18 de outubro de 2014

Konserter med Nasjonaloperaen



Cachecol garrido, fato, camisa impecável e a inevitável ausência da gravata. Lenço a condizer. Tenho algum pudor em andar com estes apontamentos (é assim que se diz não é? – hoje não quero parecer démodé), mas desde que o meu pai faleceu que prometi que iria usar cores mais ardentes, ele que era uma pessoa com tanta jovialidade (para ele não havia Outono – disse-te tantas vezes). Silje enverga um vestido longo e negro, a acentuar a geometria do seu corpo. Gosto dos seus sapatos. Aliás, gosto de mulheres que sabem escolher os seus sapatos e o resto da sua indumentária com elegância natural (primeiro fragmento de memória: a Joana sempre a falar de como gostava dos sapatos daquele patetita espanhol criado numa plantação de bananas que dava pelo nome de Manolo qualquer coisa; sapatos banais e óbvios, na minha modesta opinião). Eis a expectativa de um Don Giovanni morno mais leve e divertido com Ildebrando D'Arcangelo, Marcell Bakonyi e Ann-Helen Moen na Operahuset. Há uma curiosidade quase infantil de me deslumbrar com aquela massa de granito, mármore e vidro que se ergue do fiorde de Oslo, irrompendo das águas qual a espada de Excalibur.

Segundo fragmento de memória:

Pensar que, de todas as mulheres que terei amado, esta foi a única com quem partilhei as minhas idas à Ópera. Há mais de uma década e novamente hoje nestas circunstâncias improváveis. Apenas a memória de ter planeado com a Sílvia uma ida à Ópera de Paris que nunca se concretizou. O que iríamos ver? Wagner, decerto (teria sido Tristão e Isolda pelas mãos do Semyon Bychkov?). As mulheres não gostam de ir à Ópera comigo, apesar de eu sorrir para elas, beijá-las, repousar a minha mão sobre as suas pernas, entrelaçar os meus dedos nas suas mãos, ciciar palavras ao seu ouvido, beijar o seu cabelo. Beijar-lhe o cabelo.

Sim, irei beijar-lhe o cabelo abençoado pelo Sol.