20 de junho de 2007

Azul glaciar (definição)

Azul glaciar (cf. bleu glacier): Outrora tinhas um coração onde hoje mora a dama do xadrez. Com tabuleiro de mármore. A condizer com as temperaturas glaciares. Eu tenho uma caixa de cigarrilhas no lugar do coração, ouviste-me dizer vezes sem conta. Já não jogo xadrez: o herói da Odisseia entretém-se apenas a pensar na "longa esteira de sal do mar". Acercar-me do teu sorriso como quem mordisca romãs. Acercar como se acerca do Sol sem medo de se abrasar.

Ou como no filme do Fassbinder: "Liebe ist kälter als der tod" (o Amor é mais frio do que a morte).

[do dicionário de Azul por escrever]

15 de junho de 2007

(Ainda) Antes de adormecer (algumas ideias a roçar a maluquice) IV



Alexandre: "Vou deixar crescer um bigode à Paul Adrien Maurice Dirac ou à Andrei Tarkovsky. Que tal?
Ela/Tu: "Céus! Que disparate, amor meu!"

Alexandre: "Pronto, pronto. Ainda bem que guardei para o ermitário dos botõezinhos da minha camisa Azul cerúleo a barba à Kurchatov..."

(E ris-te amplamente. Que outra coisa haverias de fazer?)

Sim, adivinharam: É o Dirac do electrão relativista, o Tarkovsky (Андре́й Арсе́ньевич Тарко́вский) do "Prófiéssór, Prófiéssór!" do Stalker e o Kurchatov... bem, o Kurchatov (И́горь Васи́льевич Курча́тов) da barba - ah, e das bombas soviéticas de implosão de plutónio e de hidrogénio.

14 de junho de 2007

Antes de adormecer III


Talvez ainda possa ser feliz, mesmo sem ti. Assim como vês, com os prelúdios do Rachmaninov, uma garrafa de vodka e com os olhos a demorarem-se num quadro do Kandinsky que a parede ainda teima em aguentar no seu sítio prometido. Não, não são lágrimas que perlam o meu rosto. É o álcool que dita tudo. E os dedos do Vladimir Ashkenazy.


11 de junho de 2007

Azul III (o número favorito)



Ela/Tu: "Qual é o teu número favorito, amor?"
Alexandre: "Tu és o meu número favorito, mas antes que um sorriso aflore aos teus lábios, dir-te-ei que hoje será aquele do Táxi, o do Ramanujan."

Ela/Tu: "Qual, aquele que aparece no teu poema, o 1729?"
Alexandre: "Precisamente. Lê isto. Não há de todo números aborrecidos, apenas pessoas entediantes."

I remember once going to see him when he was lying ill at Putney. I had ridden in taxi-cab No. 1729, and remarked that the number seemed to be rather a dull one, and that I hoped it was not an unfavourable omen. "No", he replied, "it is a very interesting number; it is the smallest number expressible as the sum of two [positive] cubes in two different ways.
Hardy, sobre Ramanujan (a citação pode encontrar-se neste genial livro: Hofstadter, D. R. Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid New York: Vintage Books, p. 564, 1989)

Em matemática o número táxi de ordem n define-se como o número mais pequeno que pode ser expresso sob a forma de uma soma de dois cubos positivos, de n maneiras distintas. Apenas cinco números táxi são conhecidos: 2 (o caso trivial), 1729, 87539319, 6963472309248 e 48988659276962496. Assim, o número de Hardy-Ramanujan pode ser escrito da seguinte forma:

1729= 13 + 123= 93 + 103


Alexandre: "E qual é o teu número favorito, tu que adoras o Azul e eu a tessitura dos teus dedos quando alinham conspirações na minha pele?"
Ela/Tu: "..."

Na imagem: fotogramas da série Futurama. A imagem é proveniente do Mathworld.

O enigma das lemniscatas



Quando estou com os copos gosto mesmo de lemniscatas. Quando estou sóbrio beijo as pontas dos teus dedos e digo que gosto apenas de ti. E de sólidos de Dürer.

Imagem: Melencolia I, Albrecht Dürer.

O que fazes, anjo?



Ele: "O que estás a fazer?"
Ela: "Estou a rodar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Cada revolução rouba o momento angular do planeta, atrasando a sua taxa de rotação um pouquinho, tornando a noite mais longa, atrasando a alvorada, e dando-me um pouco mais de tempo aqui. CONTIGO."

Para quem estiver interessado, o princípio físico aqui representado é o da conservação do momento angular e se andasses a patinar no gelo saberias bem ao que me referia. Eu acrescento que é uma delícia este sítio que reúne as tiras do colega Randall Munroe. Como ele tem a oportunidade de explicar na sua página aos transeuntes que se atrevem a aventurar: "Warning: this comic occasionally contains strong language (which may be unsuitable for children), unusual humor (which may be unsuitable for adults), and advanced mathematics (which may be unsuitable for liberal-arts majors)." E desta feita não são necessárias traduções, pois não?


Azul II

Alexandre: "A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros?"
Ela/Tu: "..."
Alexandre: "Também não te saberei responder. Mas anda lá conjugar o verbo Azul comigo."

10 de junho de 2007

Lições de Astrofísica IV ou Óptica I


A criança pergunta o que é o cristalino dos olhos. A mim, apetece afirmar que este é apenas uma lente convergente cuja única tarefa se resume a focar a luz para o interior do olho e, de forma doutamente distraída, discorrer um pouco sobre a disciplina da Óptica. Preparo-me para confabular sobre o sistema óptico córnea-cristalino mas limito-me a apertar-lhe ainda mais a sua mão franzina e, antes de estugarmos um pouco o passo, acerco-me dele e em jeito de confidência atiro-lhe que o cristalino é assim como a imaginação, os sonhos ou os livros que gostamos de desarrumar em casa: permite-nos ver ao longe e ao perto.

A criança pergunta se o Universo é infinito. E Alexandre responde-lhe que isso por ora não interessa, porque há coisas mais bonitas que se escondem na finitude da palma da mão e que a questão da dimensão do Universo é algo que não é para um passeio destes sob uma álea de árvores bem floridas, bem abertas, bem despertas. É Primavera e parece-me que há jacarandás, cerejeiras e pessegueiros em flor. E a criança sorri. Sorri. Com a lucidez do teu sorriso e com os teus olhos Azul Neblina. Mas com o meu apetite pela Natureza.


A imagem é uma ilustração retirada de “Opticks” (1704), o célebre tratado de Isaac Newton sobre a Óptica. A edição facsimilada encontra-se disponível na íntegra aqui.

9 de junho de 2007

Lições de Astrofísica III

Imaginem que nas minhas mãos tenho uma palavra que diz Sol. Agora imaginem que cerro o punho e escondo essa palavra do alcance do olhar. O que irá suceder? Será que esse Sol ir-se-á eclipsar? Ou será que a palavra irá persistir na minha mão, tingida para sempre, aguardando apenas que eu volte a abri-la e que essa estrela reverdeça e rebrilhe em mim? É certo que não há estrelas imorredoiras, pois não, amor? Mas hoje irei convencer-me do contrário e sussurrar muito baixinho - para que apenas tu o possas escutar - que "o Sol não é apenas essa estrela que há em mim, mas também é uma confusão marcada a ferro e a fogo nos teus lábios".

8 de junho de 2007

Incipit de uma carta nunca enviada


Amor:

“Siempre quise a Paulina”. É assim que Bioy Casares começa o seu En Memoria de Paulina. É o meu mote para te falar sobre a memória. De como estamos sempre a reconstruir a memória, num processo atroz e terrificamente doloroso. E se adjectivo desta forma empastelada é porque é assim que eu concebo a memória. Em amálgamas e amálgamas de factos.


(Escusado será dizer que a carta nunca foi terminada. Não a irias ler, pois não, amor meu?)


5 de junho de 2007

MacBeth


Hoje à noite talvez irá haver MacBeth e depois duas ou três Corona com uma luz pardacenta a tombar sobre o meu rosto. Hoje à noite talvez preferisse deixar as quezílias dos escoceses em paz e ver essoutra interpretação de MacBeth do Kurosawa (Kumonosu jô, 1957) com o grande Toshirō Mifune (recordas-te, amor meu, dos "Sete Samurais" ou de "Rashomon"? - naquela altura os cinemas não tinham pipocas e beijava-te as pálpebras quando a luz trémula do ecrã não te encantava, não te seduzia, não te abençoava). Hoje à noite talvez espreite com mais atenção os poucos livros que comprei na Feira do Livro do Porto e, que por alguma razão, gostaria de os partilhar contigo. Hoje à noite talvez sorria com a manipuladora Lady MacBeth. Ou talvez hoje à noite com a ambiguidade moral ou o dilúvio de sangue que se avizinha. Hoje à noite talvez. Talvez a enlanguescer assim assim em beatífico estupor de um certo álcool melífluo. Talvez a cair da cadeira. Talvez a instalar-se em mim o torpor da noite. E talvez adormecer assim: a mastigar os meus sonhos, a espezinhar as palavras e a escoucinhar o meu desejo de estar em ti como em Setembro. "Nunca cumpras as tuas promessas. É um modo muito triste de morrer" (Daniel Faria). Talvez assim. Talvez. Assim.

Oscar Wilde por processo quasi-estocástico

Um homem pode ser perfeitamente infeliz com qualquer mulher. Sobretudo se a amar.

(ou pode ser um perfeito idiota)

Sobre a contingência da palavra "amor"

Defende que "a palavra amor é incendiária" e diz que toda a sua vida foi um disparate. Então, o amor será disparate?

Quase sempre e talvez mais o amor que escolhi. A minha vida foi uma aventura estranha mas bonita. No campo do amor, não tenho coisas muito feias para me entristecerem; sinto, porém, que hoje me faz falta ter alguém ao meu lado. De repente, um tipo verifica isto: uma vida inteira de amores, e de amores muito bonitos, mas que passam...


Entrevista a Artur do Cruzeiro Seixas por Maria Augusta Silva in Apeadeiro, número duplo 4/5

2 de junho de 2007

Ett Brev



(Ou: bem me parece que devia dizer qualquer coisa sobre esta carta. Se calhar amanhã alinhavarei umas linhas a esse propósito)

A propos de O'Neill



Albertina! Eu quero um verso que não há!...

(onde? in "No reino da Dinamarca", minha pobre Ofélia)

(quando? milenovecentosecinquentaeoitosenãoestouemerro)

1 de junho de 2007

Brisure spontanée de symétrie

Gosto de simetrias. Sobretudo se estas forem imperfeitas. E anuncio-te que me apraz a ideia de quebras espontâneas de simetria. E porquê? Se instado a explicar diria simplesmente que é porque gosto de ti.

31 de maio de 2007

Ando a namoriscar


Bem sei que me dirias que eu não tenho o hábito de ler Pirandello. Ou talvez te remetesses a um silêncio de madrepérola quando, no café, repousarias os dedos sobre a minha coxa e com palavras e gestos especiosos me convencerias que o melhor era mesmo deixar de lado o Pirandello e a caixinha de cigarrilhas e fazer amor contigo.

Para quem não queira adiar a leitura, a edição é da Cavalo de Ferro (sim, sabes bem que eu gosto muito desta editora) com tradução de Margarida Pequito. Ora lê aqui.

25 de maio de 2007

A rose is a rose is a rose


Colhi-lhe uma rosa do meu quintal para ensaiar com a minha voz mais melíflua: "a rose is a rose is a rose" (Gertrude Stein). Ela retorquiu-me com prontidão luminosa que não se tratava de uma rosa. Devolvi-lhe, não sem antes me ter forçado a um levantar de ombros previamente estudado: "Não faz mal, tu também não és uma mulher, és a minha rapariga-de-pernas-altas e ofereço-te este Sol porque me sabes a Azul planetário e a promessas de Estio".


23 de maio de 2007

Onde termina o corpo

Bem sei que é uma combinação estranha: acordo para ler a demonstração do Teorema de Lindberg-Lévy, ouvir Jeff Buckley (soluço as palavras infinita tristeza) e depois remato com este poema do Al Berto resgatado ao esquecimento daquele livrinho que por aqui vês entretecido entre os meus dedos.

"combinara o encontro no limite deste século
onde nenhum homem dorme no limiar do dia
e o sonho se desfaz sob a nocturna incerteza

um raspar de veia reacende lumes
ilumina o turvo sangue os caminhos e a casa
onde pararam todos os relógios

quanto tempo para erguer a cabeça?
quem nos exterminará? no fim deste século
acordarão homens no outro lado da manhã?

que vestígios permanecerão desta reclusão?
e a morte existirá ainda
para além do ínfimo estremecer deste corpo?



é no silêncio
que melhor ludribio a morte



não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo

ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir"


(Al Berto, in Poesia do Mundo 2)

(Alexandre: "Gosto de ti com toda a improbabilidade do mundo")

20 de maio de 2007

Antes de adormecer II

São seis e muito da manhã e não consigo dormir. Porque toda a noite apeteceu-me ler-te um poema de René Char e adormeceres assim, como uma criança, a minha criança em fragilidade adiada. E no meu colo repetir-te tantas vezes "Les mots sauvent de nous ce que nous ignorons d'eux". Les mots. As palavras, amor. As palavras.

(nada receies: é apenas a música de Arvo Pärt que sibilia em mim o desejo de palavras-como-a-casa-da-tua-língua-como-os-meus-lábios-melanóstomos
como os dias que um dia amanheceram assim: num improvável Setembro Azul Neblina)

18 de maio de 2007

Ao despertar I

Ainda com farrapos de sonhos no meu cabelo recordo a célebre frase de Georg Cantor: "A essência da Matemática é a Liberdade". Acordei bem disposto, portanto.

Antes de adormecer I

Sinto-me como Otelo a olhar para Desdémona no seu leito.




Na foto: Desdémona, satélite de Urano, descoberto pela sonda Voyager 2 em 1986. Tem cerca de 64 quilómetros de diâmetro. A estrutura dos anéis do planeta Azul (sim, essoutro Azul) é bem visível na foto.

17 de maio de 2007

Bom samaritano

Hoje acordei a imaginar a improbabilidade da tessitura dos teus dedos no meu rosto a resgatar-me ao de leve levezinho do enfarruscado dos meus sonhos e a convocar-me para fazermos amor. Prontamente saí da cama, gesto lépido, salto acrobático, abluções matinais, pequeno-almoço robusto, café negríssimo curto galopante e meio-cachimbo a alimentar-se de Black Cavendish. Depois prestei-me a cumprir o meu dever cívico praticando a minha boa acção do dia:


É a acção de Einstein-Hilbert em que o Lagrangiano inclui um termo de matéria e uma constante cosmológica. Gosto desta acção. Assim mesmo, límpida, sem o termo de fronteira de Gibbons-Hawking-York, porque assim como assim a variedade do meu espaço-tempo não tem fronteira. Mas acredita que gosto mais de ti. E não creio que acção alguma o possa demonstrar.

Lições de Astrofísica II



Tu estás em mim como uma estrela no seu berçário.
Como a palavra imorredoira que é Orfeu e ascende à garganta provindo das entranhas resgatando Eurídice e um porco-espinho.
Como uma ânsia veloz que soluça e aspira a ser azul neblina.
Como azul cerúleo, rente ao coração: teus
cinco dedos rente rente rente rente rente ao coração.

Lições de Astrofísica I

"She walks in beauty, like the night" (Byron)

És tu quem caminha assim. Beijo-te como a luz do Sol adora beijar a tua pele, pois és um corpúsculo de poeira vagueando no meio interestelar e animado de um movimento bruxuleante que não estranha a frieza glaciar do cosmos. E, ao amanhecer, sou eu que entardeço de cansaço e finalmente sucumbo a beijar-te as pálpebras e a chamar-te de minha. Assimptoticamente minha.

Porque também eu morro a cada dia que passa sem a planura dos teus dedos no meu epitélio


"La idea del futuro vendría a justificar aquella antigua idea de Platón, de que el tiempo es imagen móvil de lo eterno. El futuro vendría a ser el movimiento del alma hacia el porvenir. El porvenir sería, a su vez, la vuelta a lo eterno. Es decir, que nuestra vida es una continua agonía. Cuando San Pablo dijo: «Muero cada día», no era una expresión patética la suya. La verdad es que morimos cada día y que nacemos cada día. Estamos continuamente naciendo y muriendo. Por eso el problema del tiempo nos toca más que los otros problemas metafísicos. El del tiempo es nuestro problema. ¿Quién soy yo? ¿Quién es cada uno de nosotros? ¿Quiénes somos? Quizás lo sepamos alguna vez. Quizás no. Pero mientras tanto, como dijo San Agustín, mi alma arde porque quiere saberlo.”

(Jorge Luis Borges, em palestra proferida na Universidade de Belgrano a 23 de Junho de 1978 in "Borges Oral", Alianza Editorial)

E ainda duvidas que Borges é o meu escritor quintessencial?

Créditos fotográficos: Pedro Meyer

15 de maio de 2007

Olha que não

"Disparate!", era o que dirias. Clicar aqui.

MMS


Versão SMS: "Tu és o planeta que não é planeta é antes uma estrela a única possível"

Fazes-me toda a falta do mundo



T o d a


Ficções 15


Saiu o novo número da "Ficções".

Quase quase quase que aposto que vale a pena comprar apenas pelo conto do Prévert (Recordações de família ou o anjo da guarda prisional). Mas ainda há Saul Bellow, Beckett e Philip K. Dick. Dir-te-ia: "Parece-te bem que compre?". Tu: "Parece-me lindamente!". E eu pensaria como gosto dos teus pontos de exclamação em movimento browniano no meu corpo, e como os meus olhos rebrilham como os de um miúdo quando as tuas mãos conjuram entrelaçamentos com as minhas.

(vês, amor, que não preciso de muito para ser feliz?)

Sai a 17 de Maio. As outras Ficções, bem entendido.

Tem dias que não sei se acredito na existência de uma realidade objectiva

Passeando na calçada:

Alexandre (pigarreando por forma a aclarar a voz): "Sim, eu acredito numa realidade microscópica independente do observador, quer este seja consciente ou uma mera drosophila melanogaster, vulgo moscardo da fruta.

Ou

Só são reais os nossos actos de observação e nada mais."

Ela/Tu: "Em que ficamos então, anjo meu?"

Alexandre: "Não sei. Mas apetece-me ouvir o Vôo do moscardo do Rimsky-Korsakov e zumbir, zumbir, zumbir ao mundo como te adoro."

Ela/Tu (voz bem-disposta, quase alacre): "Mas, amor, aquilo não é um moscardo, é uma abelha!"

E ris. Amplamente.

(e ao rires-te assim é como se uma lágrima despertasse em mim a sensação de epifania | júbilo | sou Iuri Alieksieievitch Gagarin a repetir júbilo e tu és a minha Valentina Oryacheva e contigo não temo ser ridículo)

Alexandre: "Ora, ora, não faz mal, pois hoje mesmo acordei na pele de Gregor Samsa, despertando de sonhos inquietos a puxar-me para a entomologia."


("A Terra é azul", Gagarin, 12 de Abril de 1961)

14 de maio de 2007

Dá-me um começo

Ler aqui:
"Dá-me um começo", disse-lhe, "depois da noite transfigurada"
?missa em si
?si-belius ou o grande lobo da finlândia
?m-is-e-en-scène duma chávena partida
?mis-si-ssipi ou o grande engolidor de chamas
"esquece", disse-lhe, "dá-me antes um final"
?mi
?miss T. eriously.
?miss U.

"esquece", disse-lhe, "um ponto final fica just fine".

(Rita Alberto)

11 de maio de 2007

C6H4(OCOCH3)COOH




Rita: "Eu já te tinha dito que te iria fazer bem um blogue."

10 de maio de 2007

Anita

Depois falar-te-ei dela.

Lógica II

Não resisto a entoar-te:

"Só podemos sofrer se formos perfeitos." (Boris Vian)

Feliz Aniversário, F.

Hoje é dia 10 de Maio e o que foi combinado é que terias uma palavra como prenda de aniversário. Ei-la:


Sadalmelik (سعد الملك)

É a estrela alfa da constelação Aquário, mas não a mais brilhante. Em árabe significa algo como "a sorte ou a boa fortuna do rei (ou do reino)". Situa-se a cerca de 760 anos-luz da Terra e é uma supergigante amarela tratando-se, portanto, de um espécime algo raro. Não tenho nenhuma foto sua nem tão pouco conheço a razão pela qual terá sido assim nomeada. Porém, guardei aqui para ti a imagem de certa nebulosa planetária que se encontra na mesma região do céu.



(Adivinhaste: é a nebulosa da Hélice)



9 de maio de 2007

Azul I

Alexandre: "A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros?"
Ela/Tu: "..."
Alexandre: "Sabe a amarelo-açafrão-das-índias."

À mão de semear

"As pessoas infelizes dão cabo do que amam porque não têm mais nada à mão." (Boris Vian)

Oui, ç'est vrai ça...

8 de maio de 2007

Lógica I (Erros meus, má fortuna)

"Aquele que pensa em grande tem de errar em grande" (Heidegger)

Trocando em miúdos: se não se desse o caso de, em Lógica Formal, uma implicação ser distinta de uma equivalência, estariam neste momento a debruçar-se sobre as palavras de um génio.

7 de maio de 2007

Heliosismologia

E o que é um sismo no interior de uma estrela?

É uma forma abreviada de dispor notas sustenidas na partitura.

(shhhhhh, em islandês diz-se Sólskjálftafræði)

Menage a trois...

... a temperatura finita


[ clique na figura para ampliar ]

6 de maio de 2007

Casa

Alexandre: "A minha casa são os teus lábios quando reverdece a Primavera."
Ela/Tu: "..."

Relâmpago

O sítio da revista Relâmpago, editada pela Fundação Luís Miguel Nava, tem uma fotografia da Fiama, recentemente desaparecida (vá se lá saber o porquê de querer inventar eufemismos para a morte), na sua página de entrada. Ao ver essa fotografia e a da Maria Filomena Mónica na capa do seu "Bilhete de Identidade" (Aletheia Editores) que se encavalita em instável equilíbrio no monte de livros que ali vês, congemino para com os botões da minha camisa azul cerúleo que bem me podia ter apaixonado por uma mulher assim.

Podia, pois.

Então porque é que me fui apaixonar por ti quando tinha tantas fotografias em casa por onde escolher?

A Máquina Underwood



"Todos os dias sentava-me na mesma cadeira de assento de marroquim azul já gasto, cabeça e costas abandonadas a uma pose despreocupada, reclinando-me ora para trás, ora para diante, ora para os lados porque me parece que há dois, em oscilações pendulares que fariam roer de inveja Galileu observando o isocronismo do pêndulo no movimento de um candelabro suspenso do tecto da Catedral de Pisa. Atentava a todos os teus movimentos, não descurando mesmo os mais indiciais, os tais que se confundem com as confidências que trocas com os átomos ou com os borbotos da camisa, os mesmos que valerão a pena ser recordados quando tudo o mais tiver tendência a ser esquecido. E por vezes nas tuas mãos de ternura (...)"

É assim que começa o conto que guardei para te oferecer numa manhã a seguir a termos feito amor. Mas a manhã já passou e não há modo de o conto terminar.

Stolichnaya


"É melhor morrer de vodka do que de tédio" (Maiakovski)

Corolário: Os futuristas italianos são uns palermas, a avaliar pelo Marinetti, mas pelo menos os russos sempre souberam como beber.

Para mim a Topologia é...

Para mim que tenho alma de matemático, mas que nunca irei perceber a demonstração da Conjectura de Poincaré, a minha citação favorita da escritora islandesa Jóhanna Sula Sarmenðo Eskandarsdóttir é:

"I dream on topology and all this strange interconnectedness of the world."
E para mim, que acredito mesmo que há uma estranheza imensa no mundo a que as palavras jamais poderão elidir, reconforta saber que alguém com olhos tristes como os meus terá escrito as mesmas palavras que a minha língua sopesou um dia destes.

5 de maio de 2007

Sobre a arrogância dos físicos

Rutherford dixit: "If you need statistics, you have done the wrong experiment" e "All of Physics is neither impossible or trivial. It is impossible until you understand it, and then it becomes trivial."

Sugestões para uma melhor interpretação:

  1. Na primeira citação substituir a palavrinha "statistics" por outra mais generosa (pode ser "proof").
  2. Na segunda citação onde se lê "Physics" dever-se-á ler "love".