2 de abril de 2008

Rödluvan II



Nariz adunco, pernas arqueadas, trejeitos de menina em idade própria de traquinices madraças, seios esculpidos por um franzino vigor da natureza, mamilos dúcteis roçagando a minha imaginação, flores violáceas a crescer nos teus cabelos como nenúfares nos pulmões da Chloé em L'Écume des jours, justamente a trepar como araliáceas reunindo divindades na curva mais elíptica do teu pescoço e sorriso rasgado-rasgadíssimo a destoar com os teus gestos alvoraçados. Não foi por acaso que soltaste um sorriso de magarefe com cerca de uma vintena e meia de dentes ao léu, ao mesmo tempo que nivelavas as rugas do vestido e, oh! distraidamente, deixavas lobrigar outro tipo de curvas menos elípticas, menos algébricas, mais concupiscentes. Desenhei no ar hipotrocóides – sim, leste bem – ensaiando os voltejos com que as polpas dos meus dedos delimitariam territórios a reconhecer nessa pele de astuta tessitura que até o ar em seu redor aveludava – raminhos de alecrim e de electricidade na minha intricada estrutura sensorial deflagraram com rubor estendendo-se às faces do rosto. É só então que me apercebo dos teus desígnios: acabadinha de te escapulires de um conto de Perrault, esse teu físico tíbio não foi embaraço para despojares a Capuchinho Vermelho do seu casaco encarnado de sextas-à-noite-na-floresta-de-abetos-a-30-euros-meia-hora e, ostentando-o na minha presença, soberba e lúbrica, apressavas-te a desunir a pele ao Lobo Mau. Recuei dali com um uivo hiante e, já sem fôlego de tanto palavreado malsão, apenas houve tempo para em pasmo contemplar a forma como folheavas uma revista, desvendando que as unhas das tuas mãos durante este tempo todo estiveram tingidas de vermelho veneziano, cujo tripleto de cor no espaço-RGB é (200, 8, 21).