23 de maio de 2007

Onde termina o corpo

Bem sei que é uma combinação estranha: acordo para ler a demonstração do Teorema de Lindberg-Lévy, ouvir Jeff Buckley (soluço as palavras infinita tristeza) e depois remato com este poema do Al Berto resgatado ao esquecimento daquele livrinho que por aqui vês entretecido entre os meus dedos.

"combinara o encontro no limite deste século
onde nenhum homem dorme no limiar do dia
e o sonho se desfaz sob a nocturna incerteza

um raspar de veia reacende lumes
ilumina o turvo sangue os caminhos e a casa
onde pararam todos os relógios

quanto tempo para erguer a cabeça?
quem nos exterminará? no fim deste século
acordarão homens no outro lado da manhã?

que vestígios permanecerão desta reclusão?
e a morte existirá ainda
para além do ínfimo estremecer deste corpo?



é no silêncio
que melhor ludribio a morte



não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo

ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir"


(Al Berto, in Poesia do Mundo 2)

(Alexandre: "Gosto de ti com toda a improbabilidade do mundo")