10 de agosto de 2011

Acorda. Dirige o teu olhar para o nascente. Um pouco mais à direita talvez. Orionte, o caçador, está a nascer. Há uma alba que se avizinha - todos os meus sentidos se despertam para esta. Parece que o cri-cri dos grilos se intensifica à medida que os meus olhos não se cansam de olhar para o céu. Ao longe o ruído tímido da cidade. Por vezes um carro a passar sem contudo interromper a detonação calma que me aperta. O som do comboio trazido pela brisa que me despenteia o cabelo. Uma sensação de espanto pelo firmamento há muito arredado de mim. Acorda. Partilho contigo esta beleza. Entreabro a boca de espanto e timidez pelo universo. Por tudo quanto existe. Por tudo quanto me une a ti, mesmo sem o saberes. Um meteoro dardeja o céu. É o tempo das perseides. Como me podia ter esquecido delas? Há tanto tempo que sinto que não observo o céu contigo. Acorda e lê Celan:

"Leg ihm dies Wort auf die Lider:
vielleicht
tritt in sein Aug, das noch blau ist,
eine zweite, fremdere Bläue,
und jener, der du zu ihm sagte,
 träumt mit ihm: Wir."

["Depõe-lhe esta palavra sobre as pálpebras:
talvez
surja nos seus olhos, ainda azuis,
um outro, mais estranho, tom de azul,
e aquele que o tratava por tu
sonhe com ele: Nós."]

Acorda que te beijo as pálpebras, Azul.