17 de abril de 2008

Por vezes floresce I



Sim, tenho flores no meu quintal. Não te recordas? Orquídeas, estrelícias, muitas rosas e deixa-me ir buscar um tratado sobre Botânica para me enredar na nomenclatura, mas apostaria que são margaridas, lírios e gerbérias. E acrescento: laranjeiras, limoeiros, romãzeiras, pessegueiros, ameixoeiras e outras árvores de fruto (tenho mesmo uma árvore que dá umas pêras-abacate que surpreenderam as minhas expectativas) - algumas terei-as plantado eu. Quando em miúdo uma ou duas vezes recordo-me de ter ido apanhar espigas-de-milho (as quais achava magníficas), imitar o engenheiro Sousa Veloso e cavar batatas. Dizia ao meu pai que os tubérculos não tinham piada alguma, enquanto encolhia os ombros num gesto de abandono e, com as mãos sujas de terra e de minhocas, corria para o jardim para me perder em livros, limonada ou refresco de café deixando mais uma vez o meu pai estarrecido com a minha deserção e com o meu riso de despautério enquanto corria como um desvairado em direcção ao meu mundo solitário de viagens interplanetárias, fenómenos físicos rocambolescos, peripécias com andróides, Matusaléns, amazonas, encantadores de serpentes e heróis que regressam a Ítaca depois de uma circumnavegação galáctica. É que as únicas batatas que gostava de explorar se encontravam esburacadas: tinham o nome de Fobos e Deimos, orbitavam o planeta Marte e encontravam-se à deriva nos livros de ficção científica.

[Post in memorium Arthur C. Clarke (16/12/1917–19/3/2008)]