26 de novembro de 2014

Beglückt darf nun dich, o Heimat, ich schaeun II


Escrever e rescrever. Reescrever. Sentar-me à mesa do café, demorar os olhos pela mesa onde os objectos se arrumam na singularidade. Ensaiar uma frase e outra a seguir. Muitas vezes sem a convicção devida. Treinar as polpas dos dedos para se soltarem. Sem sucesso imediato. Ouvir música. Música que encante, que me faça dançar ou, pelo menos, que embale o recesso do mundo. Escutar o rumor do mundo. Inventar um ou outro personagem que não me é disjunto: este fuma cachimbo, o outro é tímido e circunspecto, a rapariga tem os meus olhos castanhos. /podeumaraparigaterosmeusolhoscastanhos?/ Escrever até não restarem quaisquer dúvidas sobre o equilíbrio instável da frase. Uma frase quer-se em desalinho. Como eu quis as mulheres.

Violonkonzert do Alban Berg? Inspirar-me-á? A mim, de fracos recursos em análise musical? O que me pode inspirar? Uma musa? A promessa da minha língua a suster o bramido no corpo de uma mulher? Ou a flânerie pelos passeios de Coimbra, animado por uma presença feérica de um qualquer prelúdio de Wagner? Se fosses real, dir-te-ia para vires comigo, andando aos soluços, como quem dança mas anda, atentando à abertura do Tannhäuser. Ser-se excessivo. Escrever para conter o excesso, lutar – repito-me inúmeras vezes – contra a fealdade do mundo. Confundir a despolarização ventricular com a auricular e sentir um sobressalto no coração. Dizem que apenas uma infecção miocárdica pode partir o coração, mas eu tenho uma caixa de cigarrilhas no lugar deste, segundo a Rita que até escreve destas coisas de forma mais exemplar e lúcida que eu. A minha caixa de coração ou de cigarrilhas é de latão e não é imune às balas nem aos bocejos nem às palavras convulsionadas. Amolga-se facilmente, é quebradiça, machuca-se com embaraço e nem sequer tem a forma de um cardióide. Não gostaria de ter um coração de chumbo, como os restantes. O chumbo envenena-nos e enlouquecemos de uma loucura que não é a minha, um pouco menos convencional, um pouco mais aligeirada e benévola. Nas palavras do Bukowski, “a impossibilidade de se ser humano” com esta caixa de cigarrilhas deformada no lugar de um coração plúmbeo. Um dia, esta caixa irá liquefazer-se, como todos os metais se liquefazem a uma certa temperatura e pressão, e o que farei? O que farei quando uma estrela anã crescer no meu peito?

(exercício de comoção enquanto escrevo estas linhas: saltitar da Abertura para o Coro dos Peregrinos e ouvir esta última repetidamente até um ponto final irromper no ecrã)

(exercício de carnalidade: olhar demoradamente para uma mulher no café até esta ruborescer, ficar perplexa ou abotoar mais um botão da sua camisa com receio da exposição, explorando a ideia do pudor)

(exercício de memória: recordar-me de como os olhos do meu pai se marulhavam de emoção incontida quando assistia a algo lamechas na televisão, ao mesmo tempo que tentava disfarçar porque na ideia do meu pai só é assim que chora um homem defronte de quem ama)

Se agora te acercasses de mim, dir-te-ia que me mingua sempre algo quando escrevo. Há um estilo que não é um estilo – é antes esta maneira de me enredar em todos os poros do fibrado do universo.


Ponto final.