13 de junho de 2008

2. Apatia (antes)

Deu-lhe dois beijos rápidos, roçando a face de forma fugaz para que não sentisse o seu cheiro. Entrou emocionado porta adentro. Notou que esse riso lhe fazia falta, esse riso claro e gratuito, sem concessões. Porém, quando se recordava dela não evocava o seu riso, era outra coisa que surgia nos momentos mais improváveis, algo intangível, que não vem desenhado nos livros mas que poderíamos designar por “epifania", à falta de uma designação mais justa. Embora mais velho que ela, sentia-se sempre uma criança a seu lado. Resignou-se a sentar muito quieto numa ponta do sofá, não sem antes admirar a arrumação da sua sala. Verbalizou-o – não era conversa de circunstância: a sua casa apaziguava-o. Ela quedou-se pela outra ponta, também imóvel. Sabia que, afinal de contas, nenhum deles nutria alguma coisa pelo outro. Guardava-lhe um enorme carinho no coração, era o que ele costumava afirmar. Ela nunca o amou, dizia para consigo, e embora a tenha amado era apenas o seu embaixador que ali se encontrava e não ele próprio – apeteceu-lhe dizer: "Não, doravante não me irás tratar por Alexandre. Call me Ismael. Esse é o nome do carcereiro que me enclausura”. Talvez devesse ter falado da alteridade. Do outro que há em nós. Talvez de Camus. Porque não? Mas isso iria criar uma série de equívocos. Ele queria apenas fruir da sua companhia e não se alcandorar em referências óbvias ou permitir-lhe que o acusasse de viver num mundo lírico. Era verdade que ele tinha abandonado o mundo e agora construía as suas próprias regras. Somente fingir que se encontrava ali. Já não se interessava por muita coisa. Dizem que tinha perdido a fé. Prendeu a mão entre as almofadas. Talvez estivesse nervoso. Apetecia-lhe acender um dos charutos que tinha trazido. E soprar o fumo para as suas costas. fffffffffff como onomatopeia. E de seguida pousar os seus lábios. Nas costas. A pele. As coxas. Apetecia sorrir-lhe, como costumava sorrir para ela. Talvez a tivesse amado em demasia. Ou como imaginava ter sorrido para ela. Já tinha visto aquele filme. Agnés Jaoui e o careca de bigode de cujo nome não se recorda (Messieur Castela – com um ou dois l’s?). Talvez ela não se enternecesse por ele. Pelo filme, bem entendido. Creio que talvez já não a conhecesse bem. Continuava bonita. Era uma estranha para ele. Lábios pequeninos, orelhas pequeninas, quase tudo em ponto pequeno, numa delicada simetria liliputiana. Estava a ganhar um pouco de volume no seu traseiro. Uma vez fez-lhe um comentário sobre o seu corpo e ela não gostou. A história deles estava eivada de equívocos. Mesmo agora, se ela lesse essas palavras iria sentir-se magoada pelas referências em duas mensagens ao seu traseiro. Ele achava a emergência das suas rugas como algo de belo. Adorava as suas olheiras. Sempre gostou de mulheres com insónias. Que tornavam a noite presente, em suma, como Maurice Blanchot terá afirmado. Recordo-me bem que ele adorava as suas costas: era o seu violino de Ingrès. Creio que o terá dito algumas vezes, enquanto faziam amor. Bem sei que não abona nada à sua originalidade, mas ao pé dela tornava-se algo tímido e comedido nas palavras, revelando-se apenas de forma sexual. Gostava de lhe chamar de “princesa da Entropia”. É algo de rebuscado, não é? Creio que talvez acreditasse que toda a palavra seria redundante, quando a sua língua articulava elipses consumindo-se no seu sexo. Tinha pintado o cabelo: agora era morena. Pareceu-lhe amenizada pela noite. Não perguntou se era feliz. Tinha prometido a si mesmo nunca mais lhe questionar acerca disso. Havia estrelas. O triângulo de Verão. Vénus. A Ursula Andress (era como cogitava na Ursa-maior-rabo-de-frigideira). E a Cassiopeia, cadeira, éme ou dahbliú. Mentiu-lhe. Três vezes. Altair, Deneb e Vega. Em duas das ocasiões fingiu que acreditava nela. Era um jogo que a divertia. Na realidade não se incomodou. Era apenas um jogo, já disse? Fazia parte da sua faceta lúdica e pouco mais. Talvez tivesse gostado de ouvir mentiras a noite inteira. Reparou que estacionava o carro quase tão mal como ele. O certo é que ele tinha sempre imensos acidentes quando conduzia a seu lado. Esmurradelas, o pneu furado ao aproximar-se da berma do passeio, o carro atirado por um pequeno declive. Ao telefone a voz dela tinha um timbre nervoso. Era raro concordarem sobre vinhos. Como se fossem novamente estranhos. Creio que ela não o irá acompanhar à Ópera quando for a Paris assistir a Tristão e Isolda. Antes falou-lhe disso. Ela perguntou-lhe algo sobre matéria protocolar. Talvez tenham esgrimido argumentos sobre algumas coisas que não ficaram bem resolvidas. Recordou-se que a única vez que foram juntos ao cinema foi para ver Saraband ao Alvaláxia(!). Não era verdade pois tinham visto outro filme mais recentemente. Ela não tinha gostado. Do filme do Bergman. Ele tinha repousado a sua cabeça no seu colo enquanto ela afagava o seu cabelo. Num banco do centro comercial. Era feliz. Não necessitava de muito: andava com uma T-shirt coçada e uns sapatos quase rotos. Por vezes vestia-se impecavelmente. Ainda agora costuma afirmar que tem um gosto irrepreensível por camisas. Julgo ser verdade. Mas, ainda a propósito da indumentária, Silje costumava interrogá-lo como era possível alguém ter a desfaçatez de vestir três tons diferentes de castanho nas suas peças de roupa. Na altura usava rabo-de-cavalo. Durante três anos não cortou o seu cabelo. Não se percebe bem porquê. Até porque se considerava uma pessoa com algum low profile, sempre disposto a passar incógnito. Há quem diga que foi por preguiça. Outros terão outras teorias mais rebuscadas, eu não sei o que acreditar, não me interessa muito. Chegou a casa. Tinha-se despedido com dois beijos ainda mais fugidios. Durante a noite inteira não a desejou. Pela primeira vez na vida tinha-se protegido mais do que esperaria. Sentiu-se insensível. Não mais interessante do ponto de vista evolutivo que uma barata. Agora masturbava-se várias vezes. Para compensar a ausência da noite. Por fim escreveu-lhe uma carta. Os dedos orlados por uma carapaça esbranquiçada ditavam:


“Ao passar timidamente a ombreira da porta fui outra vez o teu amante, porque foi convocada à minha memória a imagem do teu corpo bem rente ao meu, as minhas mãos enlaçando-se nas tuas costas e o meu abraço muito muito forte com medo de te perder.”


Tinha sido uma noite de banalidades. Obrigava-se de há uns meses a esta parte a ser banal. Como se se comprazesse com isso. Fui me deitar e não fiquei a saber como termina a carta. Sei apenas que não chegará a enviá-la.