Água

[Na imagem: ilustração de "A princesa e a ervilha", conto de Hans Christian Andersen ]


2 de abril de 2008

Escherichia Colleen

"Colibactérias?"
"Não, Colleen, amanhã, 3 de Abril pelas 21h30 no Teatro Académico de Gil Vicente (Coimbra)"

Vês, Matilde? Aqui tens a tua nebulosa



Na imagem deixo-te a nebulosa da pata de gato* (NGC 6334). Podes clicar na imagem para aumentá-la.
Trata-se de uma nebulosa de emissão que dista cerca de 5500 anos-luz de distância.

Créditos fotográficos: T. A. Rector (U. Alaska), T. Abbott, NOAO, AURA, NSF



* Ou deverei dizer "nebulosa da pata do Lobo Mau"?

Rödluvan II



Nariz adunco, pernas arqueadas, trejeitos de menina em idade própria de traquinices madraças, seios esculpidos por um franzino vigor da natureza, mamilos dúcteis roçagando a minha imaginação, flores violáceas a crescer nos teus cabelos como nenúfares nos pulmões da Chloé em L'Écume des jours, justamente a trepar como araliáceas reunindo divindades na curva mais elíptica do teu pescoço e sorriso rasgado-rasgadíssimo a destoar com os teus gestos alvoraçados. Não foi por acaso que soltaste um sorriso de magarefe com cerca de uma vintena e meia de dentes ao léu, ao mesmo tempo que nivelavas as rugas do vestido e, oh! distraidamente, deixavas lobrigar outro tipo de curvas menos elípticas, menos algébricas, mais concupiscentes. Desenhei no ar hipotrocóides – sim, leste bem – ensaiando os voltejos com que as polpas dos meus dedos delimitariam territórios a reconhecer nessa pele de astuta tessitura que até o ar em seu redor aveludava – raminhos de alecrim e de electricidade na minha intricada estrutura sensorial deflagraram com rubor estendendo-se às faces do rosto. É só então que me apercebo dos teus desígnios: acabadinha de te escapulires de um conto de Perrault, esse teu físico tíbio não foi embaraço para despojares a Capuchinho Vermelho do seu casaco encarnado de sextas-à-noite-na-floresta-de-abetos-a-30-euros-meia-hora e, ostentando-o na minha presença, soberba e lúbrica, apressavas-te a desunir a pele ao Lobo Mau. Recuei dali com um uivo hiante e, já sem fôlego de tanto palavreado malsão, apenas houve tempo para em pasmo contemplar a forma como folheavas uma revista, desvendando que as unhas das tuas mãos durante este tempo todo estiveram tingidas de vermelho veneziano, cujo tripleto de cor no espaço-RGB é (200, 8, 21).