7 de novembro de 2014

À magnífica luz das tardes frias e pachorrentas de Outono há esta imagem que me persegue: os teus cabelos de um dourado cuja arte sempre me foi escassa para o definir, sustidos por um gorro de lã branco. Nunca revelei que gostaria de te ter oferecido essa mínima peça de indumentária, de um branco alvo de um branco sujo de qualquer cor que no meu parco vocabulário se assemelhasse a branco, a condizer com os teus caracóis e levar-te a passear pela cidade numa flânerie assumida, apenas dedos enleados em dedos e palmas a roçar palmas. Muitos sorrisos nos nossos lábios, também. Lábios a mordiscar lábios. Boca a mordiscar distraidamente castanhas assadas. Dedos a enfarruscarem-se nas folhas de jornal (ao que parece agora os canudinhos já não são em papel de jornal ou de lista telefónica, estas que minguam a cada ano que passa ameaçando sumir-se) para depois tactear o teu rosto e sujá-lo ao de leve. Beijar-te-ia de seguida, puxando o gorro um pouco para baixo e rir-nos-íamos de tanto quotidiano, tanto lirismo simples e piroso. Pés a sentir o restolhar das folhas secas das caducifólias, claro – mais uma imagem recorrente e de uma banalidade que não me irei cansar nunca. Outono é o prazer tímido de te ter ao meu lado, sem queixumes, resmoneios ou palavras amargas e de desdém para com a fealdade do mundo. Pelo menos em pensamento. Outono é a estação para te pensar assim.

Volvidos tantos anos não irias acreditar que, por mais de uma vez, parei numa loja de roupa a deleitar-me com as possibilidades dos gorros que achava que te iriam assentar bem nessa cabeça adorável que encima um corpo não menos adorável de tanta perfeição imperfeita. Mais do que te despir, despertaste em mim o desejo de vestir as mulheres (para as despir logo de seguida – o desejo impõe certas simetrias que devem ser quebradas tout de suit) e, num certo sentido, estiveste comigo em tantos quartos, observando-me enquanto vestia todas aquelas mulheres com quem me envolvi não apenas para suprir a tua ausência mas porque contigo era apenas um homem de uma mulher e sem ti (e sem ti S., sem ti J., sem ti A. e sem ti V.) sou um homem de muitas mulheres, uma relação multivalorada ou, na brevidade da língua inglesa: one-to-many. One too many, Alexandre. Estavas ali comigo enquanto as vestia dos pés à cabeça para as despir novamente – não com ciúmes ou repulsa mas com curiosidade –, sopesando as suas mamas nas palmas das minhas mãos, as mãos que vão escorregando com vagar madraço pelas ancas e detendo-se na barriga quando um arrepio frio lhes percorre o corpo, avançando pelas cuequinhas furiosamente arrancadas à sua pele, os dedos procurando os humores que se desenham entre as suas coxas; e, quando os levava à minha boca, não eram apenas elas que os meus sentidos sorviam – era também a memória do teu sexo redolente entreabrindo-se aos meus dedos, o teu corpo arquejando quando te penetrava sem delongas, o teu cheiro na almofada, o sangue a latir-me aos ouvidos quando as minhas mãos empurravam-te contra o meu corpo e te fodia desalmadamente.

Uma e outra noite regressaria a ti, como quem regressa a um livro que se relê na ânsia de se encontrar novos sentidos. E, apesar de tanta troca de palavras espúrias servida apenas para honrar a 2ª lei da Termodinâmica, a tua imagem de cabelos em duradoura rebeldia e a maneira como arredondavas os teus dedos pela minha orelhinha decretando-a como perfeita ficou para sempre na minha memória.


(um dia de júbilo em que entro no elevador à porta da tua casa e sou o homem mais feliz do mundo; na semana seguinte aguardar-me-ias vestida com a minha camisola interior que deixei esquecida no teu quarto de paredes alvas, esse quarto com um cheiro inconfundível a velas; é assim que te guardo: sexo ferino e ternura deslumbrante)