31 de outubro de 2009

Socalcos

Hoje recordo-me bem de que a Relatividade Geral é uma teoria difeomorficamente invariante.

É irritante ter os livros estacionados em segunda fila como se estivessem à espera de serem manuseados pelo senhor deiscente da Biblioteca. Presta-se a alguma ansiedade, amor, estes olhos já estão demasiados cansados de estrelas e de linhas a fio crivadinhas com equações mal-comportadas cujas soluções não se vislumbram de forma fácil. Quando chego a casa cansado e reconforto a minha cabeça no teu peito não são os livros em segunda fila que os meus olhos procuram. Os títulos, sei-os de cor: "Dikter" (Harry Martinson), "Aparição" (Vergílio Ferreira), "Errata: revisões de uma vida" (George Steiner), "Géométrie et calcul différentiel sur les variétés" (Frédéric Pham) e um livro que ali teima em habitar e que, claro, não o saberias adivinhar.
[ não me soubeste adivinhar ]

"Cada palavra que cinzelo é como se o próprio cinzel arrancasse um pouco de mim.", não te confidenciei isto? As minhas histórias preferidas estão cheias de erros e equívocos. Quando eu dizia aos meus alunos das aulas de Relatividade Geral e Cosmologia que o importante era errar e sujar as mãos, estava a ser sincero e não a esquivar-me de reproduzir par coeur a demonstração da invariância por transporte paralelo. Mesmo uma teoria tão límpida e elegante como a Gravitação de Einstein presta-se a que nos sujemos. De pó-de-giz, de dias com sabor a romãs, de plantas em formas de filodendros, de restos de tabaco nos bolsos já um pouco carcomidos pelo tempo. Importa aqui esborratar os dedos nesta tinta, sentir a epiderme em poluta mancha de tinta e sentir sulcos escavados pelas lágrimas. 

Apetece-me dizer que o que importa é viver na multiplicidade dos espelhos, todos os dias sermos uma nova persona, dizer-se muito alto que sim, porque sim e, por uma vez, escrever um poema de fio a pavio sem pudores nem temores, viver-se como se escreve, viver como te sonho, como nos sonhámos, como fomos em noites imensas de Setembro onde o Estio teimava em não sumir. Era um calor que tanto gostavas. Mas depois veio o frio. E o homem que era o homem, sentiu-se novamente difractado; oh Whitman, meu grande sacana, se achas mesmo que a tua obra é um conjunto de sugestões e de apontamentos, que dizer das minhas palavras e acções que julgava unas?