17 de abril de 2008

Borboletear


É o que faço defronte da luz trémula do monitor, antes de dormir. Antes de dormir! Ah, se eu pudesse dormir. Se tu pudesses acolher-me nos teus braços e eu pudesse voltar a ser frágil, tropeçando nos teus olhos e levando à minha boca os mais puros adjectivos de sal quando sou língua e tu apenas poros. Antes de dormir. Antes de uma mensagem tua brunir no meu telemóvel. Oh, doce trinado das aves, oh maravilhosa surpresa.


(Tu/Ela: "E, amor, como é que se diz "Amor" em Estoniano?"
Alexandre: "Armastus. Mas é uma palavra tão estranha, quase a roçar a hesitação e a tristeza. As minhas palavras nunca foram hesitantes. Antes, são animadas de uma espécie de movimento browniano, pois ora tergiverso, ora ensaio solilóquios dignos de nota de um logomaníaco, mas nunca...
Tu/Ela: "Hmmm, vais dizer nunca circunlóquios."
Alexandre: "Precisamente. E como sabes tu isso, Azul?"
Tu/Ela: "Ora, é manifestamente simples: (...)")

E agora entreteço os meus sentidos a escutar Arvo Pärt. Für Alina. Para Alina. Nos livros do Vila-Matas há (quase) sempre a Paula de Parma. Nos meus, apenas essa ausência muito demorada e que se prolonga até aos capítulos finais sem nunca ser resolvida. Nos meus livros apenas a tua memória, páginas e páginas escondidas bem no fundo de uma gaveta. E, talvez também a identidade daquele que outrora foi o homem mais feliz do mundo. Pois tinha desenhado a palavra Sol na palma da minha mão. Tu beijava-la e uma flor impacientava-se por arborescer no meu peito, um cardume de peixes fosforescentes animava o meu rosto e um sorriso acercava-se de mim como se aqui quisesse viver para sempre.

E agora? Agora apenas esta mudez de silício e germânio. Esta mudez de quadro branco onde ninguém ousará escrever outra equação. Não me atrevo a espreitar para o fundo da gaveta. Cobre-me uma ansiedade mínima apenas de pensar no que terá crescido a partir das minhas palavras. Flores daninhas? Um ou outro cancro avermelhado, iracundo? Como se ao reler novamente aquelas três centenas de páginas o seu flogisto despertasse e, por fim, me queimasse numa sarça ardente que já não poderei sustentar.