18 de junho de 2013

Esta morte não me pertence



Um dia acordaste volvidos sete anos. Uns dias numa cidade nórdica de eléctricos azuis. Compraste o último livro do Herberto Helder. Estiveste muito tempo com ele fechado quase a invocar o sentido do sagrado. Cheiraste-o. Tacteaste as palavras ali cinzeladas. Usaste os teus sentidos. Todos. 

E vês como tudo é tão claro, Alexandre?:

nunca mais quero escrever numa língua voraz,

porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça, 
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence, 
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio”