13 de março de 2008

O protão inefável

"É assim que este livro começa: com um protão. É certo que não se trata de nenhum protão em particular. Não é um protão que tenha prestado valorosos serviços à Pátria. Não é um protão que se tenha distinguido nos 110 metros barreiras ou no salto em altura. Ou mesmo um protão literário, da cepa dos Nobel mais controversos (asseguro-vos que este protão não sabe sequer alinhavar uma breve linha). Se as suas origens não são nobilitárias também não serão indigentes – este protão não anda nas ruas da amargura esquadrinhando o pavimento à procura de beatas perdidas ou prostrando-se às esquinas de outras ruas (escusas mas igualmente amargas) com a indumentária típica dessas licenciosas putas mal amanhadas à espera de um cliente odioso. É apenas um protão sem nada de singular a registar pois, de resto, ele nem faz parte da estrutura nuclear dos átomos que por sua vez compõem as moléculas da tinta que cinzela estes caracteres negríssimos. E muito menos da carne ígnea que encamisa os meus ossos, registe-se. Nada disso: é única e simplesmente uma minúscula partícula de massa indistinguível de outras tantas (...)"