14 de junho de 2013


Os rododendros surgiram primaveris.


Tenho estas palavras na minha boca. Não se somem. Não se elidem. Não se vo la ti li z a m. Mastigo-as e voltam a surgir. Mais fulvas. Mais densas. Mais lépidas. Animadas de um movimento perpétuo em torno de língua, dentes, palato e papilas gustativas. É como ter leptocéfalos na minha boca que não cessam de retinir. Tenho estas palavras que me sabem a dias solares, a falar em demasia, a beber muito sem perder a compostura. Tenho palavras e palavras, mas apenas estas afloram à minha boca: “Os rododendros surgiram primaveris”. Palavras para amar e degustar. Não necessito guardar nas palmas das mãos tais palavras. Elas são como o sorriso invejável: perenes. É uma sensação agradável da qual não me canso. Palavras a beijarem-me a devorarem o meu mundo a sonharem-me a irromperem no meu dia a violarem o sacrário dos meus pensamentos. Tenho palavras na minha boca onde os sentidos afloram e tudo é vital e tudo é perfeito porque há em mim uma imperfeição estrutural que não cesso de contar ao mundo. Palavras que gatinham das minhas mãos e me beijam longamente.


Digo-te: sou um homem palavroso. Mas hoje dir-te-ia apenas que os rododendros surgiram primaveris.


(Esquivo-me ao mundo. Apenas no teu regaço encontro as primícias da beleza.)