2 de junho de 2007

A propos de O'Neill



Albertina! Eu quero um verso que não há!...

(onde? in "No reino da Dinamarca", minha pobre Ofélia)

(quando? milenovecentosecinquentaeoitosenãoestouemerro)

1 de junho de 2007

Brisure spontanée de symétrie

Gosto de simetrias. Sobretudo se estas forem imperfeitas. E anuncio-te que me apraz a ideia de quebras espontâneas de simetria. E porquê? Se instado a explicar diria simplesmente que é porque gosto de ti.

31 de maio de 2007

Ando a namoriscar


Bem sei que me dirias que eu não tenho o hábito de ler Pirandello. Ou talvez te remetesses a um silêncio de madrepérola quando, no café, repousarias os dedos sobre a minha coxa e com palavras e gestos especiosos me convencerias que o melhor era mesmo deixar de lado o Pirandello e a caixinha de cigarrilhas e fazer amor contigo.

Para quem não queira adiar a leitura, a edição é da Cavalo de Ferro (sim, sabes bem que eu gosto muito desta editora) com tradução de Margarida Pequito. Ora lê aqui.

25 de maio de 2007

A rose is a rose is a rose


Colhi-lhe uma rosa do meu quintal para ensaiar com a minha voz mais melíflua: "a rose is a rose is a rose" (Gertrude Stein). Ela retorquiu-me com prontidão luminosa que não se tratava de uma rosa. Devolvi-lhe, não sem antes me ter forçado a um levantar de ombros previamente estudado: "Não faz mal, tu também não és uma mulher, és a minha rapariga-de-pernas-altas e ofereço-te este Sol porque me sabes a Azul planetário e a promessas de Estio".


23 de maio de 2007

Onde termina o corpo

Bem sei que é uma combinação estranha: acordo para ler a demonstração do Teorema de Lindberg-Lévy, ouvir Jeff Buckley (soluço as palavras infinita tristeza) e depois remato com este poema do Al Berto resgatado ao esquecimento daquele livrinho que por aqui vês entretecido entre os meus dedos.

"combinara o encontro no limite deste século
onde nenhum homem dorme no limiar do dia
e o sonho se desfaz sob a nocturna incerteza

um raspar de veia reacende lumes
ilumina o turvo sangue os caminhos e a casa
onde pararam todos os relógios

quanto tempo para erguer a cabeça?
quem nos exterminará? no fim deste século
acordarão homens no outro lado da manhã?

que vestígios permanecerão desta reclusão?
e a morte existirá ainda
para além do ínfimo estremecer deste corpo?



é no silêncio
que melhor ludribio a morte



não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo

ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir"


(Al Berto, in Poesia do Mundo 2)

(Alexandre: "Gosto de ti com toda a improbabilidade do mundo")

20 de maio de 2007

Antes de adormecer II

São seis e muito da manhã e não consigo dormir. Porque toda a noite apeteceu-me ler-te um poema de René Char e adormeceres assim, como uma criança, a minha criança em fragilidade adiada. E no meu colo repetir-te tantas vezes "Les mots sauvent de nous ce que nous ignorons d'eux". Les mots. As palavras, amor. As palavras.

(nada receies: é apenas a música de Arvo Pärt que sibilia em mim o desejo de palavras-como-a-casa-da-tua-língua-como-os-meus-lábios-melanóstomos
como os dias que um dia amanheceram assim: num improvável Setembro Azul Neblina)

18 de maio de 2007

Ao despertar I

Ainda com farrapos de sonhos no meu cabelo recordo a célebre frase de Georg Cantor: "A essência da Matemática é a Liberdade". Acordei bem disposto, portanto.

Antes de adormecer I

Sinto-me como Otelo a olhar para Desdémona no seu leito.




Na foto: Desdémona, satélite de Urano, descoberto pela sonda Voyager 2 em 1986. Tem cerca de 64 quilómetros de diâmetro. A estrutura dos anéis do planeta Azul (sim, essoutro Azul) é bem visível na foto.

17 de maio de 2007

Bom samaritano

Hoje acordei a imaginar a improbabilidade da tessitura dos teus dedos no meu rosto a resgatar-me ao de leve levezinho do enfarruscado dos meus sonhos e a convocar-me para fazermos amor. Prontamente saí da cama, gesto lépido, salto acrobático, abluções matinais, pequeno-almoço robusto, café negríssimo curto galopante e meio-cachimbo a alimentar-se de Black Cavendish. Depois prestei-me a cumprir o meu dever cívico praticando a minha boa acção do dia:


É a acção de Einstein-Hilbert em que o Lagrangiano inclui um termo de matéria e uma constante cosmológica. Gosto desta acção. Assim mesmo, límpida, sem o termo de fronteira de Gibbons-Hawking-York, porque assim como assim a variedade do meu espaço-tempo não tem fronteira. Mas acredita que gosto mais de ti. E não creio que acção alguma o possa demonstrar.

Lições de Astrofísica II



Tu estás em mim como uma estrela no seu berçário.
Como a palavra imorredoira que é Orfeu e ascende à garganta provindo das entranhas resgatando Eurídice e um porco-espinho.
Como uma ânsia veloz que soluça e aspira a ser azul neblina.
Como azul cerúleo, rente ao coração: teus
cinco dedos rente rente rente rente rente ao coração.

Lições de Astrofísica I

"She walks in beauty, like the night" (Byron)

És tu quem caminha assim. Beijo-te como a luz do Sol adora beijar a tua pele, pois és um corpúsculo de poeira vagueando no meio interestelar e animado de um movimento bruxuleante que não estranha a frieza glaciar do cosmos. E, ao amanhecer, sou eu que entardeço de cansaço e finalmente sucumbo a beijar-te as pálpebras e a chamar-te de minha. Assimptoticamente minha.

Porque também eu morro a cada dia que passa sem a planura dos teus dedos no meu epitélio


"La idea del futuro vendría a justificar aquella antigua idea de Platón, de que el tiempo es imagen móvil de lo eterno. El futuro vendría a ser el movimiento del alma hacia el porvenir. El porvenir sería, a su vez, la vuelta a lo eterno. Es decir, que nuestra vida es una continua agonía. Cuando San Pablo dijo: «Muero cada día», no era una expresión patética la suya. La verdad es que morimos cada día y que nacemos cada día. Estamos continuamente naciendo y muriendo. Por eso el problema del tiempo nos toca más que los otros problemas metafísicos. El del tiempo es nuestro problema. ¿Quién soy yo? ¿Quién es cada uno de nosotros? ¿Quiénes somos? Quizás lo sepamos alguna vez. Quizás no. Pero mientras tanto, como dijo San Agustín, mi alma arde porque quiere saberlo.”

(Jorge Luis Borges, em palestra proferida na Universidade de Belgrano a 23 de Junho de 1978 in "Borges Oral", Alianza Editorial)

E ainda duvidas que Borges é o meu escritor quintessencial?

Créditos fotográficos: Pedro Meyer

15 de maio de 2007

Olha que não

"Disparate!", era o que dirias. Clicar aqui.

MMS


Versão SMS: "Tu és o planeta que não é planeta é antes uma estrela a única possível"

Fazes-me toda a falta do mundo



T o d a


Ficções 15


Saiu o novo número da "Ficções".

Quase quase quase que aposto que vale a pena comprar apenas pelo conto do Prévert (Recordações de família ou o anjo da guarda prisional). Mas ainda há Saul Bellow, Beckett e Philip K. Dick. Dir-te-ia: "Parece-te bem que compre?". Tu: "Parece-me lindamente!". E eu pensaria como gosto dos teus pontos de exclamação em movimento browniano no meu corpo, e como os meus olhos rebrilham como os de um miúdo quando as tuas mãos conjuram entrelaçamentos com as minhas.

(vês, amor, que não preciso de muito para ser feliz?)

Sai a 17 de Maio. As outras Ficções, bem entendido.

Tem dias que não sei se acredito na existência de uma realidade objectiva

Passeando na calçada:

Alexandre (pigarreando por forma a aclarar a voz): "Sim, eu acredito numa realidade microscópica independente do observador, quer este seja consciente ou uma mera drosophila melanogaster, vulgo moscardo da fruta.

Ou

Só são reais os nossos actos de observação e nada mais."

Ela/Tu: "Em que ficamos então, anjo meu?"

Alexandre: "Não sei. Mas apetece-me ouvir o Vôo do moscardo do Rimsky-Korsakov e zumbir, zumbir, zumbir ao mundo como te adoro."

Ela/Tu (voz bem-disposta, quase alacre): "Mas, amor, aquilo não é um moscardo, é uma abelha!"

E ris. Amplamente.

(e ao rires-te assim é como se uma lágrima despertasse em mim a sensação de epifania | júbilo | sou Iuri Alieksieievitch Gagarin a repetir júbilo e tu és a minha Valentina Oryacheva e contigo não temo ser ridículo)

Alexandre: "Ora, ora, não faz mal, pois hoje mesmo acordei na pele de Gregor Samsa, despertando de sonhos inquietos a puxar-me para a entomologia."


("A Terra é azul", Gagarin, 12 de Abril de 1961)

14 de maio de 2007

Dá-me um começo

Ler aqui:
"Dá-me um começo", disse-lhe, "depois da noite transfigurada"
?missa em si
?si-belius ou o grande lobo da finlândia
?m-is-e-en-scène duma chávena partida
?mis-si-ssipi ou o grande engolidor de chamas
"esquece", disse-lhe, "dá-me antes um final"
?mi
?miss T. eriously.
?miss U.

"esquece", disse-lhe, "um ponto final fica just fine".

(Rita Alberto)

11 de maio de 2007

C6H4(OCOCH3)COOH




Rita: "Eu já te tinha dito que te iria fazer bem um blogue."

10 de maio de 2007

Anita

Depois falar-te-ei dela.

Lógica II

Não resisto a entoar-te:

"Só podemos sofrer se formos perfeitos." (Boris Vian)

Feliz Aniversário, F.

Hoje é dia 10 de Maio e o que foi combinado é que terias uma palavra como prenda de aniversário. Ei-la:


Sadalmelik (سعد الملك)

É a estrela alfa da constelação Aquário, mas não a mais brilhante. Em árabe significa algo como "a sorte ou a boa fortuna do rei (ou do reino)". Situa-se a cerca de 760 anos-luz da Terra e é uma supergigante amarela tratando-se, portanto, de um espécime algo raro. Não tenho nenhuma foto sua nem tão pouco conheço a razão pela qual terá sido assim nomeada. Porém, guardei aqui para ti a imagem de certa nebulosa planetária que se encontra na mesma região do céu.



(Adivinhaste: é a nebulosa da Hélice)



9 de maio de 2007

Azul I

Alexandre: "A que cor sabe o Azul quando ingerido pelos pássaros?"
Ela/Tu: "..."
Alexandre: "Sabe a amarelo-açafrão-das-índias."

À mão de semear

"As pessoas infelizes dão cabo do que amam porque não têm mais nada à mão." (Boris Vian)

Oui, ç'est vrai ça...

8 de maio de 2007

Lógica I (Erros meus, má fortuna)

"Aquele que pensa em grande tem de errar em grande" (Heidegger)

Trocando em miúdos: se não se desse o caso de, em Lógica Formal, uma implicação ser distinta de uma equivalência, estariam neste momento a debruçar-se sobre as palavras de um génio.

7 de maio de 2007

Heliosismologia

E o que é um sismo no interior de uma estrela?

É uma forma abreviada de dispor notas sustenidas na partitura.

(shhhhhh, em islandês diz-se Sólskjálftafræði)

Menage a trois...

... a temperatura finita


[ clique na figura para ampliar ]

6 de maio de 2007

Casa

Alexandre: "A minha casa são os teus lábios quando reverdece a Primavera."
Ela/Tu: "..."

Relâmpago

O sítio da revista Relâmpago, editada pela Fundação Luís Miguel Nava, tem uma fotografia da Fiama, recentemente desaparecida (vá se lá saber o porquê de querer inventar eufemismos para a morte), na sua página de entrada. Ao ver essa fotografia e a da Maria Filomena Mónica na capa do seu "Bilhete de Identidade" (Aletheia Editores) que se encavalita em instável equilíbrio no monte de livros que ali vês, congemino para com os botões da minha camisa azul cerúleo que bem me podia ter apaixonado por uma mulher assim.

Podia, pois.

Então porque é que me fui apaixonar por ti quando tinha tantas fotografias em casa por onde escolher?

A Máquina Underwood



"Todos os dias sentava-me na mesma cadeira de assento de marroquim azul já gasto, cabeça e costas abandonadas a uma pose despreocupada, reclinando-me ora para trás, ora para diante, ora para os lados porque me parece que há dois, em oscilações pendulares que fariam roer de inveja Galileu observando o isocronismo do pêndulo no movimento de um candelabro suspenso do tecto da Catedral de Pisa. Atentava a todos os teus movimentos, não descurando mesmo os mais indiciais, os tais que se confundem com as confidências que trocas com os átomos ou com os borbotos da camisa, os mesmos que valerão a pena ser recordados quando tudo o mais tiver tendência a ser esquecido. E por vezes nas tuas mãos de ternura (...)"

É assim que começa o conto que guardei para te oferecer numa manhã a seguir a termos feito amor. Mas a manhã já passou e não há modo de o conto terminar.

Stolichnaya


"É melhor morrer de vodka do que de tédio" (Maiakovski)

Corolário: Os futuristas italianos são uns palermas, a avaliar pelo Marinetti, mas pelo menos os russos sempre souberam como beber.

Para mim a Topologia é...

Para mim que tenho alma de matemático, mas que nunca irei perceber a demonstração da Conjectura de Poincaré, a minha citação favorita da escritora islandesa Jóhanna Sula Sarmenðo Eskandarsdóttir é:

"I dream on topology and all this strange interconnectedness of the world."
E para mim, que acredito mesmo que há uma estranheza imensa no mundo a que as palavras jamais poderão elidir, reconforta saber que alguém com olhos tristes como os meus terá escrito as mesmas palavras que a minha língua sopesou um dia destes.

5 de maio de 2007

Sobre a arrogância dos físicos

Rutherford dixit: "If you need statistics, you have done the wrong experiment" e "All of Physics is neither impossible or trivial. It is impossible until you understand it, and then it becomes trivial."

Sugestões para uma melhor interpretação:

  1. Na primeira citação substituir a palavrinha "statistics" por outra mais generosa (pode ser "proof").
  2. Na segunda citação onde se lê "Physics" dever-se-á ler "love".