Um musaranho em Novosibirsk espirrou tendo causado a morte de Lorenz aos 90 anos

A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros? Curtíssimas histórias brumosas e de uma duplicidade assumida de um aprendiz de Šahrzād dos tempos modernos que nunca quis entender o que era a astúcia cavilosa dos dias.

É evidente que um corte dedekindiano irracional é algo que, de certo modo, "representa" um número irracional.

Palavras-chave: Por vezes floresce

"A realidade objectiva é um construto sintético, que lida com uma universalização hipotética de múltiplas realidades subjectivas" (assim alardeia Mr. Poole in "A formiga eléctrica", Philip K. Dick)
Um par de flores filtradas pela objectiva do telemóvel. Um detalhe em que só agora reparo: a abelha em tarefa de polinização. E o nome das flores, que se escapa à ponta da língua, em vertiginosa dinâmica demoníaca. Não são margaridas, nem crisântemos, pois não?
Palavras-chave: Por vezes floresce
Palavras-chave: Por vezes floresce
Os navios são títulos podres nos dentes do mar dos Sargaços e tu eras o meu complexo conjugado em dias de sede e as minhas membranas teciam mariposas nos teus mamilos eras a minha ausência ressonante de copos de cristal em insensato movimento oscilatório um dilúvio de sinais ortográficos uma sacudidela despertando movimentos elipsoidais o movimento de nutação do pião a bailarina que efectua ainda um último fouetté en tournant sonhando com a liberdade dos giroscópios a última réstia de luz a que improvisa brancas de neve as mesmas que não ousaram derramar uma gota de sangue para não assustar o rançado silêncio que contava com as permutações de uma fiadeira que por erro de casting não conseguiu aparecer num conto do Tchékhov
mas que
Os navios são títulos podres nos dentes a mar gos
e a vigência dos dentes são incorporações e s
cotilhas pelas small daily things c ya
a indisponibilidade dos bichos colhidos no final das petulâncias e guardados em pérgulas pela cabotagem dos pomares oblíquos
deixa as maçãs polpudas
a improvisar brancas de neve insufláveis
em alto teor de vermelho ]
Palavras-chave: Literatura
"Aos níveis geradores da metáfora, do mito, do riso, onde as artes e as construções decrépitas dos sistemas filosóficos nos faltam, a ciência continua activa. Quando nos aproximamos das suas regiões mais confusas, eis que vemos despontar uma elegância de raiz, um espírito ágil e cheio de frescura. Pense-se no Teorema de Banach-Tarski segundo o qual o Sol e uma ervilha podem ser divididos num número finito de partes discretas, de tal modo que a cada parte distinta de um corresponda uma única parte distinta da outra. A consequência indubitável é que podemos enfiar o Sol na algibeira do casaco e que as partes que compõem a ervilha poderão encher constantemente o universo, sem que sobre qualquer espaço vazio nem no universo nem no interior do grão. Que fantasia surrealista cria outra maravilha mais precisa?"George Steiner, "No castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição da cultura", Relógio d'Água[Na imagem: ilustração de "A princesa e a ervilha", conto de Hans Christian Andersen ]
"Colibactérias?"
"Não, Colleen, amanhã, 3 de Abril pelas 21h30 no Teatro Académico de Gil Vicente (Coimbra)"
Palavras-chave: Imago Mundi
Nariz adunco, pernas arqueadas, trejeitos de menina em idade própria de traquinices madraças, seios esculpidos por um franzino vigor da natureza, mamilos dúcteis roçagando a minha imaginação, flores violáceas a crescer nos teus cabelos como nenúfares nos pulmões da Chloé em L'Écume des jours, justamente a trepar como araliáceas reunindo divindades na curva mais elíptica do teu pescoço e sorriso rasgado-rasgadíssimo a destoar com os teus gestos alvoraçados. Não foi por acaso que soltaste um sorriso de magarefe com cerca de uma vintena e meia de dentes ao léu, ao mesmo tempo que nivelavas as rugas do vestido e, oh! distraidamente, deixavas lobrigar outro tipo de curvas menos elípticas, menos algébricas, mais concupiscentes. Desenhei no ar hipotrocóides – sim, leste bem – ensaiando os voltejos com que as polpas dos meus dedos delimitariam territórios a reconhecer nessa pele de astuta tessitura que até o ar em seu redor aveludava – raminhos de alecrim e de electricidade na minha intricada estrutura sensorial deflagraram com rubor estendendo-se às faces do rosto. É só então que me apercebo dos teus desígnios: acabadinha de te escapulires de um conto de Perrault, esse teu físico tíbio não foi embaraço para despojares a Capuchinho Vermelho do seu casaco encarnado de sextas-à-noite-na-floresta-de-abetos-a-30-euros-meia-hora e, ostentando-o na minha presença, soberba e lúbrica, apressavas-te a desunir a pele ao Lobo Mau. Recuei dali com um uivo hiante e, já sem fôlego de tanto palavreado malsão, apenas houve tempo para em pasmo contemplar a forma como folheavas uma revista, desvendando que as unhas das tuas mãos durante este tempo todo estiveram tingidas de vermelho veneziano, cujo tripleto de cor no espaço-RGB é (200, 8, 21).
Rödluvan: Men mormor, varför har du så stora ögon?
"Mormor": Det är bara för att jag skall se dig bättre, mitt barn.
Rödluvan: Men mormor, varför har du så stora öron?
"Mormor": Det är bara för att jag skall höra dig bättre, mitt barn.
Rödluvan: Men mormor, varför har du så stora tänder?
"Mormor": Det är bara för att jag skall kunna äta upp dig!

Deve ser assim que começa um texto: invocando o Sol e uma chuva miudinha de fotões a salpicar promessas para o rosto. Os teus olhos, imagino-os eu, a encastelarem-se nas nuvens, reféns de adjectivos que foram sendo laboriosamente escolhidos de um dicionário de lombadas castanhas. As caducifólias há muito que não desprendem as suas folhas; essas, as do calendário, volvi-as hoje com um rompante brusco – aquele que tu conheces quando entro em ti e o teu corpo se cinde em dois e, pernas frondosas num amplexo estelar de árvore, reinvento o vocabulário da Botânica – anuncia a Primavera com gargalhadas muito ridentes e vi fotografias de flores, falaram-me de como está um pouco mais frio que o desejável e de que amanhã é dia de poesia e eu gostaria tanto de voltar a escrever um poema para ti. Vês? Comprei um caderninho de molesquina (sabes que me arruino de meiguice e desvelo por esta palavra tão estranha, tão redonda, a prometer a textura da tua pele e gorgolejos de palavras, sussurros quando em meus braços te sentias guardada) e pretendo talvez um dia destes abri-lo finalmente após uma interminável espera ditada pela minha timidez e regressar a um dia de Setembro. E chamar-te outra vez de Primavera.
"Só na Islândia uma pessoa está verdadeiramente só e os grandes espaços despovoados e desertos transmitem ao espírito parte da sua terrível calma. Era como ouvir uma música nobre mas mesmo assim muito confusa e difícil de seguir."
- W. H. Auden
Palavras-chave: Södermalm
"É assim que este livro começa: com um protão. É certo que não se trata de nenhum protão em particular. Não é um protão que tenha prestado valorosos serviços à Pátria. Não é um protão que se tenha distinguido nos 110 metros barreiras ou no salto em altura. Ou mesmo um protão literário, da cepa dos Nobel mais controversos (asseguro-vos que este protão não sabe sequer alinhavar uma breve linha). Se as suas origens não são nobilitárias também não serão indigentes – este protão não anda nas ruas da amargura esquadrinhando o pavimento à procura de beatas perdidas ou prostrando-se às esquinas de outras ruas (escusas mas igualmente amargas) com a indumentária típica dessas licenciosas putas mal amanhadas à espera de um cliente odioso. É apenas um protão sem nada de singular a registar pois, de resto, ele nem faz parte da estrutura nuclear dos átomos que por sua vez compõem as moléculas da tinta que cinzela estes caracteres negríssimos. E muito menos da carne ígnea que encamisa os meus ossos, registe-se. Nada disso: é única e simplesmente uma minúscula partícula de massa indistinguível de outras tantas (...)"
Deste que o estima,Propus várias soluções; todas insuficientes. Discutimo-las; por fim, Stephen Albert disse-me:
— Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida? Reflecti um momento e respondi:
— A palavra xadrez.
— Precisamente – disse Albert. – O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma enorme adivinha, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção do seu nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é talvez o modo mais enfático de indicá-la. É o modo tortuoso que proferiu, em cada um dos meandros do seu infatigável romance, o oblíquo Ts’ui Pên. Comparei centenas de manuscritos, corrigi os erros que a negligência dos copistas introduziu, conjecturei o plano desse caos, julguei estabelecer a ordem primordial, traduzi a obra inteira: resulta-me que não emprega uma única vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts’ui Pên. Ao contrário de Newton e de Schopenhaeur, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurcam e se cortam ou que se secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe você e eu não; noutros, eu, e não você; noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.
— Em todos – articulei não sem um temor – eu agradeço e venero a sua recriação do jardim de Ts’ui Pên.
— Não em todos – murmurou com um sorriso. – O tempo bifurca-se perpetuamente na direcção de muitos futuros. Num deles sou seu inimigo.
Voltei a sentir aquela palpitação de que falei. Pareceu-me que o húmido jardim que rodeava a casa estava saturado até ao infinito de pessoas invisíveis. Essas pessoas eram Albert e eu, secretos, ocupadíssimos e multiformes noutras dimensões do tempo. Levantei os olhos e o ténue pesadelo dissipou-se. No amarelo e negro jardim havia um único homem; mas esse homem era forte como uma estátua, mas esse homem avançava pelo caminho e era o capitão Richard Madden.
— O futuro já existe – respondi, – mas eu sou seu amigo. Posso examinar outra vez a carta?
Albert levantou-se. Alto, abriu a gaveta da alta escrivaninha; virou-me por um momento as costas. Eu já tinha preparado o revólver. Disparei com extremo cuidado: Albert tombou sem um ai, imediatamente. Juro que a sua morte foi instantânea: uma fulminação.
O resto é irreal, insignificante. Nesse momento irrompeu Madden e prendeu-me. Fui condenado à forca. Abominavelmente ganhei: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem bombardearam-na; li-o nos mesmos jornais que propuseram à Inglaterra o enigma de o sábio sinólogo Stephen Albert ter morrido assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou este enigma. Sabe que o meu problema era indicar (através do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio senão matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) a minha inenarrável contrição e cansaço.
"Nul homme ne peut dire ce qu'il est. Mais il arrive qu'il puisse dire ce qu'il n'est pas. Celui qui cherche encore, on veut qu'il ait conclu. Mille voix lui annoncent déjà ce qu'il a trouvé et pourtant, il le sait, ce n'est pas cela. Chercher et laisser dire? Bien sûr. Mais il faut, de loin en loin, se défendre. Je ne sais pas que je cherche, je le nomme avec prudence, je me dédis, je me répète, j'avance et je recule. On m'enjoint pourtant de donner les noms, ou le nom, une fois pour toutes. Je me cabre alors; ce qui est nommé, n'est-il pas déjà perdu? Voilá du moins ce que je puis essayer de dire."
Albert Camus, L'énigme in L'été

Grávido de cansaço, ainda fumou um Partagas, bebeu três ou quatro goles de cachaça e pensou, enquanto via La Notte, que de certa forma invejava as camisas brancas do Mastroianni (não as mulheres, porque tu foste sempre a minha Jeanne Moreau, a minha Monica Vitti) e em como certos planos faziam-lhe relembrar o Blow Up - nunca percebeste o meu encanto por esse filme, pois não, amor meu?
39,7º de febre. "Se, Alexandre, det snør", afirmas tu com uma languidez inesperada - terna, direi. Como se a neve que respinga débil nos beirais do telhado tivesse um certo condão de redenção e não aspirasse mais a que fazer desprender essas palavras dos teus lábios. Passas as mãos pelos meus cabelos a perscrutar se já apareceram os primeiros cabelos brancos e sorris porque constatas que não. Eu devolvo um sorriso tímido enquanto beberrico esse sumo de laranjas sanguíneas tentando acreditar que será o choque de acidez e vitamina C que me irá fazer bem e debelar o estado febril em que me encontras. 397 é um número bonito, penso. Pelo menos é um número primo e isso faz-me sorrir novamente; é também um primo pitagórico e um primo aditivo (3+7+9=19 que por sua vez também é primo). Sei apenas que estou algo confuso porque o que queria mesmo era escrever sobre Lowry e não o farei. O grande beberrão terá de aguardar por amanhã.A Amnistia Internacional Portugal vai realizar no dia 6 de Dezembro, no Centro Europeu Jean Monnet, a Conferência Internacional "Direitos Humanos e Desenvolvimento - Uma estratégia para África". Entrada livre.
Para mais informações e confirmação contactar Amnistia Internacional
Av. Infante Santo, 42, 2º 1350-179 Lisboa • Tel.: +351 21 3861652 • Fax: +351 21 3861782
www.amnistia-internacional.pt • aueportugal@amnistia-internacional.pt
Começava assim:

Someday beneath some hard
Capricious star—
Spreading its light a little
Over far,
We'll know you for the woman
That you are.
For though one took you, hurled you
Out of space,
With your legs half strangled
In your lace,
You'd lip the world to madness
On your face.
We’d see your body in the grass
With cool pale eyes.
We'd strain to touch those lang'rous
Length of thighs,
And hear your short sharp modern
Babylonic cries.
It wouldn't go. We’d feel you
Coil in fear
Leaning across the fertile
Fields to leer
As you urged some bitter secret
Through the ear.
We see your arms grow humid
In the heat;
We see your damp chemise lie
Pulsing in the beat
Of the over-hearts left oozing
At your feet.
See you sagging down with bulging
Hair to sip,
The dappled damp from some vague
Under lip,
Your soft saliva, loosed
With orgy, drip.
Once we'd not have called this
Woman you—
When leaning above your mothers
Spleen you drew
Your mouth across her breast as
Trick musicians do.
Plunging grandly out to fall
Upon your face.
Naked—female—baby
In grimace,
With your belly bulging stately
Into space.
Djuna Barnes, "From Fifth Avenue Up" in "The Book of Repulsive Women"
O céu e a Terra esatam misturados como um ovo, e Pan Gu nasceu dessa mistura. Após 18 000 anos, o céu e a Terra separaram-se. O transparente Yang tornou-se o céu e o escuro Yin tornou-se a Terra, enquanto Pan Gu ficou no meio, sofrendo nove transformações por dia. O espírito está no céu, o sábio na Terra. Todos os dias o céu cresceu um zhang e a Terra afundou-se um zhang. Nesses 18 000 anos o céu tornou-se extraordinariamente alto, a Terra extraordinariamente baixa e Pan Gu muitíssimo alto. Assim, o céu está a 90 000 li da Terra.
Palavras-chave: Folding/No Folding