5 de junho de 2007

MacBeth


Hoje à noite talvez irá haver MacBeth e depois duas ou três Corona com uma luz pardacenta a tombar sobre o meu rosto. Hoje à noite talvez preferisse deixar as quezílias dos escoceses em paz e ver essoutra interpretação de MacBeth do Kurosawa (Kumonosu jô, 1957) com o grande Toshirō Mifune (recordas-te, amor meu, dos "Sete Samurais" ou de "Rashomon"? - naquela altura os cinemas não tinham pipocas e beijava-te as pálpebras quando a luz trémula do ecrã não te encantava, não te seduzia, não te abençoava). Hoje à noite talvez espreite com mais atenção os poucos livros que comprei na Feira do Livro do Porto e, que por alguma razão, gostaria de os partilhar contigo. Hoje à noite talvez sorria com a manipuladora Lady MacBeth. Ou talvez hoje à noite com a ambiguidade moral ou o dilúvio de sangue que se avizinha. Hoje à noite talvez. Talvez a enlanguescer assim assim em beatífico estupor de um certo álcool melífluo. Talvez a cair da cadeira. Talvez a instalar-se em mim o torpor da noite. E talvez adormecer assim: a mastigar os meus sonhos, a espezinhar as palavras e a escoucinhar o meu desejo de estar em ti como em Setembro. "Nunca cumpras as tuas promessas. É um modo muito triste de morrer" (Daniel Faria). Talvez assim. Talvez. Assim.