6 de janeiro de 2008

det snør

39,7º de febre. "Se, Alexandre, det snør", afirmas tu com uma languidez inesperada - terna, direi. Como se a neve que respinga débil nos beirais do telhado tivesse um certo condão de redenção e não aspirasse mais a que fazer desprender essas palavras dos teus lábios. Passas as mãos pelos meus cabelos a perscrutar se já apareceram os primeiros cabelos brancos e sorris porque constatas que não. Eu devolvo um sorriso tímido enquanto beberrico esse sumo de laranjas sanguíneas tentando acreditar que será o choque de acidez e vitamina C que me irá fazer bem e debelar o estado febril em que me encontras. 397 é um número bonito, penso. Pelo menos é um número primo e isso faz-me sorrir novamente; é também um primo pitagórico e um primo aditivo (3+7+9=19 que por sua vez também é primo). Sei apenas que estou algo confuso porque o que queria mesmo era escrever sobre Lowry e não o farei. O grande beberrão terá de aguardar por amanhã.

(de lá chegam-me notícias que morreu o Luiz Pacheco - estamos cada vez mais sós, não estamos? E mais tristes?)

Agora preciso de me despir com gestos cuidados e, febril, dormir, dormir, dormir e cobrir-me com todos os cobertores que encontrar, cobrir-me apenas com o teu corpo e sussurrar-te: "És de uma doçura incandescendente". Sibilando, sibilando. E encostando a minha cabeça no teu peito adormecer assim. Ciciando, ciciando. Com a mansidão da neve a querer atapetar o meu sorriso.


[A imagem é da primeira página de Under the Volcano, Malcolm Lowry e foi uma oferta. Guardo-o com carinho redobrado, portanto.]