11 de julho de 2007

Assimetria


Não sentes a minha falta, esses lábios doirada e delicadamente encostados à auréola que orla o teu mamilo, a língua desbravando elipses como órbitas irregulares de astros circundando o Sol, o teu imenso Sol de argêntea certeza que se humedece e contorce?

Enumero: mamilo esquerdo e elipses descontraídas que não são círculos. Concluo nunca ter compreendido esta quebra de simetria quando enceto a manobra de aproximação ao teu corpo.

Sede


Saciava a sede com os prodígios da tua voz.

10 de julho de 2007

Antes de Adormecer IX (a impossibilidade de se ser humano)


Bem sei que não aprecias Bukowski. Eu também sempre irei sustentar a afirmação em como não partilho desse teu febril entusiasmo com os impressionistas. Eu gosto da desmesura. Ah, a impossibilidade de se ser demasiadamente humano, meu Azul Neblina!

Van Gogh writing his brother for paints
Hemingway testing his shotgun
Celine going broke as a doctor of medicine
the impossibility of being human
Villon expelled from Paris for being a thief
Faulkner drunk in the gutters of his town
the impossibility of being human
Burroughs killing his wife with a gun
Mailer stabbing his
the impossibility of being human
Maupassant going mad in a rowboat
Dostoyevsky lined up against a wall to be shot
Crane off the back of a boat into the propeller
the impossibility
Sylvia with her head in the oven like a baked potato
Harry Crosby leaping into that Black Sun
Lorca murdered in the road by Spanish troops
the impossibility
Artaud sitting on a madhouse bench
Chatterton drinking rat poison
Shakespeare a plagarist
Beethoven with a horn stuck into his head against deafness
the impossibility the impossibility
Nietzsche gone totally mad
the impossibility of being human
all too human
this breathing
in and out
out and in
these punks
these cowards
these champions
these mad dogs of glory
moving this little bit of light toward us
impossibly.


Charles Bukowki, Beasts Bounding Through Time

4 de julho de 2007

Ett två






Diz-me, meu amor, porque é que és um país tão distante?


Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands


"Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands". Devo confessar que é um título delicioso. Com este agregado de palavrinhas, que o tartamudo se abstenha; "Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands" - repito -, pois é de lamber os beiços e chorar por mais (como naquele anúncio do "Boca-Doce", recordas-te, amor meu?).

"Chtoucas de Drinfeld et correspondance de Langlands"...


(não irei ter a devida oportunidade de explicar de que raio afinal se trata essa coisa do Drinfeld e a sua correspondência com o Langlands, porque já te indignaste o suficiente com o facto de haver Matemática a mais neste blogue, mas quem quiser consultar o artigo faça o favor de clicar aqui)

3 de julho de 2007

"I see your radiant kiss my lover"

















Reflected in the eye of the dragonfly on the lunar pool
And we will sail away on oceans
And a haze of carillons and juniper spines from the great valley of humming gongs
On ships, that sail away forever

Unexplained light reflected from the spine of a metallic viper
I see your radiant kiss my lover
Strange rooms engulfed by an halo of alien architecture
Like sun across my eyes forever

And the dark gargoyle of dragonflies encased in sulfur
You will see me standing there my lover
Through a silent walk of flowered night shadows
Like trees against the sky forever

Then, an unexplained kiss from a lethal angel
And we will sail away on oceans
Reflected in the eye of the dragonfly on the lunar pool
On ships, that sail away forever


Harold Budd

Imagem: Dragonfly, Alberto Vargas

2 de julho de 2007

Pálpebras

Dou-me conta de que adoro beijar-te as pálpebras. Aqui, aqui e aqui. Por alguma razão deverás ter-me chamado de excessivo, atiro.


Antes de Adormecer VIII

Antes de adormecer eis que uma dúvida me assalta. Já te terei contado a história do mestre de cerimónias e dos samurais? Não te parece uma boa ocasião para assaltar o teu sono repousado às três e meia da alba e, beijando-te ao de leve as pálpebras que escondem o Azul neblina, tricotar as palavrinhas até que uma história - a única possível - seja urdida?

(...)

É aqui que deves devolver-me o teu costumeiro e ensonado "Parece-me bem, amor meu".


29 de junho de 2007

Antes de Adormecer VII


Sem ti tudo é baço. Haja, contudo, sonhos a imitar a felicidade.


26 de junho de 2007

Joyce pelas seis da manhã



Não tenho a certeza que ele tenha escrito isto: "Há uma maior diferença entre um ser humano que sabe mecânica quântica e outro que não sabe, do que entre um ser humano que não sabe e os grandes símios". Mas conhecendo-o bem, diria que não é de todo improvável.

E a pergunta do dia, anjo meu, é a seguinte: "O que é que o Murray Gell-Mann tem a ver com o James Joyce?"

Na imagem, duas páginas fac-similadas do caderno de notas do Finnegans Wake. Podem ser adquiridas aqui.

Antes de Adormecer VI

Beijar-te-ei a curva do seio e enrolarei as minhas pestanas sobre a auréola que as orla. Rir-te-ás timidamente e voltarei a ser criança.

25 de junho de 2007

Roía maçãs Engolia a retórica




Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica Roía maçãs Engolia a retórica

Até que alguém opinou que era bem melhor roer a retórica e engolir maçãs. E assim o fiz com denodada convicção gravitacional.

Hoje irei resgatar-te das estantes da FNAC

Antes de Adormecer V


Creio ser de Khlebnikov a seguinte afirmação: "Quando as pessoas morrem, cantam-se canções."

É este punhado de palavras tudo o que guardo comigo no coração para que, talvez um dia, também eu te possa compor uma canção. A mais triste e mais bela do mundo. Como o Azul que habita nos teus olhos quando a noite em mim se impõe, magistral e líquida, e a única coisa possível a fazer é tombar nessa leveza feliz e ciciar-te apenas isto: "quero-tanto, amor meu".


24 de junho de 2007

SMS II


De: 93 465 88 01
Para: 9X XXX XX XX


E agora que a noite já cheira a alfazema e a Estio, dás-me um beijo de Verão?


Extensão: 77 caracteres

SMS I


De: 93 465 88 01
Para: 9X XXX XX XX


"She walks in beauty, like the night" (Byron). És tu quem caminha assim. Beijo-te como a luz do Sol adora beijar a tua pele.


Extensão: 124 caracteres

É mais ou menos assim que começa a noite


Agarrar no carro e ir ter contigo, beijar-te ao de leve a nuca, despir-te lentamente, beliscar-te os mamilos como se fossem campânulas floridas, sentar-te ao meu colo, fazer-te festinhas no teu cabelo trigado pelas estrelas e escová-lo. Tu irias roçar-te no meu sexo duro e quando os meus dedos entrassem em ti iriam ficar todos molhados. Levá-los-ia à tua boca em jeito de convite. E depois, sabes o que faria?


20 de junho de 2007

Azul glaciar (definição)

Azul glaciar (cf. bleu glacier): Outrora tinhas um coração onde hoje mora a dama do xadrez. Com tabuleiro de mármore. A condizer com as temperaturas glaciares. Eu tenho uma caixa de cigarrilhas no lugar do coração, ouviste-me dizer vezes sem conta. Já não jogo xadrez: o herói da Odisseia entretém-se apenas a pensar na "longa esteira de sal do mar". Acercar-me do teu sorriso como quem mordisca romãs. Acercar como se acerca do Sol sem medo de se abrasar.

Ou como no filme do Fassbinder: "Liebe ist kälter als der tod" (o Amor é mais frio do que a morte).

[do dicionário de Azul por escrever]

15 de junho de 2007

(Ainda) Antes de adormecer (algumas ideias a roçar a maluquice) IV



Alexandre: "Vou deixar crescer um bigode à Paul Adrien Maurice Dirac ou à Andrei Tarkovsky. Que tal?
Ela/Tu: "Céus! Que disparate, amor meu!"

Alexandre: "Pronto, pronto. Ainda bem que guardei para o ermitário dos botõezinhos da minha camisa Azul cerúleo a barba à Kurchatov..."

(E ris-te amplamente. Que outra coisa haverias de fazer?)

Sim, adivinharam: É o Dirac do electrão relativista, o Tarkovsky (Андре́й Арсе́ньевич Тарко́вский) do "Prófiéssór, Prófiéssór!" do Stalker e o Kurchatov... bem, o Kurchatov (И́горь Васи́льевич Курча́тов) da barba - ah, e das bombas soviéticas de implosão de plutónio e de hidrogénio.

14 de junho de 2007

Antes de adormecer III


Talvez ainda possa ser feliz, mesmo sem ti. Assim como vês, com os prelúdios do Rachmaninov, uma garrafa de vodka e com os olhos a demorarem-se num quadro do Kandinsky que a parede ainda teima em aguentar no seu sítio prometido. Não, não são lágrimas que perlam o meu rosto. É o álcool que dita tudo. E os dedos do Vladimir Ashkenazy.


11 de junho de 2007

Azul III (o número favorito)



Ela/Tu: "Qual é o teu número favorito, amor?"
Alexandre: "Tu és o meu número favorito, mas antes que um sorriso aflore aos teus lábios, dir-te-ei que hoje será aquele do Táxi, o do Ramanujan."

Ela/Tu: "Qual, aquele que aparece no teu poema, o 1729?"
Alexandre: "Precisamente. Lê isto. Não há de todo números aborrecidos, apenas pessoas entediantes."

I remember once going to see him when he was lying ill at Putney. I had ridden in taxi-cab No. 1729, and remarked that the number seemed to be rather a dull one, and that I hoped it was not an unfavourable omen. "No", he replied, "it is a very interesting number; it is the smallest number expressible as the sum of two [positive] cubes in two different ways.
Hardy, sobre Ramanujan (a citação pode encontrar-se neste genial livro: Hofstadter, D. R. Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid New York: Vintage Books, p. 564, 1989)

Em matemática o número táxi de ordem n define-se como o número mais pequeno que pode ser expresso sob a forma de uma soma de dois cubos positivos, de n maneiras distintas. Apenas cinco números táxi são conhecidos: 2 (o caso trivial), 1729, 87539319, 6963472309248 e 48988659276962496. Assim, o número de Hardy-Ramanujan pode ser escrito da seguinte forma:

1729= 13 + 123= 93 + 103


Alexandre: "E qual é o teu número favorito, tu que adoras o Azul e eu a tessitura dos teus dedos quando alinham conspirações na minha pele?"
Ela/Tu: "..."

Na imagem: fotogramas da série Futurama. A imagem é proveniente do Mathworld.

O enigma das lemniscatas



Quando estou com os copos gosto mesmo de lemniscatas. Quando estou sóbrio beijo as pontas dos teus dedos e digo que gosto apenas de ti. E de sólidos de Dürer.

Imagem: Melencolia I, Albrecht Dürer.

O que fazes, anjo?



Ele: "O que estás a fazer?"
Ela: "Estou a rodar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Cada revolução rouba o momento angular do planeta, atrasando a sua taxa de rotação um pouquinho, tornando a noite mais longa, atrasando a alvorada, e dando-me um pouco mais de tempo aqui. CONTIGO."

Para quem estiver interessado, o princípio físico aqui representado é o da conservação do momento angular e se andasses a patinar no gelo saberias bem ao que me referia. Eu acrescento que é uma delícia este sítio que reúne as tiras do colega Randall Munroe. Como ele tem a oportunidade de explicar na sua página aos transeuntes que se atrevem a aventurar: "Warning: this comic occasionally contains strong language (which may be unsuitable for children), unusual humor (which may be unsuitable for adults), and advanced mathematics (which may be unsuitable for liberal-arts majors)." E desta feita não são necessárias traduções, pois não?


Azul II

Alexandre: "A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros?"
Ela/Tu: "..."
Alexandre: "Também não te saberei responder. Mas anda lá conjugar o verbo Azul comigo."

10 de junho de 2007

Lições de Astrofísica IV ou Óptica I


A criança pergunta o que é o cristalino dos olhos. A mim, apetece afirmar que este é apenas uma lente convergente cuja única tarefa se resume a focar a luz para o interior do olho e, de forma doutamente distraída, discorrer um pouco sobre a disciplina da Óptica. Preparo-me para confabular sobre o sistema óptico córnea-cristalino mas limito-me a apertar-lhe ainda mais a sua mão franzina e, antes de estugarmos um pouco o passo, acerco-me dele e em jeito de confidência atiro-lhe que o cristalino é assim como a imaginação, os sonhos ou os livros que gostamos de desarrumar em casa: permite-nos ver ao longe e ao perto.

A criança pergunta se o Universo é infinito. E Alexandre responde-lhe que isso por ora não interessa, porque há coisas mais bonitas que se escondem na finitude da palma da mão e que a questão da dimensão do Universo é algo que não é para um passeio destes sob uma álea de árvores bem floridas, bem abertas, bem despertas. É Primavera e parece-me que há jacarandás, cerejeiras e pessegueiros em flor. E a criança sorri. Sorri. Com a lucidez do teu sorriso e com os teus olhos Azul Neblina. Mas com o meu apetite pela Natureza.


A imagem é uma ilustração retirada de “Opticks” (1704), o célebre tratado de Isaac Newton sobre a Óptica. A edição facsimilada encontra-se disponível na íntegra aqui.

9 de junho de 2007

Lições de Astrofísica III

Imaginem que nas minhas mãos tenho uma palavra que diz Sol. Agora imaginem que cerro o punho e escondo essa palavra do alcance do olhar. O que irá suceder? Será que esse Sol ir-se-á eclipsar? Ou será que a palavra irá persistir na minha mão, tingida para sempre, aguardando apenas que eu volte a abri-la e que essa estrela reverdeça e rebrilhe em mim? É certo que não há estrelas imorredoiras, pois não, amor? Mas hoje irei convencer-me do contrário e sussurrar muito baixinho - para que apenas tu o possas escutar - que "o Sol não é apenas essa estrela que há em mim, mas também é uma confusão marcada a ferro e a fogo nos teus lábios".

8 de junho de 2007

Incipit de uma carta nunca enviada


Amor:

“Siempre quise a Paulina”. É assim que Bioy Casares começa o seu En Memoria de Paulina. É o meu mote para te falar sobre a memória. De como estamos sempre a reconstruir a memória, num processo atroz e terrificamente doloroso. E se adjectivo desta forma empastelada é porque é assim que eu concebo a memória. Em amálgamas e amálgamas de factos.


(Escusado será dizer que a carta nunca foi terminada. Não a irias ler, pois não, amor meu?)


5 de junho de 2007

MacBeth


Hoje à noite talvez irá haver MacBeth e depois duas ou três Corona com uma luz pardacenta a tombar sobre o meu rosto. Hoje à noite talvez preferisse deixar as quezílias dos escoceses em paz e ver essoutra interpretação de MacBeth do Kurosawa (Kumonosu jô, 1957) com o grande Toshirō Mifune (recordas-te, amor meu, dos "Sete Samurais" ou de "Rashomon"? - naquela altura os cinemas não tinham pipocas e beijava-te as pálpebras quando a luz trémula do ecrã não te encantava, não te seduzia, não te abençoava). Hoje à noite talvez espreite com mais atenção os poucos livros que comprei na Feira do Livro do Porto e, que por alguma razão, gostaria de os partilhar contigo. Hoje à noite talvez sorria com a manipuladora Lady MacBeth. Ou talvez hoje à noite com a ambiguidade moral ou o dilúvio de sangue que se avizinha. Hoje à noite talvez. Talvez a enlanguescer assim assim em beatífico estupor de um certo álcool melífluo. Talvez a cair da cadeira. Talvez a instalar-se em mim o torpor da noite. E talvez adormecer assim: a mastigar os meus sonhos, a espezinhar as palavras e a escoucinhar o meu desejo de estar em ti como em Setembro. "Nunca cumpras as tuas promessas. É um modo muito triste de morrer" (Daniel Faria). Talvez assim. Talvez. Assim.

Oscar Wilde por processo quasi-estocástico

Um homem pode ser perfeitamente infeliz com qualquer mulher. Sobretudo se a amar.

(ou pode ser um perfeito idiota)

Sobre a contingência da palavra "amor"

Defende que "a palavra amor é incendiária" e diz que toda a sua vida foi um disparate. Então, o amor será disparate?

Quase sempre e talvez mais o amor que escolhi. A minha vida foi uma aventura estranha mas bonita. No campo do amor, não tenho coisas muito feias para me entristecerem; sinto, porém, que hoje me faz falta ter alguém ao meu lado. De repente, um tipo verifica isto: uma vida inteira de amores, e de amores muito bonitos, mas que passam...


Entrevista a Artur do Cruzeiro Seixas por Maria Augusta Silva in Apeadeiro, número duplo 4/5

2 de junho de 2007

Ett Brev



(Ou: bem me parece que devia dizer qualquer coisa sobre esta carta. Se calhar amanhã alinhavarei umas linhas a esse propósito)

A propos de O'Neill



Albertina! Eu quero um verso que não há!...

(onde? in "No reino da Dinamarca", minha pobre Ofélia)

(quando? milenovecentosecinquentaeoitosenãoestouemerro)

1 de junho de 2007

Brisure spontanée de symétrie

Gosto de simetrias. Sobretudo se estas forem imperfeitas. E anuncio-te que me apraz a ideia de quebras espontâneas de simetria. E porquê? Se instado a explicar diria simplesmente que é porque gosto de ti.

31 de maio de 2007

Ando a namoriscar


Bem sei que me dirias que eu não tenho o hábito de ler Pirandello. Ou talvez te remetesses a um silêncio de madrepérola quando, no café, repousarias os dedos sobre a minha coxa e com palavras e gestos especiosos me convencerias que o melhor era mesmo deixar de lado o Pirandello e a caixinha de cigarrilhas e fazer amor contigo.

Para quem não queira adiar a leitura, a edição é da Cavalo de Ferro (sim, sabes bem que eu gosto muito desta editora) com tradução de Margarida Pequito. Ora lê aqui.

25 de maio de 2007

A rose is a rose is a rose


Colhi-lhe uma rosa do meu quintal para ensaiar com a minha voz mais melíflua: "a rose is a rose is a rose" (Gertrude Stein). Ela retorquiu-me com prontidão luminosa que não se tratava de uma rosa. Devolvi-lhe, não sem antes me ter forçado a um levantar de ombros previamente estudado: "Não faz mal, tu também não és uma mulher, és a minha rapariga-de-pernas-altas e ofereço-te este Sol porque me sabes a Azul planetário e a promessas de Estio".


23 de maio de 2007

Onde termina o corpo

Bem sei que é uma combinação estranha: acordo para ler a demonstração do Teorema de Lindberg-Lévy, ouvir Jeff Buckley (soluço as palavras infinita tristeza) e depois remato com este poema do Al Berto resgatado ao esquecimento daquele livrinho que por aqui vês entretecido entre os meus dedos.

"combinara o encontro no limite deste século
onde nenhum homem dorme no limiar do dia
e o sonho se desfaz sob a nocturna incerteza

um raspar de veia reacende lumes
ilumina o turvo sangue os caminhos e a casa
onde pararam todos os relógios

quanto tempo para erguer a cabeça?
quem nos exterminará? no fim deste século
acordarão homens no outro lado da manhã?

que vestígios permanecerão desta reclusão?
e a morte existirá ainda
para além do ínfimo estremecer deste corpo?



é no silêncio
que melhor ludribio a morte



não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo

ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir"


(Al Berto, in Poesia do Mundo 2)

(Alexandre: "Gosto de ti com toda a improbabilidade do mundo")

20 de maio de 2007

Antes de adormecer II

São seis e muito da manhã e não consigo dormir. Porque toda a noite apeteceu-me ler-te um poema de René Char e adormeceres assim, como uma criança, a minha criança em fragilidade adiada. E no meu colo repetir-te tantas vezes "Les mots sauvent de nous ce que nous ignorons d'eux". Les mots. As palavras, amor. As palavras.

(nada receies: é apenas a música de Arvo Pärt que sibilia em mim o desejo de palavras-como-a-casa-da-tua-língua-como-os-meus-lábios-melanóstomos
como os dias que um dia amanheceram assim: num improvável Setembro Azul Neblina)

18 de maio de 2007

Ao despertar I

Ainda com farrapos de sonhos no meu cabelo recordo a célebre frase de Georg Cantor: "A essência da Matemática é a Liberdade". Acordei bem disposto, portanto.

Antes de adormecer I

Sinto-me como Otelo a olhar para Desdémona no seu leito.




Na foto: Desdémona, satélite de Urano, descoberto pela sonda Voyager 2 em 1986. Tem cerca de 64 quilómetros de diâmetro. A estrutura dos anéis do planeta Azul (sim, essoutro Azul) é bem visível na foto.

17 de maio de 2007

Bom samaritano

Hoje acordei a imaginar a improbabilidade da tessitura dos teus dedos no meu rosto a resgatar-me ao de leve levezinho do enfarruscado dos meus sonhos e a convocar-me para fazermos amor. Prontamente saí da cama, gesto lépido, salto acrobático, abluções matinais, pequeno-almoço robusto, café negríssimo curto galopante e meio-cachimbo a alimentar-se de Black Cavendish. Depois prestei-me a cumprir o meu dever cívico praticando a minha boa acção do dia:


É a acção de Einstein-Hilbert em que o Lagrangiano inclui um termo de matéria e uma constante cosmológica. Gosto desta acção. Assim mesmo, límpida, sem o termo de fronteira de Gibbons-Hawking-York, porque assim como assim a variedade do meu espaço-tempo não tem fronteira. Mas acredita que gosto mais de ti. E não creio que acção alguma o possa demonstrar.

Lições de Astrofísica II



Tu estás em mim como uma estrela no seu berçário.
Como a palavra imorredoira que é Orfeu e ascende à garganta provindo das entranhas resgatando Eurídice e um porco-espinho.
Como uma ânsia veloz que soluça e aspira a ser azul neblina.
Como azul cerúleo, rente ao coração: teus
cinco dedos rente rente rente rente rente ao coração.

Lições de Astrofísica I

"She walks in beauty, like the night" (Byron)

És tu quem caminha assim. Beijo-te como a luz do Sol adora beijar a tua pele, pois és um corpúsculo de poeira vagueando no meio interestelar e animado de um movimento bruxuleante que não estranha a frieza glaciar do cosmos. E, ao amanhecer, sou eu que entardeço de cansaço e finalmente sucumbo a beijar-te as pálpebras e a chamar-te de minha. Assimptoticamente minha.

Porque também eu morro a cada dia que passa sem a planura dos teus dedos no meu epitélio


"La idea del futuro vendría a justificar aquella antigua idea de Platón, de que el tiempo es imagen móvil de lo eterno. El futuro vendría a ser el movimiento del alma hacia el porvenir. El porvenir sería, a su vez, la vuelta a lo eterno. Es decir, que nuestra vida es una continua agonía. Cuando San Pablo dijo: «Muero cada día», no era una expresión patética la suya. La verdad es que morimos cada día y que nacemos cada día. Estamos continuamente naciendo y muriendo. Por eso el problema del tiempo nos toca más que los otros problemas metafísicos. El del tiempo es nuestro problema. ¿Quién soy yo? ¿Quién es cada uno de nosotros? ¿Quiénes somos? Quizás lo sepamos alguna vez. Quizás no. Pero mientras tanto, como dijo San Agustín, mi alma arde porque quiere saberlo.”

(Jorge Luis Borges, em palestra proferida na Universidade de Belgrano a 23 de Junho de 1978 in "Borges Oral", Alianza Editorial)

E ainda duvidas que Borges é o meu escritor quintessencial?

Créditos fotográficos: Pedro Meyer

15 de maio de 2007

Olha que não

"Disparate!", era o que dirias. Clicar aqui.

MMS


Versão SMS: "Tu és o planeta que não é planeta é antes uma estrela a única possível"

Fazes-me toda a falta do mundo



T o d a


Ficções 15


Saiu o novo número da "Ficções".

Quase quase quase que aposto que vale a pena comprar apenas pelo conto do Prévert (Recordações de família ou o anjo da guarda prisional). Mas ainda há Saul Bellow, Beckett e Philip K. Dick. Dir-te-ia: "Parece-te bem que compre?". Tu: "Parece-me lindamente!". E eu pensaria como gosto dos teus pontos de exclamação em movimento browniano no meu corpo, e como os meus olhos rebrilham como os de um miúdo quando as tuas mãos conjuram entrelaçamentos com as minhas.

(vês, amor, que não preciso de muito para ser feliz?)

Sai a 17 de Maio. As outras Ficções, bem entendido.

Tem dias que não sei se acredito na existência de uma realidade objectiva

Passeando na calçada:

Alexandre (pigarreando por forma a aclarar a voz): "Sim, eu acredito numa realidade microscópica independente do observador, quer este seja consciente ou uma mera drosophila melanogaster, vulgo moscardo da fruta.

Ou

Só são reais os nossos actos de observação e nada mais."

Ela/Tu: "Em que ficamos então, anjo meu?"

Alexandre: "Não sei. Mas apetece-me ouvir o Vôo do moscardo do Rimsky-Korsakov e zumbir, zumbir, zumbir ao mundo como te adoro."

Ela/Tu (voz bem-disposta, quase alacre): "Mas, amor, aquilo não é um moscardo, é uma abelha!"

E ris. Amplamente.

(e ao rires-te assim é como se uma lágrima despertasse em mim a sensação de epifania | júbilo | sou Iuri Alieksieievitch Gagarin a repetir júbilo e tu és a minha Valentina Oryacheva e contigo não temo ser ridículo)

Alexandre: "Ora, ora, não faz mal, pois hoje mesmo acordei na pele de Gregor Samsa, despertando de sonhos inquietos a puxar-me para a entomologia."


("A Terra é azul", Gagarin, 12 de Abril de 1961)