13 de março de 2008

À Miss A.



Cara Miss Ayb:


Devo dizer-lhe que fiquei surpreendido ao consultar o meu dicionário e, na entrada referente ao seu nome, vir lá que se trata de uma variedade de pêra. Admito a minha ignorância sobre o assunto: é que até à data só conhecia a pêra rocha, a duchesse d'Angoulème
, a francesa, a Joaquina, a pérola... Mas nunca a poderia imaginar como uma rotunda pêra. Como um citrino ou um fruto silvestre, ainda-vá-que-não-vá, mas nunca como uma vitaminada pêra cheia de ácido ascórbico e riboflavina. Em todo o caso não se abespinhe e fique a saber, Miss A., que o mesmíssimo e ignoto dicionário desconhece o meu nome, portanto não se coloque já a insultar o pobre do António de Morais Silva.

Eis o combinado: uma fotografia e um excerto. A fotografia tem dois anos (sempre gostei de escrever com giz colorido) e é uma pista imediata, mas não muito acessível, admito. Escuso de nominar a proveniência do (longo) excerto - [para quem ignora, provém do conto O jardim dos caminhos que se bifurcam do Borges, publicado no Ficções (Editorial Teorema); a tradução, belíssima como sempre, do José Colaço Barreiros].

Propus várias soluções; todas insuficientes. Discutimo-las; por fim, Stephen Albert disse-me:

— Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida? Reflecti um momento e respondi:

— A palavra xadrez.

— Precisamente – disse Albert. – O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma enorme adivinha, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção do seu nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é talvez o modo mais enfático de indicá-la. É o modo tortuoso que proferiu, em cada um dos meandros do seu infatigável romance, o oblíquo Ts’ui Pên. Comparei centenas de manuscritos, corrigi os erros que a negligência dos copistas introduziu, conjecturei o plano desse caos, julguei estabelecer a ordem primordial, traduzi a obra inteira: resulta-me que não emprega uma única vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts’ui Pên. Ao contrário de Newton e de Schopenhaeur, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurcam e se cortam ou que se secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe você e eu não; noutros, eu, e não você; noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.

— Em todos – articulei não sem um temor – eu agradeço e venero a sua recriação do jardim de Ts’ui Pên.

— Não em todos – murmurou com um sorriso. – O tempo bifurca-se perpetuamente na direcção de muitos futuros. Num deles sou seu inimigo.

Voltei a sentir aquela palpitação de que falei. Pareceu-me que o húmido jardim que rodeava a casa estava saturado até ao infinito de pessoas invisíveis. Essas pessoas eram Albert e eu, secretos, ocupadíssimos e multiformes noutras dimensões do tempo. Levantei os olhos e o ténue pesadelo dissipou-se. No amarelo e negro jardim havia um único homem; mas esse homem era forte como uma estátua, mas esse homem avançava pelo caminho e era o capitão Richard Madden.

— O futuro já existe – respondi, – mas eu sou seu amigo. Posso examinar outra vez a carta?

Albert levantou-se. Alto, abriu a gaveta da alta escrivaninha; virou-me por um momento as costas. Eu já tinha preparado o revólver. Disparei com extremo cuidado: Albert tombou sem um ai, imediatamente. Juro que a sua morte foi instantânea: uma fulminação.

O resto é irreal, insignificante. Nesse momento irrompeu Madden e prendeu-me. Fui condenado à forca. Abominavelmente ganhei: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem bombardearam-na; li-o nos mesmos jornais que propuseram à Inglaterra o enigma de o sábio sinólogo Stephen Albert ter morrido assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou este enigma. Sabe que o meu problema era indicar (através do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio senão matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) a minha inenarrável contrição e cansaço.

Deste que o estima,

Mr. Aleph