2 de agosto de 2007

Epiciclos (assim a jeitos ptolomaicos)


Faz exactamente dois anos que lhe escrevia as seguintes palavras que em baixo transcrevo. Em bom rigor te digo que se esboroaram. Mas não posso deixar de pensar que estes epiciclos são bem curiosos; como se houvesse uma espécie de eterno retorno à espreita, assim a roçar numa vileza das leis da Física (if you get what I mean) em que se tornasse necessário resguardar-mo-nos dos ardis que o destino teima em montar. Mas, como sempre gostei de "cair verticalmente no vício", eis que de novo me encontrei a repetir-lhe as mesmas palavras enquanto ela me canibalizava - com o seu habitual desvelo - o sexo. Em vão a quis fazer banhá-la em felicidade. Mas foi apenas sexo folha ardente, um motel lá para as bandas de Valadares e uma garrafa de vinho que assim como assim ainda deixou uns lábios melanóstomos: suave consolo como uma noite pintalgada de estrelas. Ela tinha razão quando me fazia juramentar: "What Happens in Vegas, stays in Vegas". Afinal era só o título de um episódio de uma série bacoca. E ela uma enorme ficção.

0. Intenção e Metamorfose

Porque aqui enumero todas as palavras que não te disse.

E todas as palavras que nunca te direi.

E todas as palavras que eu desenhei nos teus lençóis e que apagaste com as pontas alvas dos teus dedos.

E todas as palavras esborratadas e diluídas pelo sal das minhas lágrimas.

E todas as palavras do mundo que ainda estão à espera de serem sonhadas ou enumeradas.

E todas as palavras que esgotam a demoníaca geometria combinatória dos dias.

E todas as palavras que sonham com elas próprias antes mesmo de alguém tê-las congeminado e que, por isso, violam a causalidade das coisas.

E todas as palavras que forram as paredes do meu ermitério.

E mesmo todas as palavras de que escarneceste quando te disse que te amava: tantas palavras puras cuja arquitectura não quiseste compreender.

Todas as palavras que se afunilaram nas minhas mãos quando te cobria o rosto com estas e abençoava os teus lábios no silêncio ocioso da noite.

Soletro com um feixe de luz estas mesmas palavras que a minha voz soube elidir até agora. Até esgotar todas as células do meu corpo neste processo. Serei então apenas uma presença de palavras bem cinzeladas na tela morta do monitor. Mas serei todas as palavras que sonhei ciciar-te um dia ao teu ouvido.