4 de dezembro de 2007

A indecibilidade em se ser humano I

Mais tarde explicar-te-ei a presença da cavatina Casta Diva no meu blogue.




Não posso deixar de notar que um dos concertistas (certo flautista), com os seus óculos escuros pregados ao rosto, parece um agente da STASI infiltrado na orquestra. Irias desenhar um doce sorriso com esta afirmação? Pois... Eu sei que não, anjo meu, mas gosto de evocar o teu sorriso claro e lúcido. De resto, não sei se será a minha interpretação favorita - há aquela da Caballe no Bolshoi em 1974 que por muito que a ouça ainda me continua a entontecer os sentidos de estupor e admiração. Ontem era a Callas que acompanhava a minha condução no meio de um nevoeiro cerrado que se abateu sobre o meu carro - e há uma pequena história que quero contar-te sobre isto, atenta; não creio que haja viagens em vão -; ei-la, magistral certamente, no papel de Norma, Mario Filippeschi é o Pollione tonitruante e a Adalgisa é interpretada pela Ebe Stignani. É o único CD que trago no carro. Dois livros, dois livros apenas: o inseparável Paul Celan e o Frank O'Hara com o seu poema Steps:

(...)

oh god it's wonderful
to get out of bed
and drink too much coffee
and smoke too many cigarettes
and love you so much

O certo é que a palavra irrevogável é de uma estranheza suprema. Como se todas as palavras começadas por i devessem ser recenseadas ao Paradoxo de Russell com o seu estranho catálogo de livros que decerto iria fazer as alegrias de um Borges obcecado pela urdidura do tempo. É verdade que também constará desse catálogo o teu nome e a palavra

indecidível
.