Antes de Adormecer VII
Sem ti tudo é baço. Haja, contudo, sonhos a imitar a felicidade.
A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros? Curtíssimas histórias brumosas e de uma duplicidade assumida de um aprendiz de Šahrzād dos tempos modernos que nunca quis entender o que era a astúcia cavilosa dos dias.
Palavras-chave: Antes de Adormecer

Palavras-chave: Antes de Adormecer

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Até que alguém opinou que era bem melhor roer a retórica e engolir maçãs. E assim o fiz com denodada convicção gravitacional.
Palavras-chave: Antes de Adormecer
Palavras-chave: Azul

Alexandre: "Vou deixar crescer um bigode à Paul Adrien Maurice Dirac ou à Andrei Tarkovsky. Que tal?
Ela/Tu: "Céus! Que disparate, amor meu!"
Palavras-chave: Antes de Adormecer
Palavras-chave: Antes de Adormecer

Ela/Tu: "Qual é o teu número favorito, amor?"
Alexandre: "Tu és o meu número favorito, mas antes que um sorriso aflore aos teus lábios, dir-te-ei que hoje será aquele do Táxi, o do Ramanujan."
I remember once going to see him when he was lying ill at Putney. I had ridden in taxi-cab No. 1729, and remarked that the number seemed to be rather a dull one, and that I hoped it was not an unfavourable omen. "No", he replied, "it is a very interesting number; it is the smallest number expressible as the sum of two [positive] cubes in two different ways.
Hardy, sobre Ramanujan (a citação pode encontrar-se neste genial livro: Hofstadter, D. R. Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid New York: Vintage Books, p. 564, 1989)
Palavras-chave: Azul, Matemática

Quando estou com os copos gosto mesmo de lemniscatas. Quando estou sóbrio beijo as pontas dos teus dedos e digo que gosto apenas de ti. E de sólidos de Dürer.
Imagem: Melencolia I, Albrecht Dürer.
Palavras-chave: Matemática

Palavras-chave: Lições de Astrofísica
Palavras-chave: Lições de Astrofísica
Amor:
“Siempre quise a Paulina”. É assim que Bioy Casares começa o seu En Memoria de Paulina. É o meu mote para te falar sobre a memória. De como estamos sempre a reconstruir a memória, num processo atroz e terrificamente doloroso. E se adjectivo desta forma empastelada é porque é assim que eu concebo a memória. Em amálgamas e amálgamas de factos.
Um homem pode ser perfeitamente infeliz com qualquer mulher. Sobretudo se a amar.
(ou pode ser um perfeito idiota)
Defende que "a palavra amor é incendiária" e diz que toda a sua vida foi um disparate. Então, o amor será disparate?
Quase sempre e talvez mais o amor que escolhi. A minha vida foi uma aventura estranha mas bonita. No campo do amor, não tenho coisas muito feias para me entristecerem; sinto, porém, que hoje me faz falta ter alguém ao meu lado. De repente, um tipo verifica isto: uma vida inteira de amores, e de amores muito bonitos, mas que passam...
– Albertina! Eu quero um verso que não há!...
(onde? in "No reino da Dinamarca", minha pobre Ofélia)
(quando? milenovecentosecinquentaeoitosenãoestouemerro)
Gosto de simetrias. Sobretudo se estas forem imperfeitas. E anuncio-te que me apraz a ideia de quebras espontâneas de simetria. E porquê? Se instado a explicar diria simplesmente que é porque gosto de ti.

Palavras-chave: Literatura
Bem sei que é uma combinação estranha: acordo para ler a demonstração do Teorema de Lindberg-Lévy, ouvir Jeff Buckley (soluço as palavras infinita tristeza) e depois remato com este poema do Al Berto resgatado ao esquecimento daquele livrinho que por aqui vês entretecido entre os meus dedos.
"combinara o encontro no limite deste século
onde nenhum homem dorme no limiar do dia
e o sonho se desfaz sob a nocturna incerteza
um raspar de veia reacende lumes
ilumina o turvo sangue os caminhos e a casa
onde pararam todos os relógios
quanto tempo para erguer a cabeça?
quem nos exterminará? no fim deste século
acordarão homens no outro lado da manhã?
que vestígios permanecerão desta reclusão?
e a morte existirá ainda
para além do ínfimo estremecer deste corpo?
é no silêncio
que melhor ludribio a morte
não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir"
São seis e muito da manhã e não consigo dormir. Porque toda a noite apeteceu-me ler-te um poema de René Char e adormeceres assim, como uma criança, a minha criança em fragilidade adiada. E no meu colo repetir-te tantas vezes "Les mots sauvent de nous ce que nous ignorons d'eux". Les mots. As palavras, amor. As palavras.
(nada receies: é apenas a música de Arvo Pärt que sibilia em mim o desejo de palavras-como-a-casa-da-tua-língua-como-os-meus-lábios-melanóstomos
como os dias que um dia amanheceram assim: num improvável Setembro Azul Neblina)
Palavras-chave: Antes de Adormecer
Ainda com farrapos de sonhos no meu cabelo recordo a célebre frase de Georg Cantor: "A essência da Matemática é a Liberdade". Acordei bem disposto, portanto.
Palavras-chave: Ao Despertar
Palavras-chave: Antes de Adormecer
Hoje acordei a imaginar a improbabilidade da tessitura dos teus dedos no meu rosto a resgatar-me ao de leve levezinho do enfarruscado dos meus sonhos e a convocar-me para fazermos amor. Prontamente saí da cama, gesto lépido, salto acrobático, abluções matinais, pequeno-almoço robusto, café negríssimo curto galopante e meio-cachimbo a alimentar-se de Black Cavendish. Depois prestei-me a cumprir o meu dever cívico praticando a minha boa acção do dia:
É a acção de Einstein-Hilbert em que o Lagrangiano inclui um termo de matéria e uma constante cosmológica. Gosto desta acção. Assim mesmo, límpida, sem o termo de fronteira de Gibbons-Hawking-York, porque assim como assim a variedade do meu espaço-tempo não tem fronteira. Mas acredita que gosto mais de ti. E não creio que acção alguma o possa demonstrar.

Tu estás em mim como uma estrela no seu berçário.
Como a palavra imorredoira que é Orfeu e ascende à garganta provindo das entranhas resgatando Eurídice e um porco-espinho.
Como uma ânsia veloz que soluça e aspira a ser azul neblina.
Como azul cerúleo, rente ao coração: teus
cinco dedos rente rente rente rente rente ao coração.
Palavras-chave: Lições de Astrofísica
"She walks in beauty, like the night" (Byron)
És tu quem caminha assim. Beijo-te como a luz do Sol adora beijar a tua pele, pois és um corpúsculo de poeira vagueando no meio interestelar e animado de um movimento bruxuleante que não estranha a frieza glaciar do cosmos. E, ao amanhecer, sou eu que entardeço de cansaço e finalmente sucumbo a beijar-te as pálpebras e a chamar-te de minha. Assimptoticamente minha.
Palavras-chave: Lições de Astrofísica

Saiu o novo número da "Ficções".
Quase quase quase que aposto que vale a pena comprar apenas pelo conto do Prévert (Recordações de família ou o anjo da guarda prisional). Mas ainda há Saul Bellow, Beckett e Philip K. Dick. Dir-te-ia: "Parece-te bem que compre?". Tu: "Parece-me lindamente!". E eu pensaria como gosto dos teus pontos de exclamação em movimento browniano no meu corpo, e como os meus olhos rebrilham como os de um miúdo quando as tuas mãos conjuram entrelaçamentos com as minhas.
(vês, amor, que não preciso de muito para ser feliz?)
Sai a 17 de Maio. As outras Ficções, bem entendido.
Palavras-chave: Literatura
Passeando na calçada:
Alexandre (pigarreando por forma a aclarar a voz): "Sim, eu acredito numa realidade microscópica independente do observador, quer este seja consciente ou uma mera drosophila melanogaster, vulgo moscardo da fruta.
Ou
Só são reais os nossos actos de observação e nada mais."
Ela/Tu: "Em que ficamos então, anjo meu?"
Alexandre: "Não sei. Mas apetece-me ouvir o Vôo do moscardo do Rimsky-Korsakov e zumbir, zumbir, zumbir ao mundo como te adoro."
Ela/Tu (voz bem-disposta, quase alacre): "Mas, amor, aquilo não é um moscardo, é uma abelha!"
E ris. Amplamente.
(e ao rires-te assim é como se uma lágrima despertasse em mim a sensação de epifania | júbilo | sou Iuri Alieksieievitch Gagarin a repetir júbilo e tu és a minha Valentina Oryacheva e contigo não temo ser ridículo)
Alexandre: "Ora, ora, não faz mal, pois hoje mesmo acordei na pele de Gregor Samsa, despertando de sonhos inquietos a puxar-me para a entomologia."
"Dá-me um começo", disse-lhe, "depois da noite transfigurada"
?missa em si
?si-belius ou o grande lobo da finlândia
?m-is-e-en-scène duma chávena partida
?mis-si-ssipi ou o grande engolidor de chamas
"esquece", disse-lhe, "dá-me antes um final"
?mi
?miss T. eriously.
?miss U.
"esquece", disse-lhe, "um ponto final fica just fine".
Hoje é dia 10 de Maio e o que foi combinado é que terias uma palavra como prenda de aniversário. Ei-la:

"As pessoas infelizes dão cabo do que amam porque não têm mais nada à mão." (Boris Vian)
Oui, ç'est vrai ça...