9 de junho de 2011

(ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)



Quando terminei de escrever fui assaltado por uma espécie de melancolia. Como se quisesse permanecer para sempre naquele texto, como se aquele homem de cabelos grisalhos pudesse ser eu e a mulher de tez sempre tisnada pelo Sol de vestidos rodopiantes e joelhos esfolados a lembrarem-me as crateras da Lua (e eu sei lá porquê, porque és o meu deus animista das coisas) fosses tu, a única interpretação do mundo, entre tantas possíveis: tu eras o colapso da minha função de onda, tenho este desvario em afirmá-lo, embora não o possas compreender. Como se me agradasse perder-me no meio das entrelinhas de palavras minuciosamente buriladas. Não queria ter de dar um ponto final à história, despedir-me para sempre do sábio e diletante gato que só gostava de Wittgenstein ou do cão que se chamava Óscar e que percebia muito pouco de Filosofia. Queria que aquelas palavras continuassem a habitar a superfície da minha pele como microorganismos simbióticos. Desejava que os ditirambos do Prof. Ricci se alvoraçassem um pouco mais na ponta dos meus dedos ou que o plano principal da obra tivesse sido um pouco mais esparso, mais milimétrico, mais arrumado, mais caligráfico, como que se animado pelo punho de um Walser em Waldau, como se a minha escrita fosse reduzida apenas a este pulsar descompassado do coração, registado numa escala quase imperceptível

         (ou como manchas retintas de tinta de um azul inexprimível)

Refiro-me, está claro, ao livro que escribulei (não, não percas o teu tempo a procurar essa palavrinha no dicionário, acabei de a resgatar da tessitura do céu ou do saibro da terra – tanto faz) e, embora a forma como me tenha livrado daquelas folhas como alguém se livra da culpa tenha sido tão operática quanto burlesca (canso-me de repetir a mim mesmo, num afã de apaziguamento, que Wagner no Caramulo pode não ser a mesma coisa que em Bayreuth, mas que por lá talvez habitem moiras encantadas que se enterneçam com as minhas palavras), a verdade é que de alguma forma sentia que as personagens que habitavam o meu livro não poderiam nunca ter termo distinto daquele. Diz-me, o que escreveria eu como dedicatória, sabendo que nunca o lerias: “À Joana S________”, “Ao azul mais que azul”, “À Joana de Sintra” (este aqui glosando um equívoco à Vila-Matas que dedica sempre as suas obras à sua mulher, Paula de Parma), “À minha geometria combinatória dos dias”, “Para a Joana, a mulher mais bonita do mundo”, “Para o sinal marca de estrela”, “Ao Azul Neblina”?

Há um mês atrás estava sentado numa das ghâts de Varanasi, observando o rápido declinar do Sol no céu e esse espalhamento da luz que teima em reflectir-se no rio, arvorando em todo um cambiante de matizes. Há miúdos a jogar cricket mesmo ao pé das ghâts onde ocorrem as cremações. Há um salmodiar confuso numa daquelas cerimónias. Um corpo arde e outro ainda. Fumo um cigarro, quase alheio ao tropel quotidiano da cidade. Uma poluição imensa, imensa (os níveis de poluição biológico passaram todos os limites legais e estão a queimar grandes quantidades de lixo orgânico na orla da cidade): o ar na minha garganta adensa-se da poeira que inalo e sei que nas minhas narinas há uma competição entre o fumo do cigarro e as dos cadáveres humanos colocados a arder nas piras crematórias. Os cães refastelam-se ao sol. Dizem que por vezes comem os restos dos cadáveres cuja combustão não foi bem realizada, mas tal nunca observei, talvez tenha apenas vislumbrado parte de corpos a boiar na água infecta. Por vezes vejo algum bovídeo a deambular por ali, indiferente a isto tudo. Indiferente, como eu. Indiferente aos rituais em que as pessoas rapam o cabelo e às imensas solicitações que sofro. A cidade de Shiva não é o sítio mais bonito no mundo, mesmo com um livro do Tagore a forrar o meu bolso. Mas não me sinto chocado com nada disto. Aprendi a aceitar Varanasi, como aceito a tua ausência: sem a compreender, mas sempre presente em mim. E assim celebro a beleza que esta cidade encerra, apesar desta constante encenação e farsa em relação à morte (como deves saber, Gandhi foi muito crítico em relação a este folclore hindi de Varanasi). Alheio-me a isto tudo e observo as abluções das pessoas no Ganges. Não me atrevo a chegar lá perto porque é um dos rios mais poluídos do mundo mas, de alguma forma, invejo aquelas crianças que se banham e se riem de uma forma tão despreocupada como eu quando conduzo e deixo que o vento amacie o meu cabelo. A felicidade também é isto: estar num sítio improvável do mundo e, embora não estejas ali comigo, és tu quem habitas o meu coração e que me faz estremecer. Naquela ghât em Varanasi não há peregrinos, não há cremações, não há a confusão de pessoas ou de mundos em ebulição. Há apenas um sobressalto no meu coração, algo de muito terno e um fragor que surge em qualquer sítio do mundo sempre que te invoco. A felicidade também é ir a Jantar Mantar (o observatório de Jai Singh) e recordar-me das palavras do Cortázar quando escreveu aquele punhado de folhas e, sob aquele sol abrasador do meio-dia solar, sem protector solar ou chapéu (tinha-o perdido naquela alegre confusão de Varanasi após uma diatribe com um condutor de riquexó), ciciar a um monólito que te amo.

De acordo com a minha crença numa versão local do Livre Arbítrio e na minha costumeira refutação na sua versão global (assim como quem preferisse a Geometria à Topologia, sorrio – é que não deixa de ser uma sublime ironia), quando regressei do subcontinente determinei que era altura de devolver o resto das palavras que te escrevi: é um conjunto de poemas e algumas mensagens de amor que te fui escrevendo nos últimos anos, sempre que terminava uma caixa de cigarrilhas ou de charutos. São 248 poemas no seu total. Há também um conjunto de cadernos com escritos e cartas nuns caderninhos pretos. Escrevi-as para ti. Ou por ti.

Não sei como terminar esta mensagem – não deixo de ser desusadamente palavroso, e agora desabituado a escrever há muito... Assim, deixo-te as palavras inicias de “La prosa del observatório”, do Cortázar. Quisera eu também ter escrito algo assim para ti. Por ti.


“Esa hora que puede llegar alguna vez fuera de toda hora, agujero en la red del tiempo, esa manera de estar entre, no por encima o detrás sino entre, esa hora orificio a la que se accede al socaire de las otras horas, de la incontable vida con sus horas de frente y de lado, su tiempo para cada cosa, sus cosas en el preciso tiempo, estar en una pieza de hotel o de un andén, estar mirando una vitrina, un perro, acaso teniéndote en los brazos, amor de siesta o duermevela, entreviendo en esa mancha clara la puerta que se abre a la terraza, en una ráfaga verde la blusa que te quitaste para darme la leve sal que tiembla en tus senos, y sin aviso, sin innecesarias advertencias de pasaje, en un café del barrio latino o en la última secuencia de una película de Pabst, un arrimo a lo que ya no se ordena como dios manda, acceso entre dos ocupaciones instaladas en el nicho de sus horas, en la colmena día, así o de otra manera (en la ducha, en plena calle, en una sonata, en un telegrama) tocar con algo que no se apoya en los sentidos esa brecha en la sucesión, y tan así, tan resbalando, las anguilas, por ejemplo, la región de los sargazos, las anguilas y también las máquinas de mármol, la noche de Jai Singh bebiendo un flujo de estrellas, los observatorios bajo la luna de Jaipur y de Delhi, la negra cinta de las migraciones, las anguilas en plena calle o en la platea de un teatro, dándose para el que las sigue desde las máquinas de mármol, ese que ya no mira el reloj en la noche de París; tan simplemente anillo de Moebius y de anguila y de máquinas de mármol, esto que fluye ya en una palabra desatinada, desarrimada, que busca por sí misma, que también se pone en marcha desde sargazos de tiempo y semánticas aleatorias, la migración de un verbo: discurso, decurso, las anguilas atlánticas y las palabras anguilas, los relámpagos de mármol de las máquinas de Jai Singh, el que mira los astros y las anguilas, el anillo de Moebius circulando en sí mismo, en el océano, en Jaipur, cumpliéndose otra vez sin otras veces, siendo como lo es el mármol, como lo es la anguila: comprenderás que nada de eso puede decirse desde aceras o sillas o tablados de la ciudad; comprenderás que sólo así, cediéndose anguila o mármol, dejándose anillo, entonces ya no se está entre los sargazos, ..hay decurso, eso pasa: intentarlo, como ellas en la noche atlántica, como el que busca las mensuras estelares, no para saber, no para nada; algo como un golpe de ala, un descorrerse, un quejido de amor y entonces ya, entonces tal vez, entonces por eso sí.
Desde luego inevitable metáfora, anguila o estrella, desde luego perchas de la imagen, desde luego ficción, ergo tranquilidad en bibliotecas y butacas; como quieras, no hay otra manera aquí de ser un sultán de Jaipur, un banco de anguilas, un hombre que levanta la cara hacia lo abierto en la noche pelirroja.”


[continua amanhã, distribuindo os caderninhos de molesquina e os poemas aos leitores interessados]