20 de março de 2008

Primavera


Deve ser assim que começa um texto: invocando o Sol e uma chuva miudinha de fotões a salpicar promessas para o rosto. Os teus olhos, imagino-os eu, a encastelarem-se nas nuvens, reféns de adjectivos que foram sendo laboriosamente escolhidos de um dicionário de lombadas castanhas. As caducifólias há muito que não desprendem as suas folhas; essas, as do calendário, volvi-as hoje com um rompante brusco – aquele que tu conheces quando entro em ti e o teu corpo se cinde em dois e, pernas frondosas num amplexo estelar de árvore, reinvento o vocabulário da Botânica – anuncia a Primavera com gargalhadas muito ridentes e vi fotografias de flores, falaram-me de como está um pouco mais frio que o desejável e de que amanhã é dia de poesia e eu gostaria tanto de voltar a escrever um poema para ti. Vês? Comprei um caderninho de molesquina (sabes que me arruino de meiguice e desvelo por esta palavra tão estranha, tão redonda, a prometer a textura da tua pele e gorgolejos de palavras, sussurros quando em meus braços te sentias guardada) e pretendo talvez um dia destes abri-lo finalmente após uma interminável espera ditada pela minha timidez e regressar a um dia de Setembro. E chamar-te outra vez de Primavera.