22 de fevereiro de 2008

53




Habito no cinquenta e três de uma avenida que é uma rua, mas que tem o nome de "Nova" e que nem é assim tão nova. 53 é um número primo de Eisenstein. Este Eisenstein não é o do couraçado Potemkime, o Сергей Михайлович Эйзенштейн, é antesoutro Eisenstein que não chegou aos 30. Em 1843 Eisenstein ter-se-á encontrado com Hamilton na Dublin de Yeats, Joyce, Beckett e Shaw ainda não nascidos, o qual lhe deu uma cópia do seu artigo “On the Argument of Abel, respectly the impossibility of expressing a root of any general equation above the fourth degree”. Esse encontro foi fulcral para o jovem Eisenstein ter-se dedicado à Matemática.

A sequência dos primos de Eisenstein começa assim: 2, 5, 11, 17, 23, 29, 41, 47, 53, 59, 71, 83, 89, 101, 107, 113, 131, 137, 149, 167, 173, 179, 191, 197, 227, 233, 239, 251, 257, 263, 269, 281, 293, 311, 317, 347, 353, 359, 383, 389, 401, 419, 431, 443, 449, 461, 467, 479, 491, 503, 509, 521, 557, 563, 569, 587. E se te revelo isto não é por querer que saibas que habito no 53 de uma Avenida Nova de uma cidade qualquer, anónima, anódina, cuja porta tem bem gravada esse 53 que é um primo de Eisenstein mas também um enxame aberto na Cabeleira de Berenice no catálogo do Messier, esse fanático caçador de cometas. Não é para que saibas que te aguardo impaciente com o meu florilégio de livros prestes a arborescer ante uma palavra tua; uma palavra ferina e reverdecida. Não, é para que saibas que a minha presença ingramaticável surge de quando em quando por detrás da ombreira da porta, o rosto escondido por uma barba rala e bravia que fui deixando germinar, talvez - não o saberei dizer com a precisão que é por costume assistir-me - por me sentir um eterno selvagem abandonado na minha própria ilha de "A invenção de Morel" do Bioy Casares. E a minha presença, embora fugaz, cachimbo a desafiar a ponderabilidade dos objectos preso ao canto dos lábios melanóstomos, camisas azul cerúleo com as golas já bem puídas, casaco coçado e ainda a conservar todos os cheiros dos dias que passam sem passar todavia, botões de punho absurdamente desencontrados comigo mesmo e suspensórios porque eu sempre fui um homem desajustado, um homem démodé, um homem vilmente apaixonado. E também romãs e bagas azuis a esmagarem-se na minha boca como minúsculos leptocéfalos.

(é quando sussurro o teu nome e lamento não me abraçares e ensinares-me a forma dos sinapidendros)

[Imagem: Charles Messier, 1781. Catalogue des Nébuleuses & des amas d'Étoiles. Connoissance des Temps para 1784 (publicado em 1781), pp. 246-247]

(Entrada inspirada pelo blogue 53: aqui)