2 de outubro de 2013

Um dia I




“The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open.”

Philip Roth in The Dying Animal

“Teus ombros sustentam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança” – eis a frase de Drummond de Andrade que me assalta ao espírito ao evocar-te agora envolto pelo pesado fumo da cigarrilha. Os meus dedos enrolam-na, deixam que sedutoramente esta se enlace na minha mão, como o teu corpo se encoscorava junto ao meu, aninhado como um bicho-de-seda – e bastaria estares ali, não haveria palavra alguma que fosse necessário proferir, pois tu foste sempre a palavra mais dourada, a palavra primordial, a palavra única que constava do meu dicionário, e cujo léxico rico se arvorava, ramificando-se em sentidos múltiplos e complexos. Os teus ombros sustentavam o mundo porque tu eras a mulher, a casa, a pátria, a raiz há muito escondida de todas as línguas do mundo. Havia na doçura das tuas mãos e dos teus lábios aquilo que a mágoa dos teus olhos teima em esconder: o sentido teleológico que para mim funcionava como uma força atractiva, irresistível, inelutável, de que o universo fora criado para que nos encontrássemos.

Talvez seja um princípio universal: amar-se alguém construindo uma cosmogonia onde só se caiba a própria pessoa e o objecto da sua mais pura afeição. Mas como voltar a falar de amor se todas as palavras tropeçam na boca e se vão enclavinhar nas gengivas fazendo-as sangrar? Nunca mais poder dizer o quanto te amei; na boca apenas a polpa das palavras misturadas com o fel. Este pão ázimo que tem de se mastigar e ruminar todos os dias até se tornar num bolo digestivo passível de ser deglutido e assimilado.

Um dia finalmente acordas.

Passaram-se oito anos.