25 de agosto de 2008
8 de agosto de 2008
23 de julho de 2008
15 de julho de 2008
Drommar Ibland

[Voyager 1, 14/2/1990, 4 milhões de milhas]

[A imagem anterior, desta feita ampliada; o ponto esmaecido que se encontra na faixa castanha da direita é o planeta Terra - deverás clicar para ampliá-lo, Azul]

[A minha casa, vista da Cassini orbitando as orelhas moucas de Galileu, 15/9/2006]
Nem chega a um pixel
14 de julho de 2008
Hey, that's no way to say goodbye.
I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,Hey, that's no way to say goodbye.
Sábado, 19 de Julho, no Passeio Marítimo de Algés.
A propósito das madeixas que teimam em crescer em nuvens em agregados de matéria I
A propósito das madeixas que teimam em crescer em nuvens em agregados de matéria.
Não me recordo bem da amplitude dos gestos (os dedos enregelados bem fundo nos bolsos, um fundilho talvez roto ou com cotão) um cigarro preso nos lábios sem ter coragem de o acender. O espaço repartido por mais três ou quatro pessoas. Aquele espaço. Eu convidava a loucura que preenchia os interstícios do fibrado do espaço-tempo (ah! só um louco poderia afirmar isto) a transpor uma barreira quase invisível, uma cortina de água tépida, um convite ao entorpecimento. Chorava. Por mim. Pelas estrelas imóveis irremediavelmente pregadas a um céu demasiadamente azul. Pelas palavras que nunca cheguei a dizer. Chorava porque os meus lábios privados de sal, de afecto, de cor, insurgiam-se finalmente.
Não, não era o desejo do abismo que havia em mim. Os abismos não nos procuram, nem nós os queremos encontrar.
13 de julho de 2008
Caixa de Ressonância V
A rapariga que acentuava os advérbios de modo certo dia perguntou-me como era capaz de escutar ópera em altos berros no carro. Mesmo assim eu gostava dela – sabia que esta secretamente se comovia com os prelúdios de Wagner.
(Elsa de Brabante: nunca poderás questionar ao filho de Parsifal a sua identidade)
Palavras-chave: Caixa de ressonância
Liçóes de Astrofísica V: "Everything is blue in the world" (até o Sol)

Imagem (provavelmente) da sonda SOHO.
Palavras-chave: Azul, Lições de Astrofísica
Caixa de ressonância III
Por vezes o gato que era eu espreitava essa rapariga a regar as sardinheiras nos vasos paralelepipédicos a desafiar a gravidade.
Palavras-chave: Caixa de ressonância
Caixa de ressonância II
Encontrava essa rapariga que acentuava os advérbios em muitos sonhos, em muitas bibliotecas e, por vezes, até no supermercado: ela escolhia algumas ervas aromáticas (e eu só podia supor que era para o chá) e eu ficava ali escondido, manso e intrigado em doses cuidadosamente proporcionais segundo a razão de ouro dos arquitectos gregos, uma espécie de gato negro prestes a usar todo o conhecimento das leis da natureza na sua impulsão pelas quatro patas e a cauda a gesticular como a batuta invisível de um maestro conduzindo o holandês do Der fliegende Holländer. Um gato melómano que não trocaria Wagner e meia garrafa de Stolichnaya por todo o Paládio do mundo.
Palavras-chave: Caixa de ressonância
Caixa de ressonância I
Era uma rapariga que acentuava os advérbios de modo. Deixava que estes saíssem pela boca e voltassem a entrar pelos ouvidos dos que a rodeavam, talvez na esperança que estes depois retornassem às suas narinas pois é certo que as palavras fazem vibrar as moléculas do ar quando não são apenas esta tinta mesquinha e têm voz. Esses advérbios de modo com a desusada acentuação que o caracterizavam eram abelhas que polinizavam flores e causavam-me cócegas, talvez localizadas nos lóbulos das orelhas, cócegas que se estendiam através das ramificações e eram amplificadas por uma estrutura que desconheço a sua origem, mas que devo talvez chamar-lhe de coração. Ou fígado. A rapariga que acentuava os advérbios de modo por vezes abusava dos estribilhos, mas também essas repetições me faziam titilar os lóbulos das orelhas, não me queixava das suas repetições, apenas dos seus advérbios de modo que por vezes me faziam espirrar.
Palavras-chave: Caixa de ressonância
13 de junho de 2008
2. Apatia (antes)
Deu-lhe dois beijos rápidos, roçando a face de forma fugaz para que não sentisse o seu cheiro. Entrou emocionado porta adentro. Notou que esse riso lhe fazia falta, esse riso claro e gratuito, sem concessões. Porém, quando se recordava dela não evocava o seu riso, era outra coisa que surgia nos momentos mais improváveis, algo intangível, que não vem desenhado nos livros mas que poderíamos designar por “epifania", à falta de uma designação mais justa. Embora mais velho que ela, sentia-se sempre uma criança a seu lado. Resignou-se a sentar muito quieto numa ponta do sofá, não sem antes admirar a arrumação da sua sala. Verbalizou-o – não era conversa de circunstância: a sua casa apaziguava-o. Ela quedou-se pela outra ponta, também imóvel. Sabia que, afinal de contas, nenhum deles nutria alguma coisa pelo outro. Guardava-lhe um enorme carinho no coração, era o que ele costumava afirmar. Ela nunca o amou, dizia para consigo, e embora a tenha amado era apenas o seu embaixador que ali se encontrava e não ele próprio – apeteceu-lhe dizer: "Não, doravante não me irás tratar por Alexandre. Call me Ismael. Esse é o nome do carcereiro que me enclausura”. Talvez devesse ter falado da alteridade. Do outro que há em nós. Talvez de Camus. Porque não? Mas isso iria criar uma série de equívocos. Ele queria apenas fruir da sua companhia e não se alcandorar em referências óbvias ou permitir-lhe que o acusasse de viver num mundo lírico. Era verdade que ele tinha abandonado o mundo e agora construía as suas próprias regras. Somente fingir que se encontrava ali. Já não se interessava por muita coisa. Dizem que tinha perdido a fé. Prendeu a mão entre as almofadas. Talvez estivesse nervoso. Apetecia-lhe acender um dos charutos que tinha trazido. E soprar o fumo para as suas costas. fffffffffff como onomatopeia. E de seguida pousar os seus lábios. Nas costas. A pele. As coxas. Apetecia sorrir-lhe, como costumava sorrir para ela. Talvez a tivesse amado em demasia. Ou como imaginava ter sorrido para ela. Já tinha visto aquele filme. Agnés Jaoui e o careca de bigode de cujo nome não se recorda (Messieur Castela – com um ou dois l’s?). Talvez ela não se enternecesse por ele. Pelo filme, bem entendido. Creio que talvez já não a conhecesse bem. Continuava bonita. Era uma estranha para ele. Lábios pequeninos, orelhas pequeninas, quase tudo em ponto pequeno, numa delicada simetria liliputiana. Estava a ganhar um pouco de volume no seu traseiro. Uma vez fez-lhe um comentário sobre o seu corpo e ela não gostou. A história deles estava eivada de equívocos. Mesmo agora, se ela lesse essas palavras iria sentir-se magoada pelas referências em duas mensagens ao seu traseiro. Ele achava a emergência das suas rugas como algo de belo. Adorava as suas olheiras. Sempre gostou de mulheres com insónias. Que tornavam a noite presente, em suma, como Maurice Blanchot terá afirmado. Recordo-me bem que ele adorava as suas costas: era o seu violino de Ingrès. Creio que o terá dito algumas vezes, enquanto faziam amor. Bem sei que não abona nada à sua originalidade, mas ao pé dela tornava-se algo tímido e comedido nas palavras, revelando-se apenas de forma sexual. Gostava de lhe chamar de “princesa da Entropia”. É algo de rebuscado, não é? Creio que talvez acreditasse que toda a palavra seria redundante, quando a sua língua articulava elipses consumindo-se no seu sexo. Tinha pintado o cabelo: agora era morena. Pareceu-lhe amenizada pela noite. Não perguntou se era feliz. Tinha prometido a si mesmo nunca mais lhe questionar acerca disso. Havia estrelas. O triângulo de Verão. Vénus. A Ursula Andress (era como cogitava na Ursa-maior-rabo-de-frigideira). E a Cassiopeia, cadeira, éme ou dahbliú. Mentiu-lhe. Três vezes. Altair, Deneb e Vega. Em duas das ocasiões fingiu que acreditava nela. Era um jogo que a divertia. Na realidade não se incomodou. Era apenas um jogo, já disse? Fazia parte da sua faceta lúdica e pouco mais. Talvez tivesse gostado de ouvir mentiras a noite inteira. Reparou que estacionava o carro quase tão mal como ele. O certo é que ele tinha sempre imensos acidentes quando conduzia a seu lado. Esmurradelas, o pneu furado ao aproximar-se da berma do passeio, o carro atirado por um pequeno declive. Ao telefone a voz dela tinha um timbre nervoso. Era raro concordarem sobre vinhos. Como se fossem novamente estranhos. Creio que ela não o irá acompanhar à Ópera quando for a Paris assistir a Tristão e Isolda. Antes falou-lhe disso. Ela perguntou-lhe algo sobre matéria protocolar. Talvez tenham esgrimido argumentos sobre algumas coisas que não ficaram bem resolvidas. Recordou-se que a única vez que foram juntos ao cinema foi para ver Saraband ao Alvaláxia(!). Não era verdade pois tinham visto outro filme mais recentemente. Ela não tinha gostado. Do filme do Bergman. Ele tinha repousado a sua cabeça no seu colo enquanto ela afagava o seu cabelo. Num banco do centro comercial. Era feliz. Não necessitava de muito: andava com uma T-shirt coçada e uns sapatos quase rotos. Por vezes vestia-se impecavelmente. Ainda agora costuma afirmar que tem um gosto irrepreensível por camisas. Julgo ser verdade. Mas, ainda a propósito da indumentária, Silje costumava interrogá-lo como era possível alguém ter a desfaçatez de vestir três tons diferentes de castanho nas suas peças de roupa. Na altura usava rabo-de-cavalo. Durante três anos não cortou o seu cabelo. Não se percebe bem porquê. Até porque se considerava uma pessoa com algum low profile, sempre disposto a passar incógnito. Há quem diga que foi por preguiça. Outros terão outras teorias mais rebuscadas, eu não sei o que acreditar, não me interessa muito. Chegou a casa. Tinha-se despedido com dois beijos ainda mais fugidios. Durante a noite inteira não a desejou. Pela primeira vez na vida tinha-se protegido mais do que esperaria. Sentiu-se insensível. Não mais interessante do ponto de vista evolutivo que uma barata. Agora masturbava-se várias vezes. Para compensar a ausência da noite. Por fim escreveu-lhe uma carta. Os dedos orlados por uma carapaça esbranquiçada ditavam:
“Ao passar timidamente a ombreira da porta fui outra vez o teu amante, porque foi convocada à minha memória a imagem do teu corpo bem rente ao meu, as minhas mãos enlaçando-se nas tuas costas e o meu abraço muito muito forte com medo de te perder.”
Tinha sido uma noite de banalidades. Obrigava-se de há uns meses a esta parte a ser banal. Como se se comprazesse com isso. Fui me deitar e não fiquei a saber como termina a carta. Sei apenas que não chegará a enviá-la.
1. Após
E no entanto, ao regressar a casa com os olhos agredidos pelos faróis, galgou rapidamente os lanços das escadas que o separavam do quarto para remeter-se à volúpia enleante dos lençóis sem sequer preocupar-se a ler parte das páginas designadas até que o sono sobreviesse, não podendo evitar que o seu sexo crescesse entre os dedos, numa erecção imódica e iracunda que a noite até então tinha contido. Enquanto o dia clareava, ácido e inflamado, dedicou aqueles minutos de vigília a masturbar-se várias vezes, certamente forçado pela imanência da electricidade daquela mulher a disparar estímulos vertiginosos e furiosos em tudo quanto era axónio. Primeiro, foram os seus mamilos eriçados coroando aqueles gratos seios que o fizeram jorrar, deixando escorrer indolentemente o sémen pela palma da mão, pelos dedos, imaginando que a viscosidade não o impediria de chegar às cutículas. Depois, discorriam no seu espírito as imagens daquelas ancas férteis onde os seus pulsos adoravam jazer após o embate que era entrar nesse corpo de alabastro e sentir a tessitura do seu sexo a suster-lhe a respiração como um lenço de veludo impregnado de um odor muito forte dentro da sua garganta, asfixiando-o, impelindo-o a penetrá-la de forma ainda mais intensa, como se a quisesse ferir de morte, puxando-a com denodo para si, cravando-lhe as mãos nos seus quadris, beliscando-lhe as nádegas, deixando-a trémula e abandonada até que o seu próprio corpo ficasse completamente repassado e coberto por um manto sudativo, o silêncio meditativo quando fazia amor interrompido apenas pelo som árduo da sua respiração e de quando em vez da resistência que os dentes encontravam ao morder-lhe a nuca, e finalmente não conseguiu suster aquele esgar que tão fielmente reproduzia o esgar contido quando este se vinha e que das primeiras vezes que estiveram juntos a deixara agradavelmente surpreendida. E, após mais uma breve pausa, a imaginar que a vestia – porque sempre lhe deu mais prazer vesti-la do que desnudá-la – meio entontecida, ainda febril e eléctrica, gotejando abundante entre as pernas, tentando invocar à memória aquele seu movimento rítmico das ancas quando lhe enfiava as calças justas, moldando-lhe as formas (não pôde deixar de pensar como o seu traseiro estava um pouco mais gordo e isso fez-lhe sorrir com ternura, cremos), qual dança que tivesse sido inventada apenas para proveito deles, teve ainda tempo para pensar que talvez ainda a adorasse em demasia. Fez então repetir os gestos de uma coreografia para a gastar, para que esta saísse da sua linfa, para que vertesse para os lençóis absurdamente alvos, para que secasse entre os interstícios dos dedos, como sucedia agora ao seu sémen, num acto de purga. Não sabemos se foi bem sucedido
26 de maio de 2008
Depois não digam que não tive a decência de vos avisar
Hoje estarei de acordo (talvez)
"Reading maketh a full man; conference a ready man; and writing an exact man."
Palavras-chave: Tidsmakin
19 de maio de 2008
O Sabor da Melancia

O Sabor da Melancia (Tian bian yi duo yun), é já daqui a pouco (21h30) no TAGV. O filme é de Ming-Liang Tsai e conta no seu elenco com Kang-sheng Lee, Shiang-chyi Chen e Yi-Ching Lu.
Palavras-chave: Imago Mundi
25 de abril de 2008
22 de abril de 2008
Um musaranho em Novosibirsk espirrou tendo causado a morte de Lorenz aos 90 anos

17 de abril de 2008
Fora de contexto
É evidente que um corte dedekindiano irracional é algo que, de certo modo, "representa" um número irracional.
Por vezes floresce V

Palavras-chave: Por vezes floresce
Por vezes floresce IV (duas flores quasi-actinomorfas)

"A realidade objectiva é um construto sintético, que lida com uma universalização hipotética de múltiplas realidades subjectivas" (assim alardeia Mr. Poole in "A formiga eléctrica", Philip K. Dick)
Um par de flores filtradas pela objectiva do telemóvel. Um detalhe em que só agora reparo: a abelha em tarefa de polinização. E o nome das flores, que se escapa à ponta da língua, em vertiginosa dinâmica demoníaca. Não são margaridas, nem crisântemos, pois não?
Palavras-chave: Por vezes floresce
Por vezes floresce I
[Post in memorium Arthur C. Clarke (16/12/1917–19/3/2008)]
Palavras-chave: Por vezes floresce
Os dentes nos mamilos a bailarina à minha porta
Os navios são títulos podres nos dentes do mar dos Sargaços e tu eras o meu complexo conjugado em dias de sede e as minhas membranas teciam mariposas nos teus mamilos eras a minha ausência ressonante de copos de cristal em insensato movimento oscilatório um dilúvio de sinais ortográficos uma sacudidela despertando movimentos elipsoidais o movimento de nutação do pião a bailarina que efectua ainda um último fouetté en tournant sonhando com a liberdade dos giroscópios a última réstia de luz a que improvisa brancas de neve as mesmas que não ousaram derramar uma gota de sangue para não assustar o rançado silêncio que contava com as permutações de uma fiadeira que por erro de casting não conseguiu aparecer num conto do Tchékhov
mas que
Os navios são títulos podres nos dentes a mar gos
e a vigência dos dentes são incorporações e s
cotilhas pelas small daily things c ya
a indisponibilidade dos bichos colhidos no final das petulâncias e guardados em pérgulas pela cabotagem dos pomares oblíquos
deixa as maçãs polpudas
a improvisar brancas de neve insufláveis
em alto teor de vermelho ]
Borboletear
É o que faço defronte da luz trémula do monitor, antes de dormir. Antes de dormir! Ah, se eu pudesse dormir. Se tu pudesses acolher-me nos teus braços e eu pudesse voltar a ser frágil, tropeçando nos teus olhos e levando à minha boca os mais puros adjectivos de sal quando sou língua e tu apenas poros. Antes de dormir. Antes de uma mensagem tua brunir no meu telemóvel. Oh, doce trinado das aves, oh maravilhosa surpresa.
(Tu/Ela: "E, amor, como é que se diz "Amor" em Estoniano?"
Alexandre: "Armastus. Mas é uma palavra tão estranha, quase a roçar a hesitação e a tristeza. As minhas palavras nunca foram hesitantes. Antes, são animadas de uma espécie de movimento browniano, pois ora tergiverso, ora ensaio solilóquios dignos de nota de um logomaníaco, mas nunca...
Tu/Ela: "Hmmm, vais dizer nunca circunlóquios."
Alexandre: "Precisamente. E como sabes tu isso, Azul?"
Tu/Ela: "Ora, é manifestamente simples: (...)")
E agora entreteço os meus sentidos a escutar Arvo Pärt. Für Alina. Para Alina. Nos livros do Vila-Matas há (quase) sempre a Paula de Parma. Nos meus, apenas essa ausência muito demorada e que se prolonga até aos capítulos finais sem nunca ser resolvida. Nos meus livros apenas a tua memória, páginas e páginas escondidas bem no fundo de uma gaveta. E, talvez também a identidade daquele que outrora foi o homem mais feliz do mundo. Pois tinha desenhado a palavra Sol na palma da minha mão. Tu beijava-la e uma flor impacientava-se por arborescer no meu peito, um cardume de peixes fosforescentes animava o meu rosto e um sorriso acercava-se de mim como se aqui quisesse viver para sempre.
E agora? Agora apenas esta mudez de silício e germânio. Esta mudez de quadro branco onde ninguém ousará escrever outra equação. Não me atrevo a espreitar para o fundo da gaveta. Cobre-me uma ansiedade mínima apenas de pensar no que terá crescido a partir das minhas palavras. Flores daninhas? Um ou outro cancro avermelhado, iracundo? Como se ao reler novamente aquelas três centenas de páginas o seu flogisto despertasse e, por fim, me queimasse numa sarça ardente que já não poderei sustentar.
6 de abril de 2008
Miasmas de Tédio
Até daqui a ~1200 páginas de letra miudinha.
Palavras-chave: Literatura
5 de abril de 2008
Enfiar o Sol na algibeira como uma carta de amor distraída
"Aos níveis geradores da metáfora, do mito, do riso, onde as artes e as construções decrépitas dos sistemas filosóficos nos faltam, a ciência continua activa. Quando nos aproximamos das suas regiões mais confusas, eis que vemos despontar uma elegância de raiz, um espírito ágil e cheio de frescura. Pense-se no Teorema de Banach-Tarski segundo o qual o Sol e uma ervilha podem ser divididos num número finito de partes discretas, de tal modo que a cada parte distinta de um corresponda uma única parte distinta da outra. A consequência indubitável é que podemos enfiar o Sol na algibeira do casaco e que as partes que compõem a ervilha poderão encher constantemente o universo, sem que sobre qualquer espaço vazio nem no universo nem no interior do grão. Que fantasia surrealista cria outra maravilha mais precisa?"George Steiner, "No castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição da cultura", Relógio d'Água[Na imagem: ilustração de "A princesa e a ervilha", conto de Hans Christian Andersen ]
2 de abril de 2008
Escherichia Colleen
"Colibactérias?"
"Não, Colleen, amanhã, 3 de Abril pelas 21h30 no Teatro Académico de Gil Vicente (Coimbra)"
Vês, Matilde? Aqui tens a tua nebulosa
Trata-se de uma nebulosa de emissão que dista cerca de 5500 anos-luz de distância.
Créditos fotográficos: T. A. Rector (U. Alaska), T. Abbott, NOAO, AURA, NSF
Palavras-chave: Imago Mundi
Rödluvan II
Nariz adunco, pernas arqueadas, trejeitos de menina em idade própria de traquinices madraças, seios esculpidos por um franzino vigor da natureza, mamilos dúcteis roçagando a minha imaginação, flores violáceas a crescer nos teus cabelos como nenúfares nos pulmões da Chloé em L'Écume des jours, justamente a trepar como araliáceas reunindo divindades na curva mais elíptica do teu pescoço e sorriso rasgado-rasgadíssimo a destoar com os teus gestos alvoraçados. Não foi por acaso que soltaste um sorriso de magarefe com cerca de uma vintena e meia de dentes ao léu, ao mesmo tempo que nivelavas as rugas do vestido e, oh! distraidamente, deixavas lobrigar outro tipo de curvas menos elípticas, menos algébricas, mais concupiscentes. Desenhei no ar hipotrocóides – sim, leste bem – ensaiando os voltejos com que as polpas dos meus dedos delimitariam territórios a reconhecer nessa pele de astuta tessitura que até o ar em seu redor aveludava – raminhos de alecrim e de electricidade na minha intricada estrutura sensorial deflagraram com rubor estendendo-se às faces do rosto. É só então que me apercebo dos teus desígnios: acabadinha de te escapulires de um conto de Perrault, esse teu físico tíbio não foi embaraço para despojares a Capuchinho Vermelho do seu casaco encarnado de sextas-à-noite-na-floresta-de-abetos-a-30-euros-meia-hora e, ostentando-o na minha presença, soberba e lúbrica, apressavas-te a desunir a pele ao Lobo Mau. Recuei dali com um uivo hiante e, já sem fôlego de tanto palavreado malsão, apenas houve tempo para em pasmo contemplar a forma como folheavas uma revista, desvendando que as unhas das tuas mãos durante este tempo todo estiveram tingidas de vermelho veneziano, cujo tripleto de cor no espaço-RGB é (200, 8, 21).
Rödluvan I
Rödluvan: Men mormor, varför har du så stora ögon?
"Mormor": Det är bara för att jag skall se dig bättre, mitt barn.
Rödluvan: Men mormor, varför har du så stora öron?
"Mormor": Det är bara för att jag skall höra dig bättre, mitt barn.
Rödluvan: Men mormor, varför har du så stora tänder?
"Mormor": Det är bara för att jag skall kunna äta upp dig!
1 de abril de 2008
Ordet
Em resposta a vários leitores do blogue que reagiram ao facto de não poderem fazer comentários sobre as mensagens do mesmo, a minha justificação é sucinta: não podem mesmo porque não quero. Acreditem que a minha crítica seria bem mais dilacerante que qualquer comentário que pudessem fazer. Não se trata disso. A razão pela qual não permito comentários é porque a lógica que irmana do facto de haver essa interacção me desgasta e cansa. Já no passado tive um blogue anónimo em que pululavam comentários de toda a espécie e feitio. Cansei-me desse matraquear sem consequências. Já não bastará a minha logomania e a minha palavrosidade em obscena redundância? Já não bastarão as minhas palavras andarem por aí desgarradas, à mercê de qualquer alma que as possa ler? Bastará também discutir cada uma destas? Deixo essa interacção com os leitores ou os passantes para a caixinha de correio electrónico - isto quando me lembro de responder.
Para não afirmarem que tenho mau-feitio, deixo-vos aqui uma caixinha de comentários ou uma espécie de livro de visitas. Vá, escrevam o que vos apetecer, sempre que vos apetecer. Ou então não escrevam nada - limitem-se a passar por aqui e talvez sorrir. Somos sempre mais quando despertamos um sorriso em outrem. Mesmo que desconhecido.
27 de março de 2008

"O projecto poético “5 aranhiças” apresenta a partir de sexta-feira, dia 21 de Março, no Café com Arte e no Feito Conceito em Coimbra, a 1ª “expoemização” (exposição de poemas) intitulada “aranhiças & elefantes”, um evento que pretende celebrar o Dia Internacional da Poesia de uma forma diferente. Nesta exposição convidamos quem visita a ler poesia contemporânea escrita pelas poetas integrantes do projecto “aranhiças” e também pelos poetas da “Oficina de Poesia” de Coimbra.
Esta exposição estará patente durante uma semana e é composta por duas vertentes:
os “poemendurados”, que, como o nome indica, são literalmente poemas pendurados pelo espaço dos 2 bares,
e os “poemas take-away”, poemas publicados na Revista “Oficina de Poesia”, em formato de postal, que convidamos as pessoas a lerem e a levarem consigo.
Convidamos também todos/as os/as interessados a participar no projecto “5aranhiças” através do blog www.3aranhicas.blogspot.com
Visitem a exposição e que a divulguem pelos vossos contactos!
Obrigada!
segue o cardápio da expoemização, e em anexo, um dos cartazes
cardápio da I expoemização das aranhiças& elefantes
Março.2008
Café com Arte
Feito Conceito
(Coimbra)
poemendurados
aNa B
bruno m. santos
cristina néry
franscisca bicho
joão alberto
jorge fragoso
liliana vasques
rita grácio
teresa fonseca
poemas take-away
aranhiças&elefantes
Oficina de Poesia
imagem
joana rita
Lança a tua teia!
www.3aranhicas.blogspot.com"
Borges dixit
26 de março de 2008
O amigo Steiner
Sentindo-se na necessidade de escrever alguma história mirabolante, mas real - da qual não acreditarias nunca, de resto -, decidiu ler de um só fôlego o livro comprado numa feira de saldos da Bertrand. De mãos enclavinhadas e deixando escapar um sorriso que convida à malícia, disse a si próprio que daqui a pouco iria urdir um comentário pretensamente espirituoso sobre uma certa personagem Steiner que se alcandora nos píncaros da sua imaginação e, depois, ah... depois!
Post Scriptum - E escusas de bradar a propos da péssima imagem; ganhei um asco tal às imagens que agora só coloco coisas ruidosas, cheias de grão, infectas, purulentas. Bref: comme la vie, on peut dire.
20 de março de 2008
Primavera
Deve ser assim que começa um texto: invocando o Sol e uma chuva miudinha de fotões a salpicar promessas para o rosto. Os teus olhos, imagino-os eu, a encastelarem-se nas nuvens, reféns de adjectivos que foram sendo laboriosamente escolhidos de um dicionário de lombadas castanhas. As caducifólias há muito que não desprendem as suas folhas; essas, as do calendário, volvi-as hoje com um rompante brusco – aquele que tu conheces quando entro em ti e o teu corpo se cinde em dois e, pernas frondosas num amplexo estelar de árvore, reinvento o vocabulário da Botânica – anuncia a Primavera com gargalhadas muito ridentes e vi fotografias de flores, falaram-me de como está um pouco mais frio que o desejável e de que amanhã é dia de poesia e eu gostaria tanto de voltar a escrever um poema para ti. Vês? Comprei um caderninho de molesquina (sabes que me arruino de meiguice e desvelo por esta palavra tão estranha, tão redonda, a prometer a textura da tua pele e gorgolejos de palavras, sussurros quando em meus braços te sentias guardada) e pretendo talvez um dia destes abri-lo finalmente após uma interminável espera ditada pela minha timidez e regressar a um dia de Setembro. E chamar-te outra vez de Primavera.
14 de março de 2008
Till Anita
"Só na Islândia uma pessoa está verdadeiramente só e os grandes espaços despovoados e desertos transmitem ao espírito parte da sua terrível calma. Era como ouvir uma música nobre mas mesmo assim muito confusa e difícil de seguir."
- W. H. Auden
13 de março de 2008
Södermalm I
Saudades dos dias em Södermalm com todo o tempo do mundo a espreitar a lonjura dos dias. E por vezes fazia Sol e despontava em mim um sorriso brando, bravio, um sorriso conspirativo que a pátina do tempo jamais iria fazer desaparecer, pois estavas ao meu lado e tinhas toda a ternura celeste para mim, essa candura de astro que só mais tarde iria subir legível à minha boca com palavras rebentando como romãs maduras. Essa candura, esse afogueamento que nos surge sempre sob a forma inesperada de uma mulher, esse febril acicatar que nos tem o condão de revisitar quando tudo o que a nossa vista quer assomar são somente palavras e gestos condenados ao vazio – e de súbito há uma redenção, há uma explosão, adiantada apenas por breves prenúncios como o eléctrico crepitar do ar à nossa volta e um curto ribombar que antecede o eflúvio de emoções e é então que tudo despoleta. Tudo.
Palavras-chave: Södermalm
O protão inefável
"É assim que este livro começa: com um protão. É certo que não se trata de nenhum protão em particular. Não é um protão que tenha prestado valorosos serviços à Pátria. Não é um protão que se tenha distinguido nos 110 metros barreiras ou no salto em altura. Ou mesmo um protão literário, da cepa dos Nobel mais controversos (asseguro-vos que este protão não sabe sequer alinhavar uma breve linha). Se as suas origens não são nobilitárias também não serão indigentes – este protão não anda nas ruas da amargura esquadrinhando o pavimento à procura de beatas perdidas ou prostrando-se às esquinas de outras ruas (escusas mas igualmente amargas) com a indumentária típica dessas licenciosas putas mal amanhadas à espera de um cliente odioso. É apenas um protão sem nada de singular a registar pois, de resto, ele nem faz parte da estrutura nuclear dos átomos que por sua vez compõem as moléculas da tinta que cinzela estes caracteres negríssimos. E muito menos da carne ígnea que encamisa os meus ossos, registe-se. Nada disso: é única e simplesmente uma minúscula partícula de massa indistinguível de outras tantas (...)"
À Miss A.
Devo dizer-lhe que fiquei surpreendido ao consultar o meu dicionário e, na entrada referente ao seu nome, vir lá que se trata de uma variedade de pêra. Admito a minha ignorância sobre o assunto: é que até à data só conhecia a pêra rocha, a duchesse d'Angoulème, a francesa, a Joaquina, a pérola... Mas nunca a poderia imaginar como uma rotunda pêra. Como um citrino ou um fruto silvestre, ainda-vá-que-não-vá, mas nunca como uma vitaminada pêra cheia de ácido ascórbico e riboflavina. Em todo o caso não se abespinhe e fique a saber, Miss A., que o mesmíssimo e ignoto dicionário desconhece o meu nome, portanto não se coloque já a insultar o pobre do António de Morais Silva.
Deste que o estima,Propus várias soluções; todas insuficientes. Discutimo-las; por fim, Stephen Albert disse-me:
— Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida? Reflecti um momento e respondi:
— A palavra xadrez.
— Precisamente – disse Albert. – O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma enorme adivinha, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção do seu nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é talvez o modo mais enfático de indicá-la. É o modo tortuoso que proferiu, em cada um dos meandros do seu infatigável romance, o oblíquo Ts’ui Pên. Comparei centenas de manuscritos, corrigi os erros que a negligência dos copistas introduziu, conjecturei o plano desse caos, julguei estabelecer a ordem primordial, traduzi a obra inteira: resulta-me que não emprega uma única vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts’ui Pên. Ao contrário de Newton e de Schopenhaeur, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurcam e se cortam ou que se secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe você e eu não; noutros, eu, e não você; noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.
— Em todos – articulei não sem um temor – eu agradeço e venero a sua recriação do jardim de Ts’ui Pên.
— Não em todos – murmurou com um sorriso. – O tempo bifurca-se perpetuamente na direcção de muitos futuros. Num deles sou seu inimigo.
Voltei a sentir aquela palpitação de que falei. Pareceu-me que o húmido jardim que rodeava a casa estava saturado até ao infinito de pessoas invisíveis. Essas pessoas eram Albert e eu, secretos, ocupadíssimos e multiformes noutras dimensões do tempo. Levantei os olhos e o ténue pesadelo dissipou-se. No amarelo e negro jardim havia um único homem; mas esse homem era forte como uma estátua, mas esse homem avançava pelo caminho e era o capitão Richard Madden.
— O futuro já existe – respondi, – mas eu sou seu amigo. Posso examinar outra vez a carta?
Albert levantou-se. Alto, abriu a gaveta da alta escrivaninha; virou-me por um momento as costas. Eu já tinha preparado o revólver. Disparei com extremo cuidado: Albert tombou sem um ai, imediatamente. Juro que a sua morte foi instantânea: uma fulminação.
O resto é irreal, insignificante. Nesse momento irrompeu Madden e prendeu-me. Fui condenado à forca. Abominavelmente ganhei: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem bombardearam-na; li-o nos mesmos jornais que propuseram à Inglaterra o enigma de o sábio sinólogo Stephen Albert ter morrido assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou este enigma. Sabe que o meu problema era indicar (através do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio senão matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) a minha inenarrável contrição e cansaço.
Mr. Aleph
12 de março de 2008
Azul mediterrânico
"Nul homme ne peut dire ce qu'il est. Mais il arrive qu'il puisse dire ce qu'il n'est pas. Celui qui cherche encore, on veut qu'il ait conclu. Mille voix lui annoncent déjà ce qu'il a trouvé et pourtant, il le sait, ce n'est pas cela. Chercher et laisser dire? Bien sûr. Mais il faut, de loin en loin, se défendre. Je ne sais pas que je cherche, je le nomme avec prudence, je me dédis, je me répète, j'avance et je recule. On m'enjoint pourtant de donner les noms, ou le nom, une fois pour toutes. Je me cabre alors; ce qui est nommé, n'est-il pas déjà perdu? Voilá du moins ce que je puis essayer de dire."
Albert Camus, L'énigme in L'été
10 de março de 2008
2 de março de 2008
La Notte

Grávido de cansaço, ainda fumou um Partagas, bebeu três ou quatro goles de cachaça e pensou, enquanto via La Notte, que de certa forma invejava as camisas brancas do Mastroianni (não as mulheres, porque tu foste sempre a minha Jeanne Moreau, a minha Monica Vitti) e em como certos planos faziam-lhe relembrar o Blow Up - nunca percebeste o meu encanto por esse filme, pois não, amor meu?

















