25 de outubro de 2013

Um dia II


Passaram-se oito anos. Mas a morte não é isto. É outra coisa. Havia este homem que não era outoniço nem tão pouco invernal. Das estações do ano só aceitava a Primavera e o Estio (o Estio, sempre esta ideia deificante do Estio, como todas as mulheres que teimei em amar…); as outras ignorava-as, como se o seu corpo estivesse em completo desacordo com a inclinação do eixo de rotação terrestre em relação ao seu plano de translação. Este homem desconhecia o minguar dos dias e as manhãs a ressumar humidade. Eu sentia em demasia todos os equinócios e solstícios como se as células do meu corpo valsassem com os afélios, periélios e pontos vernais. Cruzava-me com ele à noite, sobretudo, porque ultimamente este tinha um sono intermitente. Eu passava muitas noites acordado

a sonhar a suspirar a escrever a ler a admirar-te em silêncio a pensar em amotinar-me contra o mundo a rever Bergman a reler Borges a indignar-me com a estultícia das pessoas a emocionar-me a tentar emocionar-me a tentar emocionar-me a tentar mas estás morto – zurzia eu para comigo – e passava as minhas noites numa vigília absurda como se nunca me tivesse desabituado de zelar por ti noites em súplica ao negrume do firmamento para que o sono finalmente sobreviesse a fracção sumida da minha consciência anulasse a ideia de ti a ideia de ti sempre este inferno álgido e este amor com o qual não soubeste fazer e em vez disso ervas daninhas instruem-se de caligrafia e congestionam de palavras abruptas as quatro câmaras do coração

A ler a sonhar a suspirar a pensar. Guardava as noites como quem guarda a ideia de um espaço sôfrego e aglutinador, esta ideia primordial de há oito anos atrás que só poderia ser albergada nos côncavos de um homem outrora excessivo mas agora cendrado. Esta ideia de Estio tardio, este amor terrível, verdadeiro e perigoso pela qual teria valido a pena bater-me de forma quixotesca. Eras o meu amor ergódico, Azul, o meu animal marinho mais leve e belo que as sereias. E eu era um homem imenso e feliz. O homem mais feliz e lúcido do mundo. Agora deparo-me apenas com este estranho de mim mesmo cruzando-se a meio da noite com um homem de vitalidade imensa ao qual não tenho coragem de lhe responder porque é que ainda me encontro desperto. Gostaria de lhe ter confiado que amava uma mulher que apelidei de Azul Neblina.

Agora é tarde. É sempre tarde quando o cansaço inerme finalmente se instala. Não posso mais conversar com esse homem ao qual a Primavera e o Estio lhe assentavam tão bem. Queria ter-lhe declarado que, finalmente, reconheci que o Azul Neblina não se encontra numa mulher mas em mim. A morte interpôs-se quando cruzou a meta. O mundo inteiro cabia no seu coração e este não resistiu. O meu pai também era Azul Neblina.

A morte é outra coisa. A morte não é isto.