4 de dezembro de 2007

Toujours. Chaque jour. Rouge. (a Indecidibilidade em se ser humano II)


C'est un homme qui a des habitudes, je pense à lui tout d'un coup, il doit venir relativement souvent dans cette chambre, c'est un homme qui doit faire beaucoup l'amour, c'est un homme qui a peur, il doit faire beaucoup l'amour contre la peur. Je lui ai dit que j'aime l'idée qu'il ait beaucoup de femmes, celle d'être parmi ces femmes, confondue. On se regarde. Il comprend ce que je viens de dire. Le regard altéré tout à coup, faux, pris dans le mal, la mort.

«L’amant»
Marguerite Duras

Venho copiar este excerto do blogue da Ângela. É certo que este parágrafo não me impressionou da primeira vez que li o livro. É certo que não me recordo quando o foi. É certo que poderei estar a mentir com todos os dentes amarelos que me sobram na boca escancarada. É certo que o uso da madre-pérola daria um efeito mais poético, mas amarelo é amarelo afinal de contas, caramba. É certo que o valor da prova tem muito que se lhe diga. É certo que Gödel andava a roubar laranjas nos últimos tempos da sua vida. É certo que, mais novo e menos sapiente em Lógica Formal, também eu e S. fomos roubar maçãs (seriam laranjas?) a um pomar perto de Oslo (ela disse-me que era uma tradição da sua infância e não tive coragem de recusar tal convite). É certo que não creio ir relê-lo (refiro-me ao livro, não ao aviso que em noruguês - e que portanto não me dizia respeito - invectivava contra os assaltantes de fruta ainda verde e rija). É certo que podia ter sido para mim que a Duras escreveu. É certo que nunca vivi no seu sotão alugado, como um certo Vila-Matas. É certo e sabido que o seu "A assassina ilustrada" não faz jus à sua obra. É certo que é bem possível teres proferido a mesma coisa sobre mim, palavras bem delineadas contra os suspiros resmoneantes do ar. É certo que o mais próximo que tive de ser comparado a um protagonista de um romance foi quando alguém disse que lhe fazia recordar o coiso (não me lembro do seu nome; coiso é assim uma coisa adequada para nominar alguém) do "Os Jardins do Éden" (Hemingway). É certo que os beijos com essa mulher eram intensíssimos. E não só, é certo.

Contas feitas, prova-dos-nove-e-tudo-o-que-mais-é-devido, é certo que gosto da tua candura de astro. É certo que poderia mentir a este respeito. Já não é tão certo saber porque o faria.

(Vai haver uma imagem para aqui. Será do Tony Leung em 2046. Porquê? É certo que não saberás a resposta. Certo que sim. Talvez.)