27 de março de 2008
26 de março de 2008
O amigo Steiner
Sentindo-se na necessidade de escrever alguma história mirabolante, mas real - da qual não acreditarias nunca, de resto -, decidiu ler de um só fôlego o livro comprado numa feira de saldos da Bertrand. De mãos enclavinhadas e deixando escapar um sorriso que convida à malícia, disse a si próprio que daqui a pouco iria urdir um comentário pretensamente espirituoso sobre uma certa personagem Steiner que se alcandora nos píncaros da sua imaginação e, depois, ah... depois!
Post Scriptum - E escusas de bradar a propos da péssima imagem; ganhei um asco tal às imagens que agora só coloco coisas ruidosas, cheias de grão, infectas, purulentas. Bref: comme la vie, on peut dire.
20 de março de 2008
Primavera
Deve ser assim que começa um texto: invocando o Sol e uma chuva miudinha de fotões a salpicar promessas para o rosto. Os teus olhos, imagino-os eu, a encastelarem-se nas nuvens, reféns de adjectivos que foram sendo laboriosamente escolhidos de um dicionário de lombadas castanhas. As caducifólias há muito que não desprendem as suas folhas; essas, as do calendário, volvi-as hoje com um rompante brusco – aquele que tu conheces quando entro em ti e o teu corpo se cinde em dois e, pernas frondosas num amplexo estelar de árvore, reinvento o vocabulário da Botânica – anuncia a Primavera com gargalhadas muito ridentes e vi fotografias de flores, falaram-me de como está um pouco mais frio que o desejável e de que amanhã é dia de poesia e eu gostaria tanto de voltar a escrever um poema para ti. Vês? Comprei um caderninho de molesquina (sabes que me arruino de meiguice e desvelo por esta palavra tão estranha, tão redonda, a prometer a textura da tua pele e gorgolejos de palavras, sussurros quando em meus braços te sentias guardada) e pretendo talvez um dia destes abri-lo finalmente após uma interminável espera ditada pela minha timidez e regressar a um dia de Setembro. E chamar-te outra vez de Primavera.
14 de março de 2008
Till Anita
"Só na Islândia uma pessoa está verdadeiramente só e os grandes espaços despovoados e desertos transmitem ao espírito parte da sua terrível calma. Era como ouvir uma música nobre mas mesmo assim muito confusa e difícil de seguir."
- W. H. Auden
13 de março de 2008
Södermalm I
Saudades dos dias em Södermalm com todo o tempo do mundo a espreitar a lonjura dos dias. E por vezes fazia Sol e despontava em mim um sorriso brando, bravio, um sorriso conspirativo que a pátina do tempo jamais iria fazer desaparecer, pois estavas ao meu lado e tinhas toda a ternura celeste para mim, essa candura de astro que só mais tarde iria subir legível à minha boca com palavras rebentando como romãs maduras. Essa candura, esse afogueamento que nos surge sempre sob a forma inesperada de uma mulher, esse febril acicatar que nos tem o condão de revisitar quando tudo o que a nossa vista quer assomar são somente palavras e gestos condenados ao vazio – e de súbito há uma redenção, há uma explosão, adiantada apenas por breves prenúncios como o eléctrico crepitar do ar à nossa volta e um curto ribombar que antecede o eflúvio de emoções e é então que tudo despoleta. Tudo.
Palavras-chave: Södermalm
O protão inefável
"É assim que este livro começa: com um protão. É certo que não se trata de nenhum protão em particular. Não é um protão que tenha prestado valorosos serviços à Pátria. Não é um protão que se tenha distinguido nos 110 metros barreiras ou no salto em altura. Ou mesmo um protão literário, da cepa dos Nobel mais controversos (asseguro-vos que este protão não sabe sequer alinhavar uma breve linha). Se as suas origens não são nobilitárias também não serão indigentes – este protão não anda nas ruas da amargura esquadrinhando o pavimento à procura de beatas perdidas ou prostrando-se às esquinas de outras ruas (escusas mas igualmente amargas) com a indumentária típica dessas licenciosas putas mal amanhadas à espera de um cliente odioso. É apenas um protão sem nada de singular a registar pois, de resto, ele nem faz parte da estrutura nuclear dos átomos que por sua vez compõem as moléculas da tinta que cinzela estes caracteres negríssimos. E muito menos da carne ígnea que encamisa os meus ossos, registe-se. Nada disso: é única e simplesmente uma minúscula partícula de massa indistinguível de outras tantas (...)"
À Miss A.
Devo dizer-lhe que fiquei surpreendido ao consultar o meu dicionário e, na entrada referente ao seu nome, vir lá que se trata de uma variedade de pêra. Admito a minha ignorância sobre o assunto: é que até à data só conhecia a pêra rocha, a duchesse d'Angoulème, a francesa, a Joaquina, a pérola... Mas nunca a poderia imaginar como uma rotunda pêra. Como um citrino ou um fruto silvestre, ainda-vá-que-não-vá, mas nunca como uma vitaminada pêra cheia de ácido ascórbico e riboflavina. Em todo o caso não se abespinhe e fique a saber, Miss A., que o mesmíssimo e ignoto dicionário desconhece o meu nome, portanto não se coloque já a insultar o pobre do António de Morais Silva.
Deste que o estima,Propus várias soluções; todas insuficientes. Discutimo-las; por fim, Stephen Albert disse-me:
— Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida? Reflecti um momento e respondi:
— A palavra xadrez.
— Precisamente – disse Albert. – O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma enorme adivinha, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção do seu nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é talvez o modo mais enfático de indicá-la. É o modo tortuoso que proferiu, em cada um dos meandros do seu infatigável romance, o oblíquo Ts’ui Pên. Comparei centenas de manuscritos, corrigi os erros que a negligência dos copistas introduziu, conjecturei o plano desse caos, julguei estabelecer a ordem primordial, traduzi a obra inteira: resulta-me que não emprega uma única vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts’ui Pên. Ao contrário de Newton e de Schopenhaeur, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurcam e se cortam ou que se secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe você e eu não; noutros, eu, e não você; noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.
— Em todos – articulei não sem um temor – eu agradeço e venero a sua recriação do jardim de Ts’ui Pên.
— Não em todos – murmurou com um sorriso. – O tempo bifurca-se perpetuamente na direcção de muitos futuros. Num deles sou seu inimigo.
Voltei a sentir aquela palpitação de que falei. Pareceu-me que o húmido jardim que rodeava a casa estava saturado até ao infinito de pessoas invisíveis. Essas pessoas eram Albert e eu, secretos, ocupadíssimos e multiformes noutras dimensões do tempo. Levantei os olhos e o ténue pesadelo dissipou-se. No amarelo e negro jardim havia um único homem; mas esse homem era forte como uma estátua, mas esse homem avançava pelo caminho e era o capitão Richard Madden.
— O futuro já existe – respondi, – mas eu sou seu amigo. Posso examinar outra vez a carta?
Albert levantou-se. Alto, abriu a gaveta da alta escrivaninha; virou-me por um momento as costas. Eu já tinha preparado o revólver. Disparei com extremo cuidado: Albert tombou sem um ai, imediatamente. Juro que a sua morte foi instantânea: uma fulminação.
O resto é irreal, insignificante. Nesse momento irrompeu Madden e prendeu-me. Fui condenado à forca. Abominavelmente ganhei: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem bombardearam-na; li-o nos mesmos jornais que propuseram à Inglaterra o enigma de o sábio sinólogo Stephen Albert ter morrido assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou este enigma. Sabe que o meu problema era indicar (através do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio senão matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) a minha inenarrável contrição e cansaço.
Mr. Aleph
12 de março de 2008
Azul mediterrânico
"Nul homme ne peut dire ce qu'il est. Mais il arrive qu'il puisse dire ce qu'il n'est pas. Celui qui cherche encore, on veut qu'il ait conclu. Mille voix lui annoncent déjà ce qu'il a trouvé et pourtant, il le sait, ce n'est pas cela. Chercher et laisser dire? Bien sûr. Mais il faut, de loin en loin, se défendre. Je ne sais pas que je cherche, je le nomme avec prudence, je me dédis, je me répète, j'avance et je recule. On m'enjoint pourtant de donner les noms, ou le nom, une fois pour toutes. Je me cabre alors; ce qui est nommé, n'est-il pas déjà perdu? Voilá du moins ce que je puis essayer de dire."
Albert Camus, L'énigme in L'été
10 de março de 2008
2 de março de 2008
La Notte

Grávido de cansaço, ainda fumou um Partagas, bebeu três ou quatro goles de cachaça e pensou, enquanto via La Notte, que de certa forma invejava as camisas brancas do Mastroianni (não as mulheres, porque tu foste sempre a minha Jeanne Moreau, a minha Monica Vitti) e em como certos planos faziam-lhe relembrar o Blow Up - nunca percebeste o meu encanto por esse filme, pois não, amor meu?
29 de fevereiro de 2008
22 de fevereiro de 2008
53
A sequência dos primos de Eisenstein começa assim: 2, 5, 11, 17, 23, 29, 41, 47, 53, 59, 71, 83, 89, 101, 107, 113, 131, 137, 149, 167, 173, 179, 191, 197, 227, 233, 239, 251, 257, 263, 269, 281, 293, 311, 317, 347, 353, 359, 383, 389, 401, 419, 431, 443, 449, 461, 467, 479, 491, 503, 509, 521, 557, 563, 569, 587. E se te revelo isto não é por querer que saibas que habito no 53 de uma Avenida Nova de uma cidade qualquer, anónima, anódina, cuja porta tem bem gravada esse 53 que é um primo de Eisenstein mas também um enxame aberto na Cabeleira de Berenice no catálogo do Messier, esse fanático caçador de cometas. Não é para que saibas que te aguardo impaciente com o meu florilégio de livros prestes a arborescer ante uma palavra tua; uma palavra ferina e reverdecida. Não, é para que saibas que a minha presença ingramaticável surge de quando em quando por detrás da ombreira da porta, o rosto escondido por uma barba rala e bravia que fui deixando germinar, talvez - não o saberei dizer com a precisão que é por costume assistir-me - por me sentir um eterno selvagem abandonado na minha própria ilha de "A invenção de Morel" do Bioy Casares. E a minha presença, embora fugaz, cachimbo a desafiar a ponderabilidade dos objectos preso ao canto dos lábios melanóstomos, camisas azul cerúleo com as golas já bem puídas, casaco coçado e ainda a conservar todos os cheiros dos dias que passam sem passar todavia, botões de punho absurdamente desencontrados comigo mesmo e suspensórios porque eu sempre fui um homem desajustado, um homem démodé, um homem vilmente apaixonado. E também romãs e bagas azuis a esmagarem-se na minha boca como minúsculos leptocéfalos.
[Imagem: Charles Messier, 1781. Catalogue des Nébuleuses & des amas d'Étoiles. Connoissance des Temps para 1784 (publicado em 1781), pp. 246-247]
(Entrada inspirada pelo blogue 53: aqui)
31 de janeiro de 2008
"Entre nós e as palavras há metal fundente"
23 de janeiro de 2008
OK. Prometo. Amanhã irei falar de Anita Ekberg, Malcolm Lowry e da última vez em que estive com S. em Oslo. Irei reatar as pontas soltas. Parece que se diz assim. Irei reduzir a dimensão fragmentária do meu discurso e serei prolixo e lúcido (estranho binómio!) como nunca me viste. Que tal? Ler-me-ás amanhã, Azul Neblina? Irei também falar da ponte que une Malmö a Copenhaga e de gengibre. Muito gengibre. Não, algum gengibre. O suficiente. O olhar a conspirar doçura de V. e um livro sobre o tempo. Anjos em estrutura de filigrana. Aguardente de rosas, whisky, vodka barato em Lund, as escadarias por onde o maluco do Strindberg calcorreava a cavalo no seu corcel, a casa do mesmo onde se dedicava a maquinações alquimistas e onde se julgava acossado pelo mundo, o jardim botânico e a estrutura sensual das folhas. Outras perplexidades. Algumas coisas mundanas. Talvez vá ser aborrecido. Talvez nem seja amanhã porque agora ando entretido a reler Vergílio Ferreira ("Para sempre"), a ter-te nos meus braços, a ler Vila-Matas e a regressar à limpidez do meu Russell... E já te disse hoje que gosto mais de ti que Russell, Whitehead e Hilbert todos juntos? É que gosto mesmo, meu sinal marca de estrela.
19 de janeiro de 2008
17 de janeiro de 2008
13 de janeiro de 2008
9 de janeiro de 2008
6 de janeiro de 2008
det snør
39,7º de febre. "Se, Alexandre, det snør", afirmas tu com uma languidez inesperada - terna, direi. Como se a neve que respinga débil nos beirais do telhado tivesse um certo condão de redenção e não aspirasse mais a que fazer desprender essas palavras dos teus lábios. Passas as mãos pelos meus cabelos a perscrutar se já apareceram os primeiros cabelos brancos e sorris porque constatas que não. Eu devolvo um sorriso tímido enquanto beberrico esse sumo de laranjas sanguíneas tentando acreditar que será o choque de acidez e vitamina C que me irá fazer bem e debelar o estado febril em que me encontras. 397 é um número bonito, penso. Pelo menos é um número primo e isso faz-me sorrir novamente; é também um primo pitagórico e um primo aditivo (3+7+9=19 que por sua vez também é primo). Sei apenas que estou algo confuso porque o que queria mesmo era escrever sobre Lowry e não o farei. O grande beberrão terá de aguardar por amanhã.(de lá chegam-me notícias que morreu o Luiz Pacheco - estamos cada vez mais sós, não estamos? E mais tristes?)
Agora preciso de me despir com gestos cuidados e, febril, dormir, dormir, dormir e cobrir-me com todos os cobertores que encontrar, cobrir-me apenas com o teu corpo e sussurrar-te: "És de uma doçura incandescendente". Sibilando, sibilando. E encostando a minha cabeça no teu peito adormecer assim. Ciciando, ciciando. Com a mansidão da neve a querer atapetar o meu sorriso.
10 de dezembro de 2007
4 de dezembro de 2007
Toujours. Chaque jour. Rouge. (a Indecidibilidade em se ser humano II)
«L’amant»
Marguerite Duras
Venho copiar este excerto do blogue da Ângela. É certo que este parágrafo não me impressionou da primeira vez que li o livro. É certo que não me recordo quando o foi. É certo que poderei estar a mentir com todos os dentes amarelos que me sobram na boca escancarada. É certo que o uso da madre-pérola daria um efeito mais poético, mas amarelo é amarelo afinal de contas, caramba. É certo que o valor da prova tem muito que se lhe diga. É certo que Gödel andava a roubar laranjas nos últimos tempos da sua vida. É certo que, mais novo e menos sapiente em Lógica Formal, também eu e S. fomos roubar maçãs (seriam laranjas?) a um pomar perto de Oslo (ela disse-me que era uma tradição da sua infância e não tive coragem de recusar tal convite). É certo que não creio ir relê-lo (refiro-me ao livro, não ao aviso que em noruguês - e que portanto não me dizia respeito - invectivava contra os assaltantes de fruta ainda verde e rija). É certo que podia ter sido para mim que a Duras escreveu. É certo que nunca vivi no seu sotão alugado, como um certo Vila-Matas. É certo e sabido que o seu "A assassina ilustrada" não faz jus à sua obra. É certo que é bem possível teres proferido a mesma coisa sobre mim, palavras bem delineadas contra os suspiros resmoneantes do ar. É certo que o mais próximo que tive de ser comparado a um protagonista de um romance foi quando alguém disse que lhe fazia recordar o coiso (não me lembro do seu nome; coiso é assim uma coisa adequada para nominar alguém) do "Os Jardins do Éden" (Hemingway). É certo que os beijos com essa mulher eram intensíssimos. E não só, é certo.
Contas feitas, prova-dos-nove-e-tudo-o-que-mais-é-devido, é certo que gosto da tua candura de astro. É certo que poderia mentir a este respeito. Já não é tão certo saber porque o faria.
(Vai haver uma imagem para aqui. Será do Tony Leung em 2046. Porquê? É certo que não saberás a resposta. Certo que sim. Talvez.)
A Amnistia Internacional Portugal vai realizar no dia 6 de Dezembro, no Centro Europeu Jean Monnet, a Conferência Internacional "Direitos Humanos e Desenvolvimento - Uma estratégia para África". Entrada livre.
Para mais informações e confirmação contactar Amnistia Internacional
Av. Infante Santo, 42, 2º 1350-179 Lisboa • Tel.: +351 21 3861652 • Fax: +351 21 3861782
www.amnistia-internacional.pt • aueportugal@amnistia-internacional.pt
A indecibilidade em se ser humano I
oh god it's wonderful
indecidível.
3 de novembro de 2007
Canela, Açafrão e Cardamomo
Começava assim:
29 de outubro de 2007
Trikk Blaa
Da Majorstuen até Kjelsås são precisamente 38 minutos de viagem no eléctrico número 11.
12 de setembro de 2007
Fazer Barulho Por Darfur
A pedido da Amnistia Internacional segue aqui um pedido de divulgação de uma concentração no domingo (16 de Setembro) no Largo do Camões em Lisboa. Para que não se elida da memória a situação dramática de Darfur.
11 de setembro de 2007
A propósito de um encontro fortuito com um livro na FNAC

Someday beneath some hard
Capricious star—
Spreading its light a little
Over far,
We'll know you for the woman
That you are.
For though one took you, hurled you
Out of space,
With your legs half strangled
In your lace,
You'd lip the world to madness
On your face.
We’d see your body in the grass
With cool pale eyes.
We'd strain to touch those lang'rous
Length of thighs,
And hear your short sharp modern
Babylonic cries.
It wouldn't go. We’d feel you
Coil in fear
Leaning across the fertile
Fields to leer
As you urged some bitter secret
Through the ear.
We see your arms grow humid
In the heat;
We see your damp chemise lie
Pulsing in the beat
Of the over-hearts left oozing
At your feet.
See you sagging down with bulging
Hair to sip,
The dappled damp from some vague
Under lip,
Your soft saliva, loosed
With orgy, drip.
Once we'd not have called this
Woman you—
When leaning above your mothers
Spleen you drew
Your mouth across her breast as
Trick musicians do.
Plunging grandly out to fall
Upon your face.
Naked—female—baby
In grimace,
With your belly bulging stately
Into space.
Djuna Barnes, "From Fifth Avenue Up" in "The Book of Repulsive Women"
8 de setembro de 2007
17 de agosto de 2007
Folding/No Folding I
O céu e a Terra esatam misturados como um ovo, e Pan Gu nasceu dessa mistura. Após 18 000 anos, o céu e a Terra separaram-se. O transparente Yang tornou-se o céu e o escuro Yin tornou-se a Terra, enquanto Pan Gu ficou no meio, sofrendo nove transformações por dia. O espírito está no céu, o sábio na Terra. Todos os dias o céu cresceu um zhang e a Terra afundou-se um zhang. Nesses 18 000 anos o céu tornou-se extraordinariamente alto, a Terra extraordinariamente baixa e Pan Gu muitíssimo alto. Assim, o céu está a 90 000 li da Terra.
Palavras-chave: Folding/No Folding
7 de agosto de 2007
À Miss J.
é a simplicidade de um solo
que não possuo.
O que eu espero é um improvável elemento
que aglutine os despojos do silêncio
e lhes dê um rosto
maravilhosamente tranquilo.
António Ramos Rosa
2 de agosto de 2007
Epiciclos (assim a jeitos ptolomaicos)
Faz exactamente dois anos que lhe escrevia as seguintes palavras que em baixo transcrevo. Em bom rigor te digo que se esboroaram. Mas não posso deixar de pensar que estes epiciclos são bem curiosos; como se houvesse uma espécie de eterno retorno à espreita, assim a roçar numa vileza das leis da Física (if you get what I mean) em que se tornasse necessário resguardar-mo-nos dos ardis que o destino teima em montar. Mas, como sempre gostei de "cair verticalmente no vício", eis que de novo me encontrei a repetir-lhe as mesmas palavras enquanto ela me canibalizava - com o seu habitual desvelo - o sexo. Em vão a quis fazer banhá-la em felicidade. Mas foi apenas sexo folha ardente, um motel lá para as bandas de Valadares e uma garrafa de vinho que assim como assim ainda deixou uns lábios melanóstomos: suave consolo como uma noite pintalgada de estrelas. Ela tinha razão quando me fazia juramentar: "What Happens in Vegas, stays in Vegas". Afinal era só o título de um episódio de uma série bacoca. E ela uma enorme ficção.
0. Intenção e Metamorfose
Porque aqui enumero todas as palavras que não te disse.
E todas as palavras que nunca te direi.
E todas as palavras que eu desenhei nos teus lençóis e que apagaste com as pontas alvas dos teus dedos.
E todas as palavras esborratadas e diluídas pelo sal das minhas lágrimas.
E todas as palavras do mundo que ainda estão à espera de serem sonhadas ou enumeradas.
E todas as palavras que esgotam a demoníaca geometria combinatória dos dias.
E todas as palavras que sonham com elas próprias antes mesmo de alguém tê-las congeminado e que, por isso, violam a causalidade das coisas.
E todas as palavras que forram as paredes do meu ermitério.
E mesmo todas as palavras de que escarneceste quando te disse que te amava: tantas palavras puras cuja arquitectura não quiseste compreender.
Todas as palavras que se afunilaram nas minhas mãos quando te cobria o rosto com estas e abençoava os teus lábios no silêncio ocioso da noite.
Soletro com um feixe de luz estas mesmas palavras que a minha voz soube elidir até agora. Até esgotar todas as células do meu corpo neste processo. Serei então apenas uma presença de palavras bem cinzeladas na tela morta do monitor. Mas serei todas as palavras que sonhei ciciar-te um dia ao teu ouvido.
29 de julho de 2007
Em jeito de piscar de olhos a Miss Rebeca

(Rebecca é um nome delicioso porque parece que enrola a língua numa espécie de sensualidade obnubilar; mas que não surjam equívocos: trata-se de uma escritora medíocre)
Palavras-chave: Literatura
28 de julho de 2007
Paciência (com clara violação gamatical)
23 de julho de 2007
Azul Estrangeiro I
A Palmira comprou um par de jeans (ler o resto aqui):
"Ontem comprei um par de jeans, tingido com o indigo que desde os primórdios da História enche de azul o nosso quotidiano, e as calças Fornarina que escolhi lembraram-me outro azul da Antiguidade, mais concretamente as cores púrpura."
Palavras-chave: Azul Estrangeiro
22 de julho de 2007
On lit Breton
Dodecaedro snub
Advertência ao incauto: ainda não me foi possível descobrir a ordem plausível do seguinte conjunto de (dez) frases. Há 3.628.800 (permutações de dez elementos, quécomoquemdiz dez factorial) possibilidades e não tenho tempo de verificá-las todas. As frases foram escritas pelo Alexandre em pequenos pedacinhos de papel. A brisa estival que soprava provinda de uma geografia longínqua e nefasta, pese embora cálida como um abraço fraterno, morna como um sorriso distraído, encarregou-se da Ars Combinatoria. Resta ao leitor perdoar-me a acrimónia e meter mãos à obra que já se faz tarde.

Quando estás nos meus braços e te enovelas como um bicho-de-contas, em frágil abandono te sei reencontrada em mim, e é aí que o teu corpo me pede para ciciar-te ao ouvido: "És o meu animal favorito e adoro foder-te".
Tu devolves-me: "oh, o mundo, para mim, é um dodecaedro snub".
Disse-o e repeti-o até que as palavras ficaram exangues e polidas como os seixos que a criança trazia depois dos seus passeios na praia.
Do outro lado do mundo há quem não o creia.
O mundo afinal não é esférico para alguns: é um romboedro de pontas aguçadas.
Eis a crueza das palavras a conjugar-se com a forma desajeitada como sucumbes aos meus avanços.
(contudo agora receio que a tua voz seja pálida e que nem mesmo um escrutínio mais atento conseguirá descobrir uma réstia de beleza)
Exige-se a fé nestes momentos.
E com isto ficámos conversados.
Sabes, é que eu disse estrela em vez de saibro.
Palavras-chave: Matemática
18 de julho de 2007
Kall/Varm
I met her in a snowstorm(Jens Lekman, The Cold Swedish Winter)
I was outdoors plowing
She just walked up to me and said
'Hey boy, how's it going?'
I admired her straight-forwardness
and brushed away my fringe
as a signal of well-being
and accepting her challenge
We went home to her place
and cooked up some chili
Warmed us from the inside
'cause the outside was chilly
We had to be quiet
to not wake up her family
but I made a high pitched sound
when her cold fingers touched me
She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it"
She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it"
When people think of Sweden
I think they have the wrong idea
like Cliff Richards who thought it was just
porn and gonorrhea
And Lou Reed said in the film
"Blue in the face"
that compared to New York City
Sweden was a scary place
They seem to have a point
after meeting with this girl
maybe not Cliff Richards
but Lou has surely met her
The doubt in her eyes
when I said I wanted to kiss her
for the sake of liking her
and not because of the blizzard
She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it"
She said "shhh
please be quiet
I know you don't want me
but please deny it"
'Cause the cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night
The cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night
In two thousand years
this place will be covered by ice
and the people who will dig us up
will be in for a big surprise
After carefully studying
our calcium-nourished bones
they'll find enclosed
our hearts of stone
Singing the cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night
The cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night
Na foto: Frida Hyvönen
15 de julho de 2007
Que mil sóis surjam

Tu és a bomba e eu sou o detonador. Em dias de estio, férteis, e com bagas maduras a rebentarem-se nos lábios, é assim que te quero: deitada no leito para te sentir trémula sob o meu corpo quando entrar dentro de ti e, istmo de língua irremediavelmente presa à curva do teu pescoço, revisitar a palavra
Na foto: esquema básico de uma bomba de fusão nuclear segundo o mecanismo de Teller-Ulam.
13 de julho de 2007
José María Eguren, in Obra Poética - Motivos
Palavras-chave: Azul
12 de julho de 2007
Porque o teu caderninho moleskine é Azul
E se eu te disser que os teus textos e os teus desenhos convidam-me a uma certa fragilidade e abandono, o que dirias em troca?
11 de julho de 2007
Smoking/No Smoking
Ei-la: a minha modesta contribuição para a discussão no espaço dos blogues (sim, prefiro esta terminologia ao insípido termo blogosfera) sobre a proposta de lei de regulamentação do acto de fumar em espaços públicos, nomeadamente em cafés e restaurantes:

Na foto: Montecristo nº3, "O deserto dos tártaros" de Dino Buzzati (que, aliás, te recomendei vivamente mas suspeito que tenhas feito tábua rasa da minha sugestão), café curto com um pacotinho inteiro de açúcar lá afogado, bloco-de-notas Moleskine e estojo com uma caneta Waterman lacada a preto (as cargas são Waterman Azul Florida), porta-minas Ballograf (0.7) e caneta vermelha para transparências Faber-Castell. A mão e a foto são do Alexandre. O título desta nota provém, está claro, de um filme de Alain Resnais.
Assimetria
Enumero: mamilo esquerdo e elipses descontraídas que não são círculos. Concluo nunca ter compreendido esta quebra de simetria quando enceto a manobra de aproximação ao teu corpo.
10 de julho de 2007
Antes de Adormecer IX (a impossibilidade de se ser humano)
Bem sei que não aprecias Bukowski. Eu também sempre irei sustentar a afirmação em como não partilho desse teu febril entusiasmo com os impressionistas. Eu gosto da desmesura. Ah, a impossibilidade de se ser demasiadamente humano, meu Azul Neblina!
Van Gogh writing his brother for paints
Hemingway testing his shotgun
Celine going broke as a doctor of medicine
the impossibility of being human
Villon expelled from Paris for being a thief
Faulkner drunk in the gutters of his town
the impossibility of being human
Burroughs killing his wife with a gun
Mailer stabbing his
the impossibility of being human
Maupassant going mad in a rowboat
Dostoyevsky lined up against a wall to be shot
Crane off the back of a boat into the propeller
the impossibility
Sylvia with her head in the oven like a baked potato
Harry Crosby leaping into that Black Sun
Lorca murdered in the road by Spanish troops
the impossibility
Artaud sitting on a madhouse bench
Chatterton drinking rat poison
Shakespeare a plagarist
Beethoven with a horn stuck into his head against deafness
the impossibility the impossibility
Nietzsche gone totally mad
the impossibility of being human
all too human
this breathing
in and out
out and in
these punks
these cowards
these champions
these mad dogs of glory
moving this little bit of light toward us
impossibly.
Charles Bukowki, Beasts Bounding Through Time
Palavras-chave: Antes de Adormecer















