1 de novembro de 2009

Enquanto dormimos as estrelas rearranjam as suas posições



Os excertos anteriores (capítulos 7 e 12, os únicos que foram dados a ler a outras pessoas) fazem parte de um romance não publicado. Não é meu intento publicá-lo. Escreve-se como quem escreve para que haja uma parte de nós que não morra, que refute o efémero e a transiência das coisas. Escreve-se para comunicar com o mundo (quantas vezes terei repetido isto para os botões do meu casaco sovado?), mas também para demonstrar algo. Algo que não devia ser passível de demonstração. As demonstrações mais bonitas encontram-se no reino da Matemática, claro está, e a este propósito merecia aqui evocar Hardy e Erdös e esse livro que Deus (aqui ele merece letrinha maiúscula) terá compilado com as provas matemáticas mais belas. Embora nesse livro não deva constar a derivação das equações de campo de Einstein a partir da acção de Einstein-Hilbert, não posso deixar de confidenciar que foi algo que sempre me deu algum prazer exercitar. Como se cumprisse um ritual. Torno-me assim numa espécie de Erland Josephson a dirimir argumentos sobre a importância dos actos (aparentemente) inúteis num filme do Tarkovski ("Offret"). Habituei-me a encarar os 107 capítulos daquele livro como uma oferenda que, diariamente, erigia. Como se as palavras ao ganhar uma consistência na folha de papel fossem elas próprias um conjunto auto-consistente de algo extremamente vital, algo de importante porque aquele arranjo e rearranjo era meu. Único. Resistente ao Lema de Borel-Cantelli e à horda infinita de macacos (explicação aqui) que assolava os meus sonhos de autor. 


[continua amanhã]