6 de abril de 2011

Uma (certa) ideia da Índia

Recordo-me de ter usado na minha tese de Licenciatura a citação que mais abaixo se apresenta. É justo confessar que, de alguma forma, a minha vida esteve sempre irremediavelmente ligada a determinada obras e esta pequena peça de literatura - apropriada para almas insones e viajantes improváveis -, não é excepção. O autor apresenta no seu livro a hipótese de que alguém talvez possa um dia reproduzir a sua viagem por uma Índia de gares, hospitais, quartos de hotel num ambiente que a minha memória faz aludir como soturno. 

Alexandre: A Índia como uma sala de espera ou uma ante-câmara para uma outra vida. 

A verdade é que não releio este livro há uma boa década e não posso negar a verdadeira possibilidade de surpresa que possa aflorir aos meus olhos quando reencontrar na lisura das suas linhas uma Índia um pouco mais solar que a desta viagem de Mumbai a Goa. Reduzir um livro a uma viagem não é o meu intento; há algo delicadamente missionário nesta demanda por Xavier, como quem decerto procura uma (certa) ideia de redenção. 

‘Estendi-me no fundo do barco e pus-me a olhar para o céu. A noite estava verdadeiramente magnífica. Segui as constelações e pensei nas estrelas e no tempo em que as estudava e nas tardes passadas no planetário. De repente lembrei-me delas como as tinha aprendido, segundo a classificação da intensidade luminosa: Sírio, Canopo, Centauro, Vega, Capela, Artur, Oríon… E depois pensei nas estrelas variáveis e na voz de uma pessoa querida. E depois nas estrelas extintas, cuja luz ainda continua a chegar até nós, e nas estrelas de neutrões, na fase final da evolução, e no débil raio que emitem. Disse em voz baixa: pulsar. E quase como se tivesse sido acordada pelo meu sussurro, como se tivesse accionado um gravador, chegou até mim a voz nasal e fleumática do professor Stini que dizia: quando a massa de uma estrela agonizante é superior ao dobro da massa solar, já não existe estado da matéria capaz de deter a concentração, e esta procede até ao infinito; já não sai mais nenhuma radiação dessa estrela, que se transforma assim num buraco negro.’


“Nocturno Indiano”, Antonio Tabucchi