4 de dezembro de 2007

A indecibilidade em se ser humano I

Mais tarde explicar-te-ei a presença da cavatina Casta Diva no meu blogue.




Não posso deixar de notar que um dos concertistas (certo flautista), com os seus óculos escuros pregados ao rosto, parece um agente da STASI infiltrado na orquestra. Irias desenhar um doce sorriso com esta afirmação? Pois... Eu sei que não, anjo meu, mas gosto de evocar o teu sorriso claro e lúcido. De resto, não sei se será a minha interpretação favorita - há aquela da Caballe no Bolshoi em 1974 que por muito que a ouça ainda me continua a entontecer os sentidos de estupor e admiração. Ontem era a Callas que acompanhava a minha condução no meio de um nevoeiro cerrado que se abateu sobre o meu carro - e há uma pequena história que quero contar-te sobre isto, atenta; não creio que haja viagens em vão -; ei-la, magistral certamente, no papel de Norma, Mario Filippeschi é o Pollione tonitruante e a Adalgisa é interpretada pela Ebe Stignani. É o único CD que trago no carro. Dois livros, dois livros apenas: o inseparável Paul Celan e o Frank O'Hara com o seu poema Steps:

(...)

oh god it's wonderful
to get out of bed
and drink too much coffee
and smoke too many cigarettes
and love you so much

O certo é que a palavra irrevogável é de uma estranheza suprema. Como se todas as palavras começadas por i devessem ser recenseadas ao Paradoxo de Russell com o seu estranho catálogo de livros que decerto iria fazer as alegrias de um Borges obcecado pela urdidura do tempo. É verdade que também constará desse catálogo o teu nome e a palavra

indecidível
.


3 de novembro de 2007

Canela, Açafrão e Cardamomo


Começava assim:

"Nisto espiava a orla do mar, convencido que os barcos que por ali passavam escondiam nos seus porões especiarias dos mares da China, tesouros capaz de fazer inveja a Sindbad e ao capitão Ahab entretido na sua contenda com o vigoroso cetáceo branco, olhos marulhando em direcção aos baleeiros-fantasma que rumavam de Spitsbergen e Gronelândia com a sua carga infame de marinheiros de rosto crispado e enrustido pelo Sol e pelo salitre - mãos onde cabem toda a vileza do mundo, mãos antecipando o aguilhão que rasga a carne e mancha de viril sangue o azul impossível -, e certo é que o único deus que estes conhecem é aquele que lhes confiou a empresa de espalhar a sífilis e a gonorreia por longitudes alheias. Marinheiros da gangrena e do escorbuto, saqueando e levando a pestilência aos portos com os nomes mais doces e perfumados."

SMS III

De: 93 465 88 01
Para: 9X XXX XX XX

Beijo nos teus cabelos. Beijo de canela, açafrão e cardamomo.

Extensão: 61 caracteres

29 de outubro de 2007

Trikk Blaa





Da Majorstuen até Kjelsås são precisamente 38 minutos de viagem no eléctrico número 11.

[ Continua amanhã ]

12 de setembro de 2007

Fazer Barulho Por Darfur




[Clique na imagem para ampliá-la]


A pedido da Amnistia Internacional segue aqui um pedido de divulgação de uma concentração no domingo (16 de Setembro) no Largo do Camões em Lisboa. Para que não se elida da memória a situação dramática de Darfur.

11 de setembro de 2007

A propósito de um encontro fortuito com um livro na FNAC




Someday beneath some hard
Capricious star—
Spreading its light a little
Over far,
We'll know you for the woman
That you are.

For though one took you, hurled you
Out of space,
With your legs half strangled
In your lace,
You'd lip the world to madness
On your face.

We’d see your body in the grass
With cool pale eyes.
We'd strain to touch those lang'rous
Length of thighs,
And hear your short sharp modern
Babylonic cries.

It wouldn't go. We’d feel you
Coil in fear
Leaning across the fertile
Fields to leer
As you urged some bitter secret
Through the ear.

We see your arms grow humid
In the heat;
We see your damp chemise lie
Pulsing in the beat
Of the over-hearts left oozing
At your feet.

See you sagging down with bulging
Hair to sip,
The dappled damp from some vague
Under lip,
Your soft saliva, loosed
With orgy, drip.

Once we'd not have called this
Woman you—
When leaning above your mothers
Spleen you drew
Your mouth across her breast as
Trick musicians do.

Plunging grandly out to fall
Upon your face.
Naked—female—baby
In grimace,
With your belly bulging stately
Into space.


Djuna Barnes, "From Fifth Avenue Up" in "The Book of Repulsive Women"


8 de setembro de 2007

Azul Estrangeiro III

Parece que adivinhaste. Setembro são dias de azul.

17 de agosto de 2007

Folding/No Folding I



Xu Zhen escreveu:

O céu e a Terra esatam misturados como um ovo, e Pan Gu nasceu dessa mistura. Após 18 000 anos, o céu e a Terra separaram-se. O transparente Yang tornou-se o céu e o escuro Yin tornou-se a Terra, enquanto Pan Gu ficou no meio, sofrendo nove transformações por dia. O espírito está no céu, o sábio na Terra. Todos os dias o céu cresceu um zhang e a Terra afundou-se um zhang. Nesses 18 000 anos o céu tornou-se extraordinariamente alto, a Terra extraordinariamente baixa e Pan Gu muitíssimo alto. Assim, o céu está a 90 000 li da Terra.

(imagem: pôr-do-Sol e alba perto da casa de A.; este enrolamento é dedicado à rapariga-do-deserto e a cosmogonia do Xu Zhen como relatada no "San Wu Li Qi" é uma promessa cumprida à Miss J.)

Azul Estrangeiro II

Hoje o dia ficou de novo azul aqui.

7 de agosto de 2007

À Miss J.

O que eu amo sobretudo
é a simplicidade de um solo
que não possuo.
O que eu espero é um improvável elemento
que aglutine os despojos do silêncio
e lhes dê um rosto
maravilhosamente tranquilo.


António Ramos Rosa

2 de agosto de 2007

Epiciclos (assim a jeitos ptolomaicos)


Faz exactamente dois anos que lhe escrevia as seguintes palavras que em baixo transcrevo. Em bom rigor te digo que se esboroaram. Mas não posso deixar de pensar que estes epiciclos são bem curiosos; como se houvesse uma espécie de eterno retorno à espreita, assim a roçar numa vileza das leis da Física (if you get what I mean) em que se tornasse necessário resguardar-mo-nos dos ardis que o destino teima em montar. Mas, como sempre gostei de "cair verticalmente no vício", eis que de novo me encontrei a repetir-lhe as mesmas palavras enquanto ela me canibalizava - com o seu habitual desvelo - o sexo. Em vão a quis fazer banhá-la em felicidade. Mas foi apenas sexo folha ardente, um motel lá para as bandas de Valadares e uma garrafa de vinho que assim como assim ainda deixou uns lábios melanóstomos: suave consolo como uma noite pintalgada de estrelas. Ela tinha razão quando me fazia juramentar: "What Happens in Vegas, stays in Vegas". Afinal era só o título de um episódio de uma série bacoca. E ela uma enorme ficção.

0. Intenção e Metamorfose

Porque aqui enumero todas as palavras que não te disse.

E todas as palavras que nunca te direi.

E todas as palavras que eu desenhei nos teus lençóis e que apagaste com as pontas alvas dos teus dedos.

E todas as palavras esborratadas e diluídas pelo sal das minhas lágrimas.

E todas as palavras do mundo que ainda estão à espera de serem sonhadas ou enumeradas.

E todas as palavras que esgotam a demoníaca geometria combinatória dos dias.

E todas as palavras que sonham com elas próprias antes mesmo de alguém tê-las congeminado e que, por isso, violam a causalidade das coisas.

E todas as palavras que forram as paredes do meu ermitério.

E mesmo todas as palavras de que escarneceste quando te disse que te amava: tantas palavras puras cuja arquitectura não quiseste compreender.

Todas as palavras que se afunilaram nas minhas mãos quando te cobria o rosto com estas e abençoava os teus lábios no silêncio ocioso da noite.

Soletro com um feixe de luz estas mesmas palavras que a minha voz soube elidir até agora. Até esgotar todas as células do meu corpo neste processo. Serei então apenas uma presença de palavras bem cinzeladas na tela morta do monitor. Mas serei todas as palavras que sonhei ciciar-te um dia ao teu ouvido.

29 de julho de 2007

Em jeito de piscar de olhos a Miss Rebeca



(Rebecca é um nome delicioso porque parece que enrola a língua numa espécie de sensualidade obnubilar; mas que não surjam equívocos: trata-se de uma escritora medíocre)

28 de julho de 2007

Paciência (com clara violação gamatical)

Muito pouca para a vida. Alguma para certa Literatura. Em teu redor se inventa o mundo. Acerco-me de ti. Beijo os torvelinhos do teu cabelo abençoado pelo Sol e suspeito que tendo esse certo algo para dizê-lo anteriormente a oportunidade se tenha gorado. É então que os meus lábios se remetem a um silêncio estrutural e, na tua nuca descoberta para mim, os sintas. Revisitando a palavra "ardor".


23 de julho de 2007

Azul Estrangeiro I


A Palmira comprou um par de jeans (ler o resto aqui):

"Ontem comprei um par de jeans, tingido com o indigo que desde os primórdios da História enche de azul o nosso quotidiano, e as calças Fornarina que escolhi lembraram-me outro azul da Antiguidade, mais concretamente as cores púrpura."


22 de julho de 2007

On lit Breton

Sentar-te ao meu colo, beijar-te as costas nuas com algum empenho, admirar-te a linha dos ombros e cartografá-la com as palmas das minhas mãos, tirar-te as cuequinhas, humedecer os dedos, levá-los à boca e depois talvez ler-te "A princesa" do D. H. lawrence. Ou então este aqui:

Dodecaedro snub


Advertência ao incauto: ainda não me foi possível descobrir a ordem plausível do seguinte conjunto de (dez) frases. Há 3.628.800 (permutações de dez elementos, quécomoquemdiz dez factorial) possibilidades e não tenho tempo de verificá-las todas. As frases foram escritas pelo Alexandre em pequenos pedacinhos de papel. A brisa estival que soprava provinda de uma geografia longínqua e nefasta, pese embora cálida como um abraço fraterno, morna como um sorriso distraído, encarregou-se da Ars Combinatoria. Resta ao leitor perdoar-me a acrimónia e meter mãos à obra que já se faz tarde.



Quando estás nos meus braços e te enovelas como um bicho-de-contas, em frágil abandono te sei reencontrada em mim, e é aí que o teu corpo me pede para ciciar-te ao ouvido: "És o meu animal favorito e adoro foder-te".

Tu devolves-me: "oh, o mundo, para mim, é um dodecaedro snub".

Disse-o e repeti-o até que as palavras ficaram exangues e polidas como os seixos que a criança trazia depois dos seus passeios na praia.

Do outro lado do mundo há quem não o creia.

O mundo afinal não é esférico para alguns: é um romboedro de pontas aguçadas.

Eis a crueza das palavras a conjugar-se com a forma desajeitada como sucumbes aos meus avanços.

(contudo agora receio que a tua voz seja pálida e que nem mesmo um escrutínio mais atento conseguirá descobrir uma réstia de beleza)

Exige-se a fé nestes momentos.

E com isto ficámos conversados.

Sabes, é que eu disse estrela em vez de saibro.

18 de julho de 2007

Kall/Varm



E se eu adormecer aqui, uma secura despropositada nos meus lábios, um deserto de líquenes a correr na sua tangibilidade de areia, resgatar-me-ás? Dir-me-ás que haverá um seio mineral impaciente pela minha boca adjectivada? Um nervoso vegetal irrequieta-se em mim. Vou cantarolar:
I met her in a snowstorm
I was outdoors plowing
She just walked up to me and said
'Hey boy, how's it going?'

I admired her straight-forwardness
and brushed away my fringe
as a signal of well-being
and accepting her challenge

We went home to her place
and cooked up some chili
Warmed us from the inside
'cause the outside was chilly

We had to be quiet
to not wake up her family
but I made a high pitched sound
when her cold fingers touched me

She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it"

She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it"

When people think of Sweden
I think they have the wrong idea
like Cliff Richards who thought it was just
porn and gonorrhea

And Lou Reed said in the film
"Blue in the face"
that compared to New York City
Sweden was a scary place

They seem to have a point
after meeting with this girl
maybe not Cliff Richards
but Lou has surely met her

The doubt in her eyes
when I said I wanted to kiss her
for the sake of liking her
and not because of the blizzard

She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it"

She said "shhh
please be quiet
I know you don't want me
but please deny it"

'Cause the cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night

The cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night

In two thousand years
this place will be covered by ice
and the people who will dig us up
will be in for a big surprise

After carefully studying
our calcium-nourished bones
they'll find enclosed
our hearts of stone

Singing the cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night

The cold Swedish winter
is right outside
and I just want somebody
to hold me through the night
(Jens Lekman, The Cold Swedish Winter)

E se adormecermos aqui, amor meu, haverá palavra alguma que ainda possa conjugar a possibilidade de um resgate transgressor?

Na foto: Frida Hyvönen

15 de julho de 2007

Que mil sóis surjam



Tu és a bomba e eu sou o detonador. Em dias de estio, férteis, e com bagas maduras a rebentarem-se nos lábios, é assim que te quero: deitada no leito para te sentir trémula sob o meu corpo quando entrar dentro de ti e, istmo de língua irremediavelmente presa à curva do teu pescoço, revisitar a palavra
Sol

Na foto: esquema básico de uma bomba de fusão nuclear segundo o mecanismo de Teller-Ulam.


13 de julho de 2007

"La belleza es tenue, impalpable, la azul neblina que tamiza los molinos de viento y los castillos almenados, las mansiones errantes. Las más vivas sensaciones se reciben en un movimiento rápido, en un vértigo. Quedan como un recuerdo viviente, como sin negativo hasta el instante imprevisto de la exteriorización. He visto pasar velozmente bellezas inexpresables, que una vez quietas y fijas han perdido su encantadora celestía. La movilidad es eterna como el tiempo; lo estático es una especie de muerte. La línea en fuga es un constante milagro. Los ojos azules cuando se pierden en un vuelo adquieren un color innominado."


José María Eguren, in Obra Poética - Motivos


12 de julho de 2007

Comboio-fantasma


Jovem triste num comboio. Como em Duchamp.

Porque o teu caderninho moleskine é Azul

E se eu te disser que os teus textos e os teus desenhos convidam-me a uma certa fragilidade e abandono, o que dirias em troca?

11 de julho de 2007

Smoking/No Smoking


Ei-la: a minha modesta contribuição para a discussão no espaço dos blogues (sim, prefiro esta terminologia ao insípido termo blogosfera) sobre a proposta de lei de regulamentação do acto de fumar em espaços públicos, nomeadamente em cafés e restaurantes:



Na foto: Montecristo nº3, "O deserto dos tártaros" de Dino Buzzati (que, aliás, te recomendei vivamente mas suspeito que tenhas feito tábua rasa da minha sugestão), café curto com um pacotinho inteiro de açúcar lá afogado, bloco-de-notas Moleskine e estojo com uma caneta Waterman lacada a preto (as cargas são Waterman Azul Florida), porta-minas Ballograf (0.7) e caneta vermelha para transparências Faber-Castell. A mão e a foto são do Alexandre. O título desta nota provém, está claro, de um filme de Alain Resnais.

Antes de Adormecer X (dar-te música)




Não mais adormecer
sem
o teu corpo fremente sob o meu


Assimetria


Não sentes a minha falta, esses lábios doirada e delicadamente encostados à auréola que orla o teu mamilo, a língua desbravando elipses como órbitas irregulares de astros circundando o Sol, o teu imenso Sol de argêntea certeza que se humedece e contorce?

Enumero: mamilo esquerdo e elipses descontraídas que não são círculos. Concluo nunca ter compreendido esta quebra de simetria quando enceto a manobra de aproximação ao teu corpo.

Sede


Saciava a sede com os prodígios da tua voz.

10 de julho de 2007

Antes de Adormecer IX (a impossibilidade de se ser humano)


Bem sei que não aprecias Bukowski. Eu também sempre irei sustentar a afirmação em como não partilho desse teu febril entusiasmo com os impressionistas. Eu gosto da desmesura. Ah, a impossibilidade de se ser demasiadamente humano, meu Azul Neblina!

Van Gogh writing his brother for paints
Hemingway testing his shotgun
Celine going broke as a doctor of medicine
the impossibility of being human
Villon expelled from Paris for being a thief
Faulkner drunk in the gutters of his town
the impossibility of being human
Burroughs killing his wife with a gun
Mailer stabbing his
the impossibility of being human
Maupassant going mad in a rowboat
Dostoyevsky lined up against a wall to be shot
Crane off the back of a boat into the propeller
the impossibility
Sylvia with her head in the oven like a baked potato
Harry Crosby leaping into that Black Sun
Lorca murdered in the road by Spanish troops
the impossibility
Artaud sitting on a madhouse bench
Chatterton drinking rat poison
Shakespeare a plagarist
Beethoven with a horn stuck into his head against deafness
the impossibility the impossibility
Nietzsche gone totally mad
the impossibility of being human
all too human
this breathing
in and out
out and in
these punks
these cowards
these champions
these mad dogs of glory
moving this little bit of light toward us
impossibly.


Charles Bukowki, Beasts Bounding Through Time

4 de julho de 2007

Ett två






Diz-me, meu amor, porque é que és um país tão distante?


Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands


"Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands". Devo confessar que é um título delicioso. Com este agregado de palavrinhas, que o tartamudo se abstenha; "Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands" - repito -, pois é de lamber os beiços e chorar por mais (como naquele anúncio do "Boca-Doce", recordas-te, amor meu?).

"Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands"...


(não irei ter a devida oportunidade de explicar de que raio afinal se trata essa coisa do Drinfeld e a sua correspondência com o Langlands, porque já te indignaste o suficiente com o facto de haver Matemática a mais neste blogue, mas quem quiser consultar o artigo faça o favor de clicar aqui)

3 de julho de 2007

"I see your radiant kiss my lover"

















Reflected in the eye of the dragonfly on the lunar pool
And we will sail away on oceans
And a haze of carillons and juniper spines from the great valley of humming gongs
On ships, that sail away forever

Unexplained light reflected from the spine of a metallic viper
I see your radiant kiss my lover
Strange rooms engulfed by an halo of alien architecture
Like sun across my eyes forever

And the dark gargoyle of dragonflies encased in sulfur
You will see me standing there my lover
Through a silent walk of flowered night shadows
Like trees against the sky forever

Then, an unexplained kiss from a lethal angel
And we will sail away on oceans
Reflected in the eye of the dragonfly on the lunar pool
On ships, that sail away forever


Harold Budd

Imagem: Dragonfly, Alberto Vargas

2 de julho de 2007

Pálpebras

Dou-me conta de que adoro beijar-te as pálpebras. Aqui, aqui e aqui. Por alguma razão deverás ter-me chamado de excessivo, atiro.


Antes de Adormecer VIII

Antes de adormecer eis que uma dúvida me assalta. Já te terei contado a história do mestre de cerimónias e dos samurais? Não te parece uma boa ocasião para assaltar o teu sono repousado às três e meia da alba e, beijando-te ao de leve as pálpebras que escondem o Azul neblina, tricotar as palavrinhas até que uma história - a única possível - seja urdida?

(...)

É aqui que deves devolver-me o teu costumeiro e ensonado "Parece-me bem, amor meu".


29 de junho de 2007

Antes de Adormecer VII


Sem ti tudo é baço. Haja, contudo, sonhos a imitar a felicidade.


26 de junho de 2007

Joyce pelas seis da manhã



Não tenho a certeza que ele tenha escrito isto: "Há uma maior diferença entre um ser humano que sabe mecânica quântica e outro que não sabe, do que entre um ser humano que não sabe e os grandes símios". Mas conhecendo-o bem, diria que não é de todo improvável.

E a pergunta do dia, anjo meu, é a seguinte: "O que é que o Murray Gell-Mann tem a ver com o James Joyce?"

Na imagem, duas páginas fac-similadas do caderno de notas do Finnegans Wake. Podem ser adquiridas aqui.

Antes de Adormecer VI

Beijar-te-ei a curva do seio e enrolarei as minhas pestanas sobre a auréola que as orla. Rir-te-ás timidamente e voltarei a ser criança.

25 de junho de 2007

Roía maçãs Engolia a retórica




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Até que alguém opinou que era bem melhor roer a retórica e engolir maçãs. E assim o fiz com denodada convicção gravitacional.

Hoje irei resgatar-te das estantes da FNAC

Antes de Adormecer V


Creio ser de Khlebnikov a seguinte afirmação: "Quando as pessoas morrem, cantam-se canções."

É este punhado de palavras tudo o que guardo comigo no coração para que, talvez um dia, também eu te possa compor uma canção. A mais triste e mais bela do mundo. Como o Azul que habita nos teus olhos quando a noite em mim se impõe, magistral e líquida, e a única coisa possível a fazer é tombar nessa leveza feliz e ciciar-te apenas isto: "quero-tanto, amor meu".


24 de junho de 2007

SMS II


De: 93 465 88 01
Para: 9X XXX XX XX


E agora que a noite já cheira a alfazema e a Estio, dás-me um beijo de Verão?


Extensão: 77 caracteres

SMS I


De: 93 465 88 01
Para: 9X XXX XX XX


"She walks in beauty, like the night" (Byron). És tu quem caminha assim. Beijo-te como a luz do Sol adora beijar a tua pele.


Extensão: 124 caracteres

É mais ou menos assim que começa a noite


Agarrar no carro e ir ter contigo, beijar-te ao de leve a nuca, despir-te lentamente, beliscar-te os mamilos como se fossem campânulas floridas, sentar-te ao meu colo, fazer-te festinhas no teu cabelo trigado pelas estrelas e escová-lo. Tu irias roçar-te no meu sexo duro e quando os meus dedos entrassem em ti iriam ficar todos molhados. Levá-los-ia à tua boca em jeito de convite. E depois, sabes o que faria?


20 de junho de 2007

Azul glaciar (definição)

Azul glaciar (cf. bleu glacier): Outrora tinhas um coração onde hoje mora a dama do xadrez. Com tabuleiro de mármore. A condizer com as temperaturas glaciares. Eu tenho uma caixa de cigarrilhas no lugar do coração, ouviste-me dizer vezes sem conta. Já não jogo xadrez: o herói da Odisseia entretém-se apenas a pensar na "longa esteira de sal do mar". Acercar-me do teu sorriso como quem mordisca romãs. Acercar como se acerca do Sol sem medo de se abrasar.

Ou como no filme do Fassbinder: "Liebe ist kälter als der tod" (o Amor é mais frio do que a morte).

[do dicionário de Azul por escrever]

15 de junho de 2007

(Ainda) Antes de adormecer (algumas ideias a roçar a maluquice) IV



Alexandre: "Vou deixar crescer um bigode à Paul Adrien Maurice Dirac ou à Andrei Tarkovsky. Que tal?
Ela/Tu: "Céus! Que disparate, amor meu!"

Alexandre: "Pronto, pronto. Ainda bem que guardei para o ermitário dos botõezinhos da minha camisa Azul cerúleo a barba à Kurchatov..."

(E ris-te amplamente. Que outra coisa haverias de fazer?)

Sim, adivinharam: É o Dirac do electrão relativista, o Tarkovsky (Андре́й Арсе́ньевич Тарко́вский) do "Prófiéssór, Prófiéssór!" do Stalker e o Kurchatov... bem, o Kurchatov (И́горь Васи́льевич Курча́тов) da barba - ah, e das bombas soviéticas de implosão de plutónio e de hidrogénio.

14 de junho de 2007

Antes de adormecer III


Talvez ainda possa ser feliz, mesmo sem ti. Assim como vês, com os prelúdios do Rachmaninov, uma garrafa de vodka e com os olhos a demorarem-se num quadro do Kandinsky que a parede ainda teima em aguentar no seu sítio prometido. Não, não são lágrimas que perlam o meu rosto. É o álcool que dita tudo. E os dedos do Vladimir Ashkenazy.


11 de junho de 2007

Azul III (o número favorito)



Ela/Tu: "Qual é o teu número favorito, amor?"
Alexandre: "Tu és o meu número favorito, mas antes que um sorriso aflore aos teus lábios, dir-te-ei que hoje será aquele do Táxi, o do Ramanujan."

Ela/Tu: "Qual, aquele que aparece no teu poema, o 1729?"
Alexandre: "Precisamente. Lê isto. Não há de todo números aborrecidos, apenas pessoas entediantes."

I remember once going to see him when he was lying ill at Putney. I had ridden in taxi-cab No. 1729, and remarked that the number seemed to be rather a dull one, and that I hoped it was not an unfavourable omen. "No", he replied, "it is a very interesting number; it is the smallest number expressible as the sum of two [positive] cubes in two different ways.
Hardy, sobre Ramanujan (a citação pode encontrar-se neste genial livro: Hofstadter, D. R. Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid New York: Vintage Books, p. 564, 1989)

Em matemática o número táxi de ordem n define-se como o número mais pequeno que pode ser expresso sob a forma de uma soma de dois cubos positivos, de n maneiras distintas. Apenas cinco números táxi são conhecidos: 2 (o caso trivial), 1729, 87539319, 6963472309248 e 48988659276962496. Assim, o número de Hardy-Ramanujan pode ser escrito da seguinte forma:

1729= 13 + 123= 93 + 103


Alexandre: "E qual é o teu número favorito, tu que adoras o Azul e eu a tessitura dos teus dedos quando alinham conspirações na minha pele?"
Ela/Tu: "..."

Na imagem: fotogramas da série Futurama. A imagem é proveniente do Mathworld.

O enigma das lemniscatas



Quando estou com os copos gosto mesmo de lemniscatas. Quando estou sóbrio beijo as pontas dos teus dedos e digo que gosto apenas de ti. E de sólidos de Dürer.

Imagem: Melencolia I, Albrecht Dürer.

O que fazes, anjo?



Ele: "O que estás a fazer?"
Ela: "Estou a rodar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Cada revolução rouba o momento angular do planeta, atrasando a sua taxa de rotação um pouquinho, tornando a noite mais longa, atrasando a alvorada, e dando-me um pouco mais de tempo aqui. CONTIGO."

Para quem estiver interessado, o princípio físico aqui representado é o da conservação do momento angular e se andasses a patinar no gelo saberias bem ao que me referia. Eu acrescento que é uma delícia este sítio que reúne as tiras do colega Randall Munroe. Como ele tem a oportunidade de explicar na sua página aos transeuntes que se atrevem a aventurar: "Warning: this comic occasionally contains strong language (which may be unsuitable for children), unusual humor (which may be unsuitable for adults), and advanced mathematics (which may be unsuitable for liberal-arts majors)." E desta feita não são necessárias traduções, pois não?


Azul II

Alexandre: "A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros?"
Ela/Tu: "..."
Alexandre: "Também não te saberei responder. Mas anda lá conjugar o verbo Azul comigo."

10 de junho de 2007

Lições de Astrofísica IV ou Óptica I


A criança pergunta o que é o cristalino dos olhos. A mim, apetece afirmar que este é apenas uma lente convergente cuja única tarefa se resume a focar a luz para o interior do olho e, de forma doutamente distraída, discorrer um pouco sobre a disciplina da Óptica. Preparo-me para confabular sobre o sistema óptico córnea-cristalino mas limito-me a apertar-lhe ainda mais a sua mão franzina e, antes de estugarmos um pouco o passo, acerco-me dele e em jeito de confidência atiro-lhe que o cristalino é assim como a imaginação, os sonhos ou os livros que gostamos de desarrumar em casa: permite-nos ver ao longe e ao perto.

A criança pergunta se o Universo é infinito. E Alexandre responde-lhe que isso por ora não interessa, porque há coisas mais bonitas que se escondem na finitude da palma da mão e que a questão da dimensão do Universo é algo que não é para um passeio destes sob uma álea de árvores bem floridas, bem abertas, bem despertas. É Primavera e parece-me que há jacarandás, cerejeiras e pessegueiros em flor. E a criança sorri. Sorri. Com a lucidez do teu sorriso e com os teus olhos Azul Neblina. Mas com o meu apetite pela Natureza.


A imagem é uma ilustração retirada de “Opticks” (1704), o célebre tratado de Isaac Newton sobre a Óptica. A edição facsimilada encontra-se disponível na íntegra aqui.

9 de junho de 2007

Lições de Astrofísica III

Imaginem que nas minhas mãos tenho uma palavra que diz Sol. Agora imaginem que cerro o punho e escondo essa palavra do alcance do olhar. O que irá suceder? Será que esse Sol ir-se-á eclipsar? Ou será que a palavra irá persistir na minha mão, tingida para sempre, aguardando apenas que eu volte a abri-la e que essa estrela reverdeça e rebrilhe em mim? É certo que não há estrelas imorredoiras, pois não, amor? Mas hoje irei convencer-me do contrário e sussurrar muito baixinho - para que apenas tu o possas escutar - que "o Sol não é apenas essa estrela que há em mim, mas também é uma confusão marcada a ferro e a fogo nos teus lábios".

8 de junho de 2007

Incipit de uma carta nunca enviada


Amor:

“Siempre quise a Paulina”. É assim que Bioy Casares começa o seu En Memoria de Paulina. É o meu mote para te falar sobre a memória. De como estamos sempre a reconstruir a memória, num processo atroz e terrificamente doloroso. E se adjectivo desta forma empastelada é porque é assim que eu concebo a memória. Em amálgamas e amálgamas de factos.


(Escusado será dizer que a carta nunca foi terminada. Não a irias ler, pois não, amor meu?)